"Os polícias eram deuses, agora são como nós"

Reportagem na Cova da Moura: o bairro que se habituou a ter medo da polícia

Num bairro que se habituou a ter medo da polícia, a ouvir "para dentro, caralho", a revistas sem motivo, a portas partidas, a balas perdidas, a ser tratado por tu, a não protestar "porque é pior" e a não fazer queixa "porque não serve de nada", a acusação do MP à esquadra de Alfragide é como uma esmola demasiado boa: o pobre quer acreditar mas desconfia. É muito tempo sem justiça nem lei, de "preto vai para a tua terra", de "cala-te se não queres levar". A sede de uma espera só se estanca na torrente. Virá ela?

"Não quero foto porque depois veem-me na rua e ainda me batem. Fazem o que lhes apetece. Tenho medo, fogo, tenho duas crianças." Na semana em que foi notícia a acusação do Ministério Público a todos os efetivos da esquadra de Alfragide por violência racista contra seis jovens da Cova da Moura, a maioria dos entrevistados prefere não ser fotografada ou sequer identificada pelo nome completo. Como Vânia, 25 anos, que sobe uma das íngremes ladeiras do bairro sob o sol inclemente da manhã. "Fiquei bué contente de termos ganho, eles usam bué o facto de serem polícias para fazer o abuso que querem. Porque é bairro, só preto, pretalhada, que não fazem nada da vida - é o que eles acham. Mas eu faço, e a maioria das pessoas também. Não digo que não há quem faça porcaria, aqui há tráfico, bué de cenas. Mas por uns pagam os outros?"

Ganharam? Vânia corrige: "Pois, para já é só acusação. Vamos ver o que dá. Mas só isto deixa-nos contentes, nunca aconteceu." Nascida em Loures, mãe de dois rapazes - um com 7 e outro com 1 ano -, vive aqui desde os 6, quando a mãe, para fugir a uma situação de violência doméstica, veio para o bairro onde já residiam os pais, vindos de Cabo Verde. O avô materno, de 95 anos, ainda cá está, na casa que construiu, "rijo e a fazer tudo sozinho". Já Vânia, atualmente a receber o subsídio de desemprego - o último trabalho que teve foi a "servir às mesas" -, alugou a sua, um rés-do-chão com quatro assoalhadas que acha "muito giro" a uma vizinha idosa que lhe cobra 300 euros sem recibo. "Gosto de viver aqui. Se pudesse escolher? Sei lá. Talvez fosse para a Caparica, adoro."

Conceição Fernandes, vendedora de rua, vive no bairro há oito anos. Apresentou queixa contra a PSP por lhe ter derrubado uma grelha cheia de carne: “Fazem maldade sem necessidade.”

A má relação entre o bairro e a polícia parece-lhe um adquirido, naturalidade construída em décadas de incidentes vistos ou narrados. "Alguns são simpáticos mas a maioria são bué agressivos. Uma vez estava à varanda, quando ainda vivia na parte de cima do bairro, e vi-os sair da carrinha e abordar um rapaz. Ele disse "eu não fiz nada" mas começaram logo a bater-lhe. E ai de alguém que pense em enfrentá-los ou sequer abrir a porta. Levamos logo na cara." Já no fim da conversa, lembra-se de que a amiga com quem estava a trocar mensagens antes da conversa com o DN tem um processo da polícia. "Sabe porquê? Porque quando os polícias passaram disse "Uiu"." Uiu? "Sim. Só disse isso, uiu. Pararam, deram-lhe grandes chapadas e chamaram-lhe isto e aquilo. Foi condenada, tem de pagar a multa e fazer trabalho pela comunidade." Mas foi condenada com que motivo? Vânia encolhe os ombros. "Eles arranjam sempre coisas." E ela não fez queixa? "Para quê?"

Para quê. Paradoxo num momento em que pela primeira vez na história do país uma esquadra inteira irá ser - em princípio - julgada. E por crimes que incluem, além de ofensas à integridade física, sequestro, denúncia caluniosa e falsificação de documentos, ainda tortura e discriminação racial. Como se algo de tão inédito, revolucionário até, nada mudasse realmente. Ou as pessoas tenham dificuldade em acreditar que algo pode mudar, ou usem o ceticismo como defesa contra desilusões. Ou prefiram manter o estatuto de "vítimas do sistema", o discurso consolidado do "nós e eles", do "não vale a pena", "não nos dão hipótese", porque construíram a sua identidade com base nisso, e sem ela ficarão perdidos. Um jogo de espelhos.

