O Hospital CUF Tejo, em Lisboa, acolhe hoje, dia 1 de junho, às 14h30, a entrega da Bolsa CUF D. Manuel de Mello ao neurologista Pedro Nascimento Alves, da Faculdade de Medicina de Lisboa. O galardão, com o valor recorde de 150 mil euros, financia um projeto pioneiro — da Faculdade de Medicina de Lisboa e Unidade de AVC do Hospital de Santa Maria — de tratamento personalizado focado na recuperação cognitiva após um Acidente Vascular Cerebral (AVC). O estudo visa combater sequelas frequentemente negligenciadas, como perdas de memória, atenção e linguagem, que comprometem gravemente a autonomia, a vida profissional e a qualidade de vida diária dos doentes que recuperaram a mobilidade física.A cerimónia, que assinala os 18 anos da bolsa, conta com as intervenções de Rui Diniz (CUF), Vasco de Mello (Fundação Amélia de Mello), Carlos Robalo Cordeiro (Conselho de Escolas Médicas Portuguesas) e António Rendas (Presidente do Júri), encerrando com intervenção da secretária de Estado do Ensino Superior, Cláudia Sarrico. O programa inclui a apresentação do projeto vencedor e uma visita ao Centro de Simulação CUF.Este ano, o júri atribui ainda uma Menção Honrosa a Ricardo Jorge Ferreira Taipa, do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), pelo seu estudo sobre a angiopatia amiloide cerebral por transtirretina, uma patologia hereditária com forte impacto e elevada prevalência em Portugal.Para o vencedor, este apoio — o maior prémio nacional para jovens médicos doutorados — é um verdadeiro balão de oxigénio: "Tem um impacto muito grande (...) dá-nos uma abrangência muito maior daquilo que podemos fazer". Pedro Nascimento Alves explica que a verba é crucial para viabilizar a logística complexa do ensaio clínico, cobrindo custos elevados como a aquisição de medicamentos ativos e placebos, seguros obrigatórios de doentes e a contratação de neuropsicólogos.O neurologista, que acumula a exigente prática clínica no SNS com a ciência por iniciativa própria, sublinha ainda o papel deste incentivo na retenção de talento nacional: "Quando as pessoas têm oportunidades de fazer coisas com qualidade, isso motiva e (...) a probabilidade de quererem mudar é menor."Toda esta complexa engrenagem apoia a inovação científica do projeto, que assenta no mapeamento dos circuitos de neurotransmissores — as substâncias químicas através das quais as células cerebrais comunicam e cujas redes são interrompidas pela lesão do AVC. Através de um software de acesso livre desenvolvido pela equipa, o Neuro T-Map, passa a ser possível identificar com precisão as vias afetadas."No doente X o problema é a acetilcolina (...) no doente Y o problema já é mais a serotonina", explicou mais demoradamente ao DN Pedro Nascimento Alves, dias antes de receber este prémio. Com base neste diagnóstico personalizado, o ensaio clínico direciona o tratamento utilizando medicamentos que já existem no mercado para outras patologias (como a depressão ou Parkinson), administrados na primeira semana após o AVC para reativar os circuitos antes que a perda seja irreversível.Antes ainda da cerimónia de entrega dos prémios, Rui Diniz, presidente da Comissão Executiva da CUF, afirmou em comunicado que a bolsa "é um instrumento fundamental para apoiar a investigação clínica em Portugal e para aproximar o conhecimento científico da prática médica", reforçando o compromisso com a melhoria dos cuidados de saúde. No mesmo documento, Vasco de Mello, presidente da Fundação Amélia de Mello, sublinhou que "apoiar jovens médicos investigadores é investir no futuro da Medicina em Portugal", de modo a traduzir o conhecimento científico em respostas reais para os doentes e para o sistema de saúde.Este investimento no futuro da ciência assume especial relevância face às contrariedades financeiras sentidas de forma crónica por quem faz investigação em Portugal. Pedro Nascimento Alves alerta que a sustentabilidade dos projetos clínicos no país está quase sempre sujeita a uma grande instabilidade: "Estamos sempre dependentes de bolsas", explica, referindo que a falta de apoios estruturais obriga a equipa a uma busca constante por financiamento para não deixar cair as investigações.No caso deste ensaio clínico, o projeto já tinha contado com uma rampa de lançamento inicial através do Prémio Maria de Sousa de 2024. Contudo, a dotação anterior revelou-se insuficiente para a escala pretendida. "Já havia um primeiro financiamento, mas que não nos permitia ter uma abrangência tão grande como este financiamento, que é superior, vai permitir", afirma o clínico, adiantando que todos os investigadores têm de de estar sempre atentos a todos os tipos de financiamento e aproveitá-los ao máximo.Para o médico, a verba de 150 mil euros assume uma importância histórica no ecossistema científico nacional: "É um valor muito, muito significativo para a investigação clínica ou para a investigação translacional. Acho que a nível nacional é um prémio muito importante mesmo, e que faz uma diferença grande."