Nos últimos anos, o vírus da Gripe A (Influezna A) tem sido responsável por epidemias sazonais com entre três e cinco milhões de casos graves, registando até 650 mil mortes por ano. Até agora, a comunidade científica não tem tido ao seu dispor medicamentos específicos para combater este vírus, mas a investigadora portuguesa, Maria João Amorim, do Centro de Investigação Biomédica (CBR) da Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa (UCP), acaba de receber a bolsa “Proo of Concept” (PoC) do Conselho Europeu de Investigação (ERC), no valor de 150 mil euros, para desenvolver, precisamente, uma nova classe de medicamentos antivirais para combater a Gripe A.Segundo explica a cientista, “o projeto, que denominamos por LOFlu_TREAT, representa uma mudança radical relativamente ao desenho tradicional de antivirais. Em vez de inibir funções enzimáticas que os vírus conseguem frequentemente contornar através de mutações no RNA que codifica as enzimas e outras proteínas virais, a nossa estratégia visa bloquear as propriedades físicas das estruturas virais. Isto abre uma modalidade terapêutica completamente nova no campo dos antivirais”.A informação disponibilizada pela UCP refere ainda que o projeto, agora financiado pela bolsa do ERC, terá a duração de 18 meses e resulta já de avanços alcançados noutro projeto da mesma cientista, também financiado pelo ERC Consolidator Grant LOFlu, que vieram demonstrar, pela primeira vez, que o endurecimento destas estruturas virais consegue bloquear a infeção pelo vírus da gripe em células e modelos animais.. Maria João Amorim destaca ainda nas suas declarações citadas numa nota enviada às redações que um dos principais objetivos do projeto "é o de reduzir o risco de resistência aos medicamentos, uma das maiores limitações dos antivirais atualmente disponíveis". Para tal, especifica, a sua equipa pretende desenvolver diferentes moléculas designadas vRNP-clips que poderão ser utilizados em combinação, tornando significativamente mais difícil ao vírus desenvolver mecanismos de escape. “Ao combinarmos diferentes moléculas direcionadas para alvos distintos do vírus, aumentamos substancialmente a dificuldade de surgirem variantes resistentes ao tratamento, reforçando a sua eficácia a longo prazo,” sublinha.Outra das vantagens desta nova abordagem ao combate do vírus da gripe A “é a elevada seletividade: como estas estruturas existem apenas em células infetadas, os vRNP-clips atuam especificamente sobre componentes virais, minimizando o impacto nas células saudáveis e reduzindo potenciais efeitos secundários”.Mas o grande potencial desta investigação é que poderá ir muito além do combate à gripe, pois os investigadores do CBR identificaram estruturas semelhantes noutros agentes patogénicos, incluindo os vírus responsáveis pelo Ébola, pela raiva, pelo VIH e pelo vírus sincicial respiratório. E, segundo explicam em nota enviada às redações, “caso esta estratégia seja eficaz, poderá abrir caminho ao desenvolvimento de uma nova geração de antivirais aplicável a múltiplas doenças infeciosas”.É que, além do seu potencial terapêutico, o LOFlu_TREAT permitirá aprofundar o conhecimento sobre os mecanismos de replicação viral, a biologia dos condensados biomoleculares e novas estratégias de desenvolvimento de medicamentos, demonstrando como a investigação fundamental pode dar origem a soluções concretas para responder a desafios globais de saúde. A equipa do projeto pretende avançar com esta tecnologia até uma fase de validação pré-clínica, aproximando-a de futuros ensaios em humanos.Sobre a gripe, recorde-se que, e segundo informação da Direção-Geral da Saúde, Portugal começou este ano com um excesso de mortalidade acima dos 45 anos. Os dados da DGS indicavam que este excesso, cerca de 22% em relação ao mesmo período do ano anterior, estava a ser registado desde o início de dezembro de 2025 e estava associado ao frio e à epidemia da gripe. Já no ano anterior, entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025, Portugal tinha registado 1.609 óbitos em excesso, devido à epidemia de gripe e temperaturas extremas, a maioria eram mulheres e pessoas com idade igual ou superior a 85 anos. Neste caso, os mesmos dados referiam que o maior impacto da gripe, cuja a única forma de combate até agora é a prevenção através da vacina, foi registado nas semanas finais de dezembro de 2024 e janeiro de 2025, período que coincidiu com o pico de atividade gripal. A nível de impacto clínico, os mesmos dados revelam que os internamentos em Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) afetaram principalmente pessoas com 55 ou mais anos, sendo a doença cardiovascular a condição crónica mais reportada. .Portugal registou 1.265 casos de gripe na semana do Natal e excesso de mortalidade nos idosos.Casos de gripe A aumentam e já se fazem sentir nos Cuidados Intensivos