Utentes desagradados com apelo da Soflusa: "Devia haver uma alternativa"

Soflusa tinha recomendado que os passageiros evitassem deslocações do Barreiro para Lisboa entre as 8 e as 9 horas. "Quatro ou cinco carreiras" suprimidas durante a hora de ponta da manhã desta quarta-feira

Mesmo sob o nevoeiro que cobria o Barreiro, foi bem visível o aglomerado de centenas de pessoas junto às portas de embarque do terminal fluvial durante a hora de ponta da manhã desta quarta-feira. "Lotação completa", podia ler-se num placar eletrónico, por volta das 7.45. Bem perto, estavam estacionadas ambulâncias, prontas para o que desse e viesse depois de, na véspera, várias pessoas se terem sentido mal, uma mulher ter desmaiado e outras se terem magoado na tentativa de forçar a entrada.

Os acontecimentos do dia anterior e a recomendação da administração da Soflusa para que os passageiros evitassem deslocações do Barreiro para Lisboa entre as 8 e as 9 horas eram os principais temas de conversas entre os que ansiavam pela entrada nos navios, rumo à margem norte do Tejo. "Acho que é estúpido. O meu patrão não me diz para chegar tarde. Porque é que a administração não vem aqui dar a cara?", disse Ana Maria Guerreiro, funcionária pública na Praça do Comércio, em declarações ao DN. "As creches abrem mais cedo? Vamos acordar as crianças mais cedo?", questionou outra utente, que seguia a nossa conversa no local, onde também se ouviram protestos mas sem o nível de tensão que se viveu durante a manhã de terça-feira.

"As pessoas não podem evitar a vida que têm. Ou faltam às aulas ou ao trabalho. Se grande parte das pessoas trabalha em Lisboa, devia haver uma alternativa", considerou o jovem estudante David Rodrigues, que na véspera tinha chegado atrasado às aulas, na Cidade Universitária, algo que deveria repetir esta quarta-feira. "Era para apanhar o barco das 8.15, mas apanhei o das 8.40 ou depois disso. Cheguei 40 minutos atrasado, e até tinha chegado mais cedo ao terminal. Não tenho um meio alternativo. Pago 45 euros de passe e lá em casa somos três prejudicados", contou, depois de no dia anterior ter assistido a uma "grande barafunda no terminal", com "pessoas aos gritos" e a "forçarem entrada". "Partiram um vidro e houve senhoras que se sentiram mal", afirmou, durante a espera na fila.

Na mesma fila, minutos antes, Ana Maria Guerreiro já tinha perdido duas carreiras, numa repetição dos acontecimentos que tinha vivenciado na terça-feira. "Cheguei às 7.30 e embarquei às 8.30. Estava a contar apanhar o das 7.40. Só não cheguei atrasada porque posso entrar até às 10 horas. Pago 36 euros de passe e os outros meios não compensam. Cada comboio é muito caro, é horrível", desabafou Ana Maria Guerreiro, que teria de viajar até Coina ou Pinhal de Novo para poder apanhar um comboio da empresa Fertagus.

De acordo com números revelados por Paulo Rodrigues, da Comissão de Trabalhadores da Soflusa, foram suprimidas "quatro ou cinco carreiras" durante a hora de ponta desta quarta-feira, entre as 6 e as 9 horas, o que além da redução temporária da frota também se deveu "a atrasos motivados pelo nevoeiro". Certo é que, a dada altura, os horários já não estavam a ser respeitados: assim que pudessem desembarcar e recuperar um pouco do tempo perdido, partiam em direção a Lisboa.

Utentes falam em lugares vazios, mas fiscais garantem lotação completa

Uma das queixas mais frequentes durante a manhã desta quarta-feira, na fila junto à zona de embarque, era de que os barcos transportavam menos passageiros do que o que a lotação comporta, havendo até quem dissesse que só estavam a ser transportados 200 ou 300 de cada vez. Os utentes frisavam que tinham viajado na véspera em navios com lugares vazios, mas de acordo com um fiscal da Soflusa, tal deve-se às "pessoas que ficam de pé". Uma visão comprovada pelo DN, que viajou no barco que partiu perto das 9.30 rumo a Lisboa e que apresentava alguns lugares vazios, mas também várias pessoas de pé e outras sentadas nas escadas do navio.

"A lotação de cada navio é de 600 lugares, mas como os torniquetes não têm uma precisão exata, fecham às 585. Há pessoas que ficam de pé e é normal que se vejam lugares vazios. O que as pessoas dizem não pode corresponder à verdade", explicou ao DN, admitindo que "nestes dias, não tem havido fiscalização". A mesma justificação foi dada por Paulo Rodrigues, da Comissão de Trabalhadores. "Os torniquetes não têm grande precisão e têm que se fechar um pouco antes. Mas apenas metade da lotação? De maneira alguma".

FECTRANS pede alternativa

O presidente da Federação dos Sindicatos dos Transportes e Comunicações (FECTRANS), José Manuel Oliveira, disse ao DN, por telefone, que "devia haver transportes alternativos" para fazer face às perturbações que estão a ocorrer esta semana, com a redução de carreiras por "indisponibilidade da frota", que passou a funcionar apenas com quatro dos oito navios.

A situação, para José Manuel Oliveira, não é nova. "O problema foi um dos primeiros temas colocados ao atual governo, para que os utentes pudessem ser servidos com mais qualidade", vincou, criticando a recomendação por parte da administradora da Soflusa, Marina Ferreira. "É a declaração de alguém que está desesperada e não consegue responder ao problema. Tem de encontrar soluções muito rápidas para evitar que isto volte a acontecer", frisou.

Já para um dos membros da Comissão de Trabalhadores da Soflusa, Paulo Rodrigues, o que está a acontecer durante esta semana "é um culminar de situações, iniciadas por Rui Loureiro [então administrador do grupo Transtejo e Soflusa] em 2011, de esvaziamento na empresa". "A atual administração encontrou a empresa num caos", aditou.

Paulo Rodrigues disse ao DN que a posição da Comissão de Trabalhadores "tem sido alertar o governo para a resolução desta situação, para que haja reparação de mais navios". "A frota passou de nove para oito, e desses oito, esta semana só estão a operar quatro. Foi aberto um concurso público, mas esses processos são sempre muito demorados", lamentou.

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