Os negócios com os incêndios, da mão criminosa aos mitos

Sobre o setor das madeiras é lançada a suspeita de interesse nos fogos mas produtores e empresas consideram ser um mito. "Quando arde floresta, perde-se negócio. Não se ganha"

Em 2003, quando Vila de Rei foi atingida por um grande incêndio que devastou mais de 13 mil hectares ainda havia muita atividade económica ligada à floresta. "Depois do que aconteceu há 14 anos, há cada menos gente a tirar rendimentos da floresta. Acabaram resineiros, serrações, produtores", diz ao DN Norberto Oliveira, presidente da Associação de Produtores Florestais de Vila de Rei. Hoje já não acredita nos interesses económicos como origem organizada dos fogos. "Não tinha lógica. As serrações fecharam já. Aproveitam agora os que compram a madeira queimada mais barata mas isso acaba. Fica anos sem nada, nada para ninguém", explica.
Por isso, vê as suspeitas lançadas como insustentadas. "É um mito que apareceu e ainda não morreu. Para os madeireiros isto não é nada interessante. Podem fazer um bom negócio agora, mas são precisos anos para que a floresta volte a crescer. Pelo meio, fecham as serrações, os produtores florestais, muitos de idade avançada, deixam a atividade", aponta Norberto Oliveira, deixando o alerta: "O pior é depois dos fogos. Não há produção. E o concelho precisa de produtores florestais."
No concelho do extremo sul do distrito de Castelo Branco, o cenário é mau. "Há muita madeira queimada abandonada nos terrenos. Só se vende aquela que tem alguma utilidade. De momento há uma empresa que está a comprar para fazer paletes industriais. Tudo pinho. Pagavam bem, a 48 euros a tonelada, mas agora oferecem 32 euros. Na madeira verde pagam melhor mas também desceu", afirma.
Madeira com pouca utilidade
A Associação Nacional dos Produtores Florestais (ANEFA) frisa que os incêndios só destroem. "A madeira queimada não interessa à indústria. Só pode ser utilizada para determinados fins, a sua utilidade fica muito limitada. Parte da madeira que ardeu tem pouca utilidade ou é para aplicações muito específicas", adianta ao DN o seu presidente, Pedro Serra Ramos, que representa duas mil empresas e 75 mil trabalhadores. "As indústrias do mobiliário e dos aglomerados geralmente não querem madeira queimada".
Este dirigente admite que "pode haver quem se aproveita do negócio nesta altura. O produtor florestal normalmente vende a madeira como um todo e em matas que arderam, com madeira que ainda não estava na idade certa para ser cortada, é natural que apareça quem diga que só oferece determinado preço", justifica. Também não vê uma ligação direta entre os incêndios por mão criminosa e o negócio da madeira. "Não sei se haverá ligação ao negócio. Falta muita formação à população e isso reflete-se no comportamento. Há dias desloquei-me a Vila Real e vi muita gente a fazer queimadas."
É verdade que a madeira queimada é comprada a um preço mais baixo, de 36 euros a tonelada baixou para 26. "Mas o preço é estabelecido pela indústria e geralmente para todas as madeiras tendo como base o preço do eucalipto. O preço mantém-se: 39 euros no eucalipto, 36 a 42 a euros para o pinho, consoante a qualidade."
Pedro Serra Ramos está mais preocupado com o futuro. "Há muitas empresas destruídas. Um associado ficou sem uma máquina que valia 1,2 milhões de euros, outro perdeu uma máquina de 600 mil euros. Vemos o ministro da Agricultura a dizer que vai apoiar os agricultores, mas não aparece ninguém a falar das empresas florestais, perante o desespero e possível encerramento de um grande número de empresas". Além disso, alerta, "o mais provável é que fique muita madeira queimada espalhada na floresta."
Incendiário são idiotas úteis
Perante as declarações de responsáveis como o presidente da Liga dos Bombeiros, Jaime Marta Soares, que falam em terrorismo, e outros a apontar crime organizado, o diretor da PJ, Almeida Judiciária já veio a público dizer que, entre os mais de 110 incendiários detidos, não há indícios de atividade organizada. "Na experiência acumulada, as conclusões a que temos chegado é que há variadíssimas causas, variadíssimas razões, mas não temos detetado crime organizado subjacente a estas práticas criminosas", frisou, acrescentando que se tem "detetado diversas razões para o cometimento destes crimes desde vingança, alcoolismo e fascínio pelo fogo. As profissões dos suspeitos são variadas."
Na Galiza, o consultor ambiental Xabier Pumariño diz que falar em terrorismo, como fizeram as autoridades espanholas, é "estúpido". Aponta o dedo ao lobby político das florestas por permitir florestação sem critério: "Essa é que é a indústria do fogo." E quando chega um dia com altas temperaturas, ventos de um furacão tropical e terra seca, "qualquer faísca de uma viatura, de uma linha alta tensão, qualquer desalmado ou idiota, ou alguém como um interesse qualquer, pode gerar uma situação incontrolável ". E explica que o fogo não se propaga por via terrestre mas pelas copas altas do pinheiros e dos eucaliptos, gerando mais ignições.
" O pior é que se coloca o foco no idiota útil final. Este idiota útil pode ser um vizinho que faz uma queimada, um caçador, ou outro qualquer. Não se pode eliminar as pessoas para evitar os fogos", disse ao jornal espanhol La Vanguardia quem acha que a solução radical passa por reduzir área de floresta e colocar os custo de vigilância e e combate aos fogos nos proprietários.
Meios aéreos custam muito
Portugal utilizou na fase Charlie deste Verão [a mais perigosa] 48 meios aéreos mas só possui seis, todos helicópteros. Os restantes são contratados a empresas privadas. A RTP revelou recentemente que a ANPC fez duas adjudicações diretas para estender contratos de dois canadairs e oito helicópteros médios até final do mês. Terá custado mais de um milhão e meio de euros. Os valores totais gastos este ano ainda não são conhecidos mas estão sempre em causa milhões de euros. Para se ter uma ideia, a Everjets, que opera os Kamov do Estado português, disse em julho que cada hora de voo custa 5333 euros ao país. E a ANPC divulgou à Sábado que os três helicópteros Kamov custam sete milhões por ano.
É a este negócio que em Espanha se começou a falar em "cartel do fogo", pelo aproveitamento dos incêndios e das elevadas verbas que os estados disponibilizam para o combate. O recurso a empresas privadas para o combate por meios aéreos e os respetivos contratos e adjudicações, com decisão política, é que estão no centro das suspeitas de cartel e manipulação de concursos públicos, envolvendo mesmo corrupção. As empresas faziam uma espécie de consórcio para fixarem os preços, 15 a 20% mais elevados e estes lucros eram depois divididos. A PJ estará atenta ao ramo português após investigações em Espanha a seis das principais empresas espanholas de meios aéreos de combate a incêndios.

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