Interessante porém - talvez mesmo o mais interessante - que mesmo assim tantos neste bairro falem com cuidado e reserva sobre a acusação, advertindo para a necessidade de investigar, de saber a verdade, sem assumir qualquer conclusão, dando o benefício da dúvida aos polícias mesmo quando ao longo da conversa acabam por, como se não tivesse importância nem merecesse especial menção e sobretudo não permitisse inferir nenhuma regra, narrar episódios de abuso policial consigo próprios. Um respeito pela presunção de inocência - ou será receio, por estarem a falar com jornalistas? - que contrasta com as defesas furiosas da atuação policial e da inocência dos polícias que se encontram no discurso de centenas de comentadores de site de jornal e Facebook, alguns sindicatos da PSP e comentadores que, como por exemplo Jorge Coelho (que foi ministro da Administração Interna de Guterres) e Lobo Xavier (na Quadratura do Círculo de anteontem), consideraram "impossível" que as condutas imputadas pelo MP tenham mesmo ocorrido.

Impossível. No entanto ainda há dois anos o país viu nas TV o espancamento e detenção de um adepto benfiquista, ante os filhos menores do primeiro, pelo subcomissário que chefiava o policiamento de um jogo de futebol em Guimarães. Subcomissário posteriormente acusado pelo MP não só por ofensas à integridade física e abuso de autoridade mas também por ter falsificado o auto de notícia e apresentado queixa, baseada em factos falsos, contra as suas vítimas. Aí ninguém falou de "impossível". Porque viram? Ou pela natureza do agredido?

A partir de meio das tardes de verão, começam a sair as grelhas para a rua: maçarocas, espetadas, frango, tudo para vender a quem passa

"Os polícias negros ainda são piores"

Sentada na rua a comer uma maçaroca cozida enquanto fala com a amiga Filomena, que costura tecidos africanos do lado de dentro da janela, Maria é outra das pessoas abordadas pelo DN que nem o primeiro nome quer dizer. Nasceu em Cabo Verde há 67 anos e veio para Portugal em 1973, como criada interna. "Naquele tempo tínhamos de vir já com trabalho. E não tínhamos férias nem folgas. Até a cama tinha de abrir à noite e só não lhes dava banho porque se calhar tinham vergonha." Ri. "Muita lágrima chorei." Agora explora um café aqui, na porta ao lado, há 15 anos. Nem ela nem Filomena moram no bairro, nunca moraram. Mas Maria não tem conta às vezes que a polícia lhe entrou no café para uma rusga. "Já perdi muito dinheiro em refeições porque eles vêm e levam as pessoas que estavam a comer. Chegam e é tudo igual, batem logo, mandam as pessoas deitar no chão. Não quer dizer que não haja aqui delinquentes mas não são todos. Nos cafés dos portugueses não fazem isso." O olhar e uma pausa vincam a indignação. "Aqui há muito racismo mesmo. Em todo o sítio de Portugal onde vamos existe racismo." Se houvesse mais polícias negros, acha que melhorava? "Não. Acho que os polícias negros ainda são piores. Fazem mais abuso ainda. É tudo polícias, são todos iguais." De resto, a novidade da semana não a impressiona: está cética sobre o resultado. Como sobre Portugal: apesar de viver cá há mais anos que os que viveu em Cabo Verde, nunca quis a nacionalidade portuguesa. "Tendo documento ou não chamam-me preta na mesma."

Vestida à moda cabo-verdiana, lenço na cabeça e capulana, a vendedora da maçaroca que Maria come esteve a ouvi-la em silêncio. "Em todo o país do mundo existe isso", sentencia num português acriolado, simultaneamente plácida e definitiva. Chegada ao país há apenas há três anos, veio direta para a Cova da Moura. Alegando que a comida que traz para vender arrefece, escusa-se a falar da acusação à esquadra, da qual garante não saber nada. E parte, apressada. Em contraste, Filomena, a costureira, não vai a lado nenhum. Fala enquanto trabalha, diz o nome, deixa-se fotografar, sorridente. Vive em Portugal há 19 dos seus 47 anos, e gosta "muito". Nunca morou aqui, tem casa no Monte da Caparica, mas abriu cá o ateliê porque achou que iria ter muita freguesia. Tem, está contente. E, ao contrário de Maria, que se revolta, e da vendedora de milho, que acha que o mal é da natureza do mundo e das pessoas, diz nunca se ter sentido alvo de racismo em Portugal. Mesmo se, paradoxalmente, reconhece que ele existe. "Não vejo outra explicação para essas coisas [o que Maria conta e o que o MP imputa aos polícias] senão isso, racismo."

