Novo recorde de CO2 põe em risco as metas do Acordo de Paris

Organização Meteorológica Mundial diz que a concentração de dióxido de carbono atingiu 403,3 ppm, o valor mais alto desde há 800 mil anos, que atira o aumento da temperatura para além dos dois graus no final do século

A concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera da Terra atingiu um novo (mais um) e preocupante recorde: é agora de 403,3 ppm - de partes por milhão, o que significa que em cada milhão de moléculas de ar, 403,3 são de CO2. É o valor mais elevado dos últimos 800 mil anos, em que a média do CO2, até ao início da revolução industrial, em 1750, nunca excedeu os 280 ppm. Com as alterações climáticas a revelarem-se já em fenómenos extremos e violentos por todo o planeta, com secas extremas, furacões brutais ou inundações catastróficas, é mais um sinal de alarme para o futuro que aí vem.

O novo recorde absoluto de CO2 foi divulgado ontem pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), numa altura em que já se faz a contagem decrescente para mais uma cimeira do clima, que este ano decorre em Bona, na Alemanha, entre 6 e 17 de novembro. Mesmo com os Estados Unidos de saída do Acordo de Paris, terão de se dar ali passos para que os países comecem finalmente a reduzir as suas emissões de gases com efeito de estufa (ver caixa). Apesar de todos os acordos e declarações de intenções dos políticos, as emissões de CO2 nunca pararam de aumentar: foram 35 mil milhões de toneladas em 2016, ou seja, mais 12 mil milhões de toneladas do que em 1990. A União Europeia - Portugal incluído -, que desde 1990 está a reduzir as suas emissões, é a exceção neste panorama.

A divulgação do novo recorde de CO2 coloca, por isso, mais pressão sobre os negociadores e decisores políticos que vão reunir-se em Bona, e "pode estimular boas decisões", acredita o físico e especialista em alterações climáticas Filipe Duarte Santos, para quem o novo recorde de CO2 não constitui surpresa. A escalada dos gases com efeito de estufa na atmosfera da Terra dura há décadas, com novos recordes todos os anos. Apesar disso, diz o especialista, "ainda é possível inverter o processo, embora isso se torne cada vez mais difícil".

"Já estamos a sentir as alterações climáticas", sublinha Filipe Duarte Santos, e "essa tendência agravar-se-á com o aumento da concentração de gases com efeito de estufa".

Para se ter uma ideia, níveis comparáveis de CO2 na atmosfera terrestre só existiram há mais de três milhões anos, quando o clima era bem diferente: a temperatura média do planeta era cerca de três graus superior à de agora, a Antártida e a Gronelândia não tinham gelo e o nível do mar era 10 a 20 metros mais alto do que é hoje...

Os 403,3 ppm de CO2 significam que "sem uma diminuição rápida nas emissões de CO2 e de outros gases com efeito de estufa estamos a encaminhar-nos para aumentos perigosos de temperatura no final do século, muito acima da meta estabelecida pelo Acordo de Paris [que é, no máximo, de dois graus de aumento, mas preferencialmente, de 1,5 graus]", alertou o secretário-geral da OMM, a propósito do novo relatório. No mundo mais quente que aí vem, e do qual já se veem inquietantes prenúncios em secas mais prolongadas e severas como a que neste preciso momento aflige Portugal e Espanha, a Península Ibérica é justamente é uma das regiões em que as alterações climáticas vão ter efeitos mais severos, com mais secas graves, diminuição da precipitação no outono e inverno, mas também a possibilidade de episódios de chuvas torrenciais, causadores de inundações.

Já se vê, de resto, o vislumbre desse futuro. "O que se está a passar é uma migração para norte, para o Sul e o centro da Península Ibérica, do clima de Norte de África", garante Filipe Duarte Santos.

Outro dado: desde 1960 que se observa em Portugal uma redução da precipitação de inverno da ordem dos 40 mm por década, diz o especialista. Em 50 anos são 200 mm. Neste contexto, as secas facilmente ganham os contornos de severidade que estamos a ver.

Emissões de Portugal sobem em 2017

A União Europeia tem como meta chegar a 2030 com uma redução em 40% das suas emissões globais de gases com efeito de estufa. Neste bolo, Portugal terá de fazer uma redução entre 30% e 40%. "O país tem cumprido todas as suas metas desde o Protocolo de Quioto", garante o ministro do Ambiente, Matos Fernandes. Mas em 2017, "por causa dos incêndios e da seca", as emissões de CO2 do país "vão subir", admite o governante. Com a Cimeira do Clima, em Bona, a começar já na próxima semana, a expectativa é que possam começar a ser ali criados os instrumentos legais para concretizar o Acordo de Paris.

Com Ana Bela Ferreira

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