Religião movimenta 330 milhões de turistas por ano e seis milhões vão a Fátima

Santuário eleva Ourém ao 7.º concelho com mais hóspedes. Operadores preveem boa afluência em 2017 num setor a subir

O turismo religioso está a aumentar em todo o mundo. A Organização Mundial do Turismo estima que o turismo espiritual, como também é conhecido, movimente anualmente 330 milhões de pessoas, que fazem 600 milhões de viagens. Também Portugal está a aproveitar este mercado, com várias entidades a fazer a sua promoção. Atualmente, garantem os operadores turísticos, todos os destinos religiosos passam por Fátima, que recebe seis milhões de pessoas por ano, ou seja cerca de 2% do total mundial de quem procura este tipo de viagens.

"É um turismo em crescimento e as entidades ligadas a Fátima estão muito dinâmicas no sentido de apanhar esta onda. Têm surgido mais hotéis e desde há quatro anos que realizam um congresso internacional sobre turismo religioso [o V é a 9 e 10 de março]", reconhece Miguel do Ó, diretor da Frota Azul, empresa da Barraqueiro para a área do turismo. A empresa aluga autocarros e se antigamente Fátima podia ou não estar no programa turístico, agora é passagem obrigatória, diz o responsável. "Verifica-se um maior número de circuitos com os chamados santuários marianos e que forçosamente passam por Fátima. A TAP também beneficia com isso, porque os turistas fora da Europa entram por Portugal, nomeadamente os brasileiros, filipinos e sul-coreanos."

O circuito pode ser só religioso ou também cultural e começar em Lisboa para terminar em Paris, incluindo Cova de Iria, Santiago de Compostela (Espanha), Lourdes e Lisieux (França). A Frota Azul está a recorrer a outras transportadoras para satisfazer os pedidos de aluguer e não só para 12 e 13 de maio [data da presença em Fátima do Papa Francisco, que vem presidir às cerimónias do centenário das aparições].

"Acreditamos que o crescimento do turismo religioso não é meramente conjuntural, tem crescido ao longo dos anos. Neste ano poderão vir um milhão de pessoas nos dias 12 e 13 de maio e não é só Fátima que beneficia com esse movimento, são todas a cidades envolventes", defende Alexandre Marto, vice-presidente da Associação Empresarial Ourém-Fátima (ACISO). E elogia os responsáveis pelo turismo, que "pela primeira vez estão a dar a devida importância ao turismo religioso e não o entende como uma parte do turismo cultural."

Ourém é 7º em hóspedes

Aquele dirigente, diretor do Fátima Hotels Group (dez unidades hoteleiras), sublinha que Ourém é o sétimo município de Portugal com mais hóspedes (em 308) e que a nível dos proveitos está em 15.º lugar, com 27 milhões de euros. Os estrangeiros estão em maior número na ocupação, com 61,5% (ver infografia) mais do que a média nacional, o que sobe para 69% no número de dormidas. E, nesta estatística, não estão incluídas as camas disponibilizadas pelas entidades religiosas localizadas em redor do santuário e que, segundo o dirigente da ACISO, somam sete mil.

A nível das nacionalidades dos visitantes, os espanhóis estão em maioria, três vezes mais do que os italianos que ocupam o segundo lugar. O top 10 dos países emissores completa-se com França, Coreia do Sul, Polónia, Brasil, EUA, Alemanha, Irlanda e Reino Unido.

Alexandra Frazão é diretora da Verde Pino, agência de viagens que nasceu em Fátima há 45 anos. "Somos a primeira, o meu pai e a minha mãe abriram este espaço por sentirem que havia necessidade de os estrangeiros terem uma operadora que os acolhesse no país. Hoje temos 15 funcionários e, no início, eram só belgas e franceses, hoje, trabalhamos muito com italianos, além de grupos fora da Europa".

Neste ano, a Verde Pino está com dificuldades não só em reservar alojamentos mas também transportes para algumas datas entre março e outubro. "Os hoteleiros não se podem queixar, vêm muitos grupos, charters, estou a recusar grupos, tenho uma média de 15 por semana. Desde o final de abril até 18 de maio não se consegue nada, agosto está péssimo, setembro não se fala e outubro é sempre forte", explica.

Uma perspetiva promissora, pois uma das queixas dos empresários locais é a baixa ocupação. Há picos de visitantes, mas em geral é reduzida. O número de reservas e de noites por cliente aumentam em todo o país, mas no Centro, particularmente em Ourém, está muito abaixo da média nacional. A subida na afluência de hóspedes é mais visível, o que se deve aos portugueses. O governo, o Turismo de Portugal, a Igreja Católica, as associações e empresários querem promover Fátima como destino ao longo de todo o ano (ver entrevista com secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho), beneficiando da vinda do Papa mas essencialmente do centenário das aparições.

Os últimos dados do Santuário de Fátima, divulgados há uma semana, indicam que os meses com mais peregrinos em excursões organizadas são outubro e setembro, seguindo-se maio, agosto, abril e junho em igualdade numérica. São estes os grupos com os quais trabalha a Verde Pino, em viagens organizadas ao pormenor, não só com alojamento e refeição, mas também a participação nas celebrações religiosas. São excursões das paróquias e que trazem pelo menos um padre, que pede um local para celebrar missa e que também pode participar nas cerimónias oficiais, tudo isso é programado através do Serviço de Peregrinos (SEPE).

Os visitantes estrangeiros são em tudo semelhantes aos grupos nacionais. Estes constituem 70% dos clientes da Sacro, agência com três anos. Na maioria peregrinos, mas há um aumento de pessoas que não vai a Fátima só pela fé. "30% a 35% vão por curiosidade, por uma questão de conhecimento. São clientes que estão mais próximo do que é o turismo moderno, que não viajam só por um motivo, por exemplo, não fazem só praia. Há cada vez mais o cliente que quer fazer turismo religioso, mas também quer conhecer a parte cultural, gastronómica, etc.", diz Antero Canárias, um dos sócios.

Francisco Moura, consultor da Geostar, tem experiência de 46 anos em turismo, particularmente no turismo religioso, também como turista. Experiência que partilha no livro que publicou, Viajar pelo Mundo, em que escreve sobre 124 países que visitou, dando ênfase à história e à paleontologia. Publicou também Itinerários da Fé, em coautoria com Paulo Mendes Pinto. Fátima surge à cabeça numa lista dos seus dez melhores destinos religiosos e que passam por Santiago de Compostela (Espanha), Lourdes (França), Vaticano (Itália), Czeestochowa (Polónia), Jerusalém (Israel), Benares e Sarnate (Índia), Guadalupe (México) e Aparecida (Brasil).

"O turismo religioso é um nicho de mercado e Fátima está no primeiro lugar, tanto pela importância que o país conquista ao nível do turismo como pela relevância na Igreja Católica. Como santuário mariano, Fátima é o mais importante de todos, graças a João Paulo II. E é um dos mais bonitos do mundo", diz Francisco Moura. Sublinha que há uma vertente religiosa e espiritual, razão pela qual a vila recebe praticantes de outros credos e não praticantes. Acrescenta que o Bom Jesus de Braga é outro dos destinos religiosos em Portugal, mas que 99% deste turismo se centraliza na freguesia de Ourém. Belmonte é um dos destinos em ascensão, devido à história da comunidade judaica.

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