"Esta acusação é como uma emenda"

Racismo. Maria Patriarca, 61 anos, 36 em Portugal (veio em junho de 1974, como Maria para "servir"), nunca usa a palavra ao longo da conversa. Dona do Coqueiro, um dos restaurantes mais conhecidos da Cova da Moura, cuja cachupa de domingo é famosa e que ao fim de semana tem música ao vivo, vai servindo pratos enormes de comida enquanto fala. "Em oitentas e tais o bairro era muito sossegado, de há uns anos para cá ficou assim." Assim? "Assim como está a ver. Mudou muita coisa. Se fosse hoje sinceramente não fazia este investimento. Dantes vinham pessoas de fora, de todo o lado para comer, para as festas. Agora, se dizemos de onde somos as pessoas recuam logo." Ainda assim continua, garante, a ter muitos clientes de fora do bairro. Mas "também quem vem para aqui fazer porcaria muitas vezes é de fora." Porcaria como? Para de pôr salada num prato, a vincar a ironia. "Então, assaltos, etc. Não vou dizer que não é verdade, já salvei muita gente de ser assaltada."

Do assunto da semana diz não ter opinião. "Não tenho nada contra a polícia, fazem o trabalho deles. Tem de haver polícia, que seria sem polícia." Mas a bonomia do tom choca com o que conta da sua relação com a PSP: tudo menos um conto de fadas. "Antigamente tinha-os aqui todos os dias. Primeiro era porque não tinha alvará, depois era por outras coisas. Chegavam aqui e identificavam toda a gente, revistavam, muitas vezes punham velhos e novos em pé de mão na parede." E a senhora que fazia perante isso? "Aí discutia com eles. Achava que não tinham o direito." E faziam-no porquê? "Porque é que a polícia faz tudo aqui? Suspeitam da Cova da Moura por causa da droga. A mim até já me partiram a casa várias vezes. Entram pela casa dentro e reviram tudo à procura de droga. Uma vez contei 13 portas deitadas ao chão." Mas porquê mandar as portas ao chão, não as abriu? "Estava na janela e vi-os chegar e disse que lhes abria a porta da rua e não deixaram." E como foi tratada? "Trataram-me tão bem que me mandaram deitar no chão. Fiquei lá deitada mais os meus filhos." Suspira. "Mas não tenho nada contra que façam o trabalho deles." Pagaram-lhe as portas? Ri. "Acha? Não fazem nada disso." E fez queixa? "Vou fazer queixa porquê? Se fosse hoje se calhar até fazia, mas na altura andava muito cansada para isso. E a Cova da Moura sempre foi assim, as pessoas acabam por se conformar com a situação. Já temos os problemas e depois ainda vamos arranjar mais?" Mas por que acha que a polícia age assim? Por racismo? "Na minha opinião não falo de racismo. É o bairro. No bairro toda a gente é vista como igual."

Na Cova da Moura há oito anos e há 18 em Portugal, Conceição Fernandes, 42 anos, veio de Cabo Verde para operar o coração e pôr um pacemaker - mostra a cicatriz enorme que chega ao pescoço - e ficou. Às seis da tarde, está a grelhar maçarocas na rua, sentada num degrau. Noutros dias vende doces, grelha carne - é assim que ganha a vida. "Houve uma noite em que a polícia chegou e mandou toda a gente para dentro - "caralho caralho caralho". Tinha a grelha cheia de carne na rua com fregueses à espera e outros já a comer que ainda não tinham pagado e tive de fugir para casa. Quando voltei a sair mais a minha filha tinha a grelha no chão, a carne no chão. Fiz queixa e ainda estou à espera. Nunca mais disseram nada." Olha nos olhos, longamente, como quem perscruta preconceitos, adivinha pensamentos. "E ainda dizem que as pessoas do bairro não prestam. Não venham dizer que fazem isto por causa do tráfico, há tráfico em todo o lado. A polícia faz maldade sem necessidade. Usam a palavra preto, o vai para a tua terra. Esta acusação é como uma emenda. Agora sabem que devem entrar aqui sem maltratar ninguém."

"Não nos podem tratar por tu?"

