O padre de ferro português que fez uma ultramaratona de 226 km

Ismael Teixeira celebra missa na igreja do Rato. Sempre gostou do exercício, mas a prática mais intensa iniciou-a com o sacerdócio. É o primeiro padre a completar uma Ironman.

Sábado é o dia com mais carga de treino para Ismael Teixeira, mas no primeiro fim de semana deste mês adiou o início das corridas porque uma paroquiana precisou de "acompanhamento espiritual". Depois foi treinar antes de celebrar um casamento. É que este atleta é padre e assegura que as funções religiosas vêm antes da preparação física, que é exigente. Acaba de fazer o Ironman de Copenhaga, Dinamarca, o primeiro padre a completar os 226 km de uma ultramaratona, entre nadar, pedalar e correr. O que fez como se fosse uma peregrinação. Vai dar a medalha de participação ao Papa Francisco. É o "iron priest", o padre de ferro.

"Defini este objetivo há nove meses e depois de completar o meu primeiro triatlo. Porque 2016 é o ano do Jubileu da Misericórdia e do Sínodo Diocesano de Lisboa, em que devemos realizar várias ações junto da comunidade e chamar os que estão afastados", explica o padre Ismael, 41 anos, nascido em Canavezes, uma aldeia de Valpaços, Vila Real. Agora quer superar-se, provavelmente, já em dezembro, na sua segunda Ironman.

A preparação exige treinador, treinos planificados e alimentação cuidada. Muitas horas entre homilias, confissões, reuniões e as aulas de ética na Universidade Lusíada. "É difícil a conciliação mas seria pior se tivesse um emprego com um horário fixo de oito horas." Deslocar-se de mota também ajuda. Arranjou patrocínios para pagar as provas e equipamentos - a inscrição custa cerca de 500 euros e uma bicicleta pode ultrapassar os dez mil euros, além dos fatos - e é atleta do Sport Lisboa e Benfica.

Ismael foi para o seminário porque queria estudar e essa era a única forma. Teve muitas dúvidas antes de ser ordenado padre, aos 26 anos, e "ser um homem feliz". Quis ser comando e operador de câmara, sempre com aptidão e gosto por desporto, "bravo", como se caracteriza e diz ser qualidade dos transmontanos.

Mais próximo das pessoas

Concluiu em Lisboa o 12.º ano, no Liceu Passos Manuel, e formou-se em Teologia na Universidade Católica. Foi por essa altura que praticou desporto com mais continuidade, sobretudo quando foi estudar para a Universidade Lusíada, onde se licenciou em Psicologia e ficou mestre em Gestão de Recursos Humanos e Análise Organizacional. Foi para o desporto para se aproximar das pessoas, estudantes e paroquianos. Geriu durante 11 anos uma residência universitária da Ordem do Carmo, da qual pediu para sair para se dedicar à paróquia. Pertence à da Igreja de Santa Isabel, a que está agregada a de Nossa Senhora da Conceição, no Rato, onde preside à missa às 08.30 de semana e às 12.00 ao domingo.

A camisola de competição tem, à frente, pequenas cruzinhas, com a inscrição Iron Priest e, atrás, uma grande cruz com a mensagem: "God is love, all for God [Deus é amor, tudo por Deus]." E no guiador da bike pende sempre um terço e muitos dos casamentos e batizados que celebra são de quem conhece no atletismo. "Vejo o desporto como um trabalho espiritual, ajudou-me a trazer mais pessoas à igreja. A comunidade do Rato era pequena, de idosas, e acho que a consegui transformar, está mais viva." E o desporto também ganhou: "Levo os valores do meu treinador principal, que é Jesus Cristo, pretendo ser o rosto dele nestas provas."

Confessa, aliás, que já pensou em dizer aos fiéis que lhe expõem as suas angústias para caminharem ou correrem, intervalando com as orações. Acredita que um corpo saudável é meio caminho para um espírito saudável. Quanto ao que pensam os outros padres e a hierarquia da Igreja, diz ter recebido muitas palavras de estímulo. E já propôs que o Patriarcado criasse um grupo desportivo. "Os padres europeus são campeões de futsal."

Na Universidade Lusíada fundou um grupo de BTT e jogou râguebi, mas as nódoas negras e feridas, que podiam parecer estranhas aos crentes, fizeram-no mudar para o triatlo. No Ironman, as dores apertaram e muito, isto depois de nadar 3,8 km, pedalar 180 km e fazer uma boa parte dos 42 km da maratona. Chegou a pensar em desistir. Conta que foram as orações que o fizeram concluir o percurso. "Rezava, rezava muito, o que prova que somos capazes até de fazer uma prova com dores. A minha força é a minha fé, a das pessoas não religiosas é a força interior." Completou a prova em 11:13:49 segundos, ficando em 910.º lugar entre os 2848 atletas que a completaram.

Voltando aos treinos, o primeiro depois da grande prova, a 21 de agosto, ficou-se por uma corrida curta no Jardim da Estrela, 40 minutos, às voltas. Quando treina intensivamente, são duas horas e meia a correr, da Estrela ao Estádio do Jamor, ida e volta. A bicicleta ficou, neste dia, arrumada, mas pode pedalar quatro horas, desde o centro de Lisboa até à Malveira, com voltas ao Guincho. A natação completa as provas de triatlo.

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