Vício da internet já atinge 25% dos jovens

Estudo do ISPA com três mil jovens revela que um quarto passa mais de seis horas na net. Psicóloga lança livro para ajudar a criar regras

Ignorar a internet ou proibir as crianças de usar este meio não pode ser a opção para os pais do século XXI. Mas o caminho também não é o de deixar a utilização da rede sem regras. Para resolver este dilema, Ivone Patrão escreveu o livro #Geração Cordão, que pretende ser "um guia para as pessoas fazerem o seu guião". Até porque não há uma fórmula mágica igual para todos. Certa é a necessidade de se criar uma regulação informal dentro de cada família para o uso da internet e das redes sociais. Até porque os dados mostram que 25% das crianças e jovens em Portugal são clinicamente dependentes, segundo o mais recente estudo do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), feito por uma equipa liderada por Ivone Patrão.

Numa amostra de três mil jovens, um quarto admitiu que passa mais de seis horas diárias ligado, privilegia os contactos online aos presenciais e não tem atividades de lazer no mundo real. Dados "preocupantes", no entender de Ivone Patrão. Terapeuta familiar, a autora considera alarmante o facto de "os jovens dizerem que têm conflitos no seio familiar e que não sentem a sua família como coesa". "É um enorme fator de risco, sobretudo para aquela percentagem que revela já dependência." A par dos números reais de dependência existe a própria perceção dos jovens em relação à forma como estão sempre ligados. "Uma das questões era "consideras-te dependente da internet?" E mais de 60% deles disseram que sim, no sentido em que não conseguiam viver sem a internet", explica.

É para evitar que os jovens vivam colados aos smartphones e aos computadores que os pais têm que tomar medidas. "Enquanto pais percebemos que temos de os ajudar desde pequenos na autorregulação para saberem como se deve comer, a que horas, as questões do sono, da segurança. Passamos uma série de comportamentos e estamos preocupados com eles, e este é mais um dos comportamentos que temos de ajudar a autorregular", defende.

Mas esta não é uma tarefa fácil. Um dos primeiros desafios é tirar dos pais a ideia de que se o filho está no computador está mais seguro do que na rua. "O que mais me preocupa é os pais dizerem "que bom, eles estão em casa sossegados e não há perigo porque não estão na rua e já não vão para as drogas e com más companhias". Isso é muito arriscado, porque eles estão no quarto com uma janela para o mundo." E dá um exemplo desses riscos: "Se antes éramos vizinhos de um predador, na internet somos vizinhos de cem."

Difícil também é muitas vezes perceber o que os filhos dizem que fazem online. "No estudo, as crianças começaram a ter contactar com a internet aos 6 anos, enquanto a média dos pais foi aos 24. Há uma grande diferença", sublinha Ivone Patrão. Para ajudar a estreitar esse fosso, o livro tem um glossário com algumas expressões e tendências online.

Mas não é só pelos perigos que existem online, seja o jogo, os predadores ou o cyberbullying, que as crianças e jovens devem ter regras no uso das tecnologias. O isolamento e a preferência pela tecnologia são entraves ao normal desenvolvimento. Na adolescência "há uma série de tarefas que implicam alguma dificuldade na socialização, no primeiro namoro, e face a essa dificuldade retraem-se e acabam por entrar no mundo online". Este até pode ser "um primeiro passo que desinibe, mas não pode ser o único e continuar só neste meio". Nas consultas de psicologia e terapia familiar, Ivone Patrão vê "muitos jovens que continuam a fazer namoros online e nuca se conheceram, faz lembrar as histórias platónicas".

Estes e outros casos são relatados no livro para exemplificar os problemas e os desafios online (ver exemplos nestas páginas). Porém, a investigadora não quer que este seja um livro no qual se defende a proibição. "Este é um alerta para a reflexão dos pais e educadores e para promover um diálogo pela positiva, porque, se vamos passar a mensagem de que é um bicho-papão, não estamos a passar a mensagem correta."

Há exemplos positivos, "uma família que passa muito tempo fora, ou que vive noutro país e quer manter a ligação, vai passar mais tempo no Skype e online, e esse tempo não pode ser visto como uma dependência". O alerta a passar é "o da autorregulação". "Senão todas as tecnologias passam a ser uma extensão do nosso corpo, e a comida não é uma extensão do nosso corpo, a pasta de dentes também não é, há momentos que estamos ligados e momentos em que não estamos."

Além dos pais também a escola deve estar atenta à forma como integra as tecnologias e as redes sociais. Podendo para o efeito utilizar a disciplina de Tecnologias de Informação e Comunicação.

É dessa reflexão em rede - jovens, pais, escola e comunidade - que a autora espera que se construa um cordão "suficientemente solto" que permita uma ligação saudável e sem dependências das tecnologias e da internet.

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