Intervenção policial na Cova da Moura, janeiro de 2013, YouTube. Som de tiros, agentes que correm, agentes que avançam de arma na mão a mandar recolher, aos gritos, quem os observa: "Para dentro, caralho." Que maneiras são estas de falar com as pessoas? Que é isto de avançar de pistola na mão, como em zona de guerra? Onde ficam as regras de civilidade e respeito no relacionamento com os cidadãos estatuídas claramente no Regulamento da PSP? Que cultura é esta?

Cresce-se aqui a ver isso – a ver os pais a serem agredidos, com um sentimento de medo e de revolta.

"Ah, eles não nos podem tratar por tu? Não sabia." Jakilson Pereira de Almeida, 32 anos, funcionário do Moinho da Juventude, licenciado em Educação e Mestre em Sociologia da Educação, surpreende-se. E Jakilson é um bom exemplo da extraordinária normalidade deste bairro, da extraordinária anormalidade do estado de exceção que aqui se instituiu. Jakilson tem recursos, o número de telefone de muita gente - jornalistas, advogados, dirigentes associativos, políticos. Ele, como os funcionários do Moinho da Juventude que o MP considera terem sido sequestrados e espancados na esquadra de Alfragide, tem "uma rede" que o pode defender, apoiar, salvar. Mas mesmo assim confessa: "Tenho medo da polícia, sim. Evito ter confrontos com eles, quando sei que estão na rua fico aqui dentro [do Moinho] à espera de que se vão embora. Já me disseram que um dia podia haver uma bala perdida se não tivesse cuidado." O receio é tanto que já não mora no bairro, apesar de continuar a trabalhar aqui. "E prefiro não dizer onde. Não é que eles não saibam, mas pronto."

Teve, conta, quatro processos instaurados pela PSP, arquivados ou terminados em absolvição, com testemunhas de defesa como Diana Andringa e José Mário Branco - "ele disse ao juiz que não tinha sido para ver a polícia agir assim que tinha lutado contra o fascismo" - e com as versões da polícia a serem desmascaradas como falsas em tribunal (mas, parece, aí sem que em consequência houvesse acusações de denúncia caluniosa ou falsificação de documentos); elaborou, com outros ativistas, um manual de sobrevivência para as pessoas do bairro, para que conheçam os seus direitos; fez jornais de denúncia da violência policial e da exclusão dos "guetos". Mas ter vivido a maior parte da vida aqui fê-lo crer que ser tratado por tu pela polícia é normal.

Normal. Talvez seja normal para quem conta já ter apanhado várias vezes da polícia, ter sido detido por distribuir jornais, ameaçado, avisado, e ter visto muitos outros apanhar, saber de gente atingida por balas, até de gente morta: o tratamento por tu deve parecer muito pouco relevante no meio disso tudo. Mas qual o polícia que aceita que um cidadão se lhe dirija por tu? Aquilo que um polícia sente como desrespeito não é, necessariamente, desrespeito da polícia pelos cidadãos?

"Se perguntar às crianças se gostam da PSP, elas dizem que não. O trabalho da polícia é manter as pessoas em segurança mas eles vêm aqui fazer distúrbios. E isto não é fazermo-nos de vítimas, é a realidade." Luís - outro que não quer nome nem foto - está sentado com dois filhos pequenos a comer gelados na parte alta do bairro, perto do Moinho da Juventude. Tem 33 anos e três filhos, nasceu aqui e vive "ali na esquina". Diz trabalhar "num armazém em Lisboa" e anota a diferença entre o comportamento da polícia na cidade e aqui. "Lá mandam-me parar quando vou de carro, pedem-me os documentos, está tudo bem e mandam-me seguir. Aqui, se dou os documentos, e como não podem pegar por aí, revistam o carro, revistam-me e quando pergunto porquê respondem que estão a fazer o trabalho deles. Tratarem-me como criminoso é um trabalho? As pessoas veem-me ali a ser revistado e vão pensar que sou um bandido."

"O caso não está perdido para eles"

Já pensou, admite, sair do bairro "por causa dos meus filhos. A gente quer o melhor para os filhos, não é? Se digo que sou daqui as pessoas ficam mal impressionadas. Têm muitos preconceitos". Confessa-se muito surpreendido com a notícia da semana. "É natural que fiquemos surpreendidos. Já vi tanta coisa mais grave passar em branco." Por exemplo, olhe aqui, diz. Mostra a mão, uma cicatriz feia na base do indicador. "Este dedo quase não mexe. Foi um tiro da polícia. Um aqui e outro na nádega." Tiros? Porquê? "Tinha 16 anos e estava a conduzir sem carta. Fugi quando os vi mas quando percebi que não tinha hipótese parei e saí do carro. E eles atiraram. Fiz queixa mas não foi para a frente. Não tinha como pagar a advogados." Mas que justificação deram para disparar? "Que pensaram que estava armado. Era mentira. Mas inventam sempre uma estorinha para ficar tudo bem do lado deles. E desde fevereiro de 2015, quando aconteceu aquilo de que foram agora acusados, já houve muito mais coisas. Não sei o que lhes dá na cabeça ali na esquadra, se estão sem nada para fazer e vêm chatear o pessoal, sinceramente gostava de um dia perguntar-lhes o porquê. Até é arriscado estar na rua com as crianças, porque quando eles vêm é com as armas fora do carro, com uma agressividade que intimida. E as pessoas quando os veem vir, mesmo que tenham o documento no bolso, começam logo a correr, porque sabem que se ficarem estão sujeitas a levar uma bastonada, uma coronhada. Cresce-se aqui a ver isso - a ver os pais a serem agredidos, com um sentimento de medo e de revolta."

Se a acusação do MP o surpreendeu favoravelmente, Luís teme pelas consequências. "Não vou dizer que estou à espera de retaliações mas tenho a consciência de que pode suceder. Até porque o caso não está perdido para eles. Ainda falta o julgamento. Por outro lado, isto tomou proporções de que não estavam à espera, também pode acontecer uma mudança. E há polícias que trabalham no moinho que são excelentes."

Do outro lado da rua, um grupo de rapazes de 20 e poucos anos ri com sarcasmo quando lhes perguntam o que vai isto dar. "Não vai dar nada. Ou quase nada. Pode dar pena suspensa ou assim. E quando passar eles vão voltar. E não vai mudar nada. Desta vez foram flagrados, a investigação foi mais a fundo, mas ainda estamos à espera para ver a diferença."

A diferença. Rui Lopes, 25 anos, aluno do mestrado de Arquitetura na Universidade de Lisboa, vive aqui desde que nasceu, com a mãe e irmãos - o pai, que trabalha na construção civil, emigrou recentemente. São três irmãos: o mais velho licenciado em Gestão, a mais nova a estudar Enfermagem. Três cursos superiores numa família da Cova da Moura. Não é comum, admite. Mais incomum ainda talvez que diga sempre em todo o lado de onde é. "As pessoas vêm logo com aquelas piadas, perguntam se vendo droga." Sorri. "É discriminação, claro, mesmo sendo piada." Claro que, reconhece, "este bairro tem casos de tráfico, não se pode esconder. Mas não é assim tão diferente de outros sítios, como o Bairro Alto ou até a Baixa, onde está sempre gente a oferecer droga em cada esquina". Sem pressa de sair daqui apesar de tudo isso - "gosto do bairro" -, Rui começa por garantir que nunca teve problemas com a polícia. Mas o decorrer da conversa mostra que não é bem assim. Aos 15 anos, conta, obrigaram-no a ficar uma hora com as mãos na parede. "Não percebi porquê. Revistaram-me, perguntaram o que estávamos a fazer aqui. Íamos sair para jantar. Há bocado, quando disse que nunca tinha tido problemas, esqueci-me disto."

Lá está. Fácil esquecer uma coisa destas num bairro em que quase toda a gente tem histórias destas para contar. E onde a regra é nunca discutir, nunca resistir. Mesmo se se tem um curso superior, mesmo se se está a tirar um mestrado, se se pode pensar que se faz parte de uma outra realidade, a das salas de aula da universidade, da cidade plena, da cidadania plena. "Não vale a pena. Se me mandarem parar e pedirem a identificação, dou. Estão a fazer o trabalho deles." Confessa que nunca se perguntou se faz parte do trabalho da PSP identificar pessoas porque sim - não faz, a lei é clara: tem de haver motivos para tal, e esses motivos têm de ser declarados. Do mesmo modo, a PSP não pode simplesmente decidir revistar pessoas, tem de apresentar uma justificação. Mas que hipóteses tem Rui ou outra pessoa deste bairro se recusar? Ou que hipótese tinha. Porque agora pode, acha, ser diferente. "A acusação mostrou que eles não são deuses. Eles apresentavam-se aqui num patamar diferente de nós. Eles eram deuses, agora são como nós. Podem ser acusados."

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