Liberdade e bom senso é o lema para deixar os filhos sair à noite

São muitos os perigos associados à noite que assustam os pais quando os filhos saem com os amigos. Especialistas desdramatizam e dizem que estabelecer regras é fundamental

"Quando os deixamos voar com segurança, eles aproveitam com moderação." Este é um dos princípios de Vera Teixeira, psicóloga, de 47 anos, no que diz respeito às saídas à noite dos dois filhos adolescentes.

André, de 17 anos, e Ana, de 16. Começaram a sair "relativamente cedo", por volta dos 13/14 anos. "Iam ao cinema, a jantares, tomar café com amigos." Sempre saíram juntos, o que dá uma "paz muito grande" aos pais. Com o passar dos anos, Vera foi "dando mais liberdade". À sexta-feira saem até à meia-noite e ao sábado podem chegar à uma ou às duas da manhã. "Nas férias e em situações pontuais, um pouco mais tarde." Foi o que aconteceu recentemente, na inauguração de uma discoteca em Aveiro, onde vivem. "Saíram até às 04.00. Ia o grupo todo e avaliámos a situação. Não há uma liberdade gratuita. É ponderada."

Quem tem ou já teve um adolescente em casa sabe que, depois de conquistar a confiança dos pais para começar a sair à noite, vêm as negociações dos horários. Querem sempre mais tempo, o que muitas vezes gera apreensão nos pais. Haverá uma hora indicada para regressarem a casa? Não, dizem os especialistas contactados pelo DN, mas há várias coisas que deve ter em conta.

Um adolescente que nunca saiu à noite não deverá sair até às cinco da manhã na primeira vez. "Tem de ser progressivo. Inicialmente, as saídas devem ser mais curtas, deve chegar a casa a uma hora mais precoce", sugere Hugo de Castro Faria, pediatra na CUF Descobertas, especializado na área da medicina do adolescente. Segundo o coautor do livro O Meu Filho Adolescente, "se cumprir as regras, pode haver um progressivo atrasar da hora de chegada a casa". Aos poucos, os pais vão gerindo a liberdade consoante o comportamento dos filhos. Mas será aconselhável um adolescente de 14 anos chegar a casa às quatro da manhã? "Não me parece adequado para a maioria dos adolescentes", admite o pediatra, explicando que é preciso que tenham consciência "dos riscos a que vão estar expostos quando saem à noite".

Rita Castanheira Alves, psicóloga clínica infantojuvenil e mentora do projeto Psicóloga dos Miúdos, tem uma opinião semelhante relativamente à hora estabelecida para o adolescente chegar a casa: "Deve ser gradual e com condições definidas e devidamente negociadas e acordadas, definindo com o adolescente o que é permitido, como e quando, num jogo progressivo de conquista de independência e autonomia."

É o que faz Isabel Coelho, 48 anos, com a filha Alice, de 16. Antes de sair de casa, a adolescente diz--lhe para onde vai, com quem, o que vai fazer. "Se quiser fazer alguma coisa diferente, tem de me dizer. Comunica sempre comigo antes de tomar uma decisão", revela. A psicóloga Rita Castanheira Alves também defende que "consoante o cumprimento do que é definido com o adolescente em cada saída", os pais devem ir "premiando a responsabilização e referindo e trabalhando o incumprimento das condições estabelecidas".

Alice cumpriu sempre o que foi estabelecido pela mãe e se ao início tinha de chegar a casa antes da uma, hoje "sai até à hora que quer". À medida que a filha conquistava a sua confiança, Isabel fazia um "upgrade nos horários". A noite mais longa, recorda, foi até às sete da manhã. "E passou o ano fora com os amigos."

Independentemente da idade, Hugo de Castro Faria frisa que os pais devem saber sempre com quem os filhos vão, para onde vão, como vão e como regressam a casa. Se for possível, nas primeiras vezes, até devem ser os pais a ir buscá-los. "As regras têm de ser claras e estar bem definidas." Em caso de incumprimento, sugere "chegar mais cedo numa próxima, por exemplo, ou não ir a uma determinada festa".

Ceder aos primeiros pedidos

André e Ana começaram a ter mais liberdade por volta dos 13/14 anos, mas há muitos adolescentes que só começam a pedir para sair à noite mais tarde. Segundo o pediatra, as solicitações para a vida noturna costumam surgir na chamada "fase média" da adolescência, isto é, entre os 14 e os 16 anos. "É quando se começa a desenvolver mais a importância do grupo de pares e do afastamento dos pais", explica.

Não é possível dizer a partir de que idade um adolescente pode sair à noite. "Depende muito do adolescente, das suas vivências anteriores, da autonomia que manifesta, da gestão da impulsividade que está no auge na adolescência, das experiências que tem vivido e lhe têm sido proporcionadas para que ganhe responsabilidade e saiba fazer escolhas responsáveis e saudáveis", explica a psicóloga.

Antes de começar a sair à noite, indica Hugo Faria, o adolescente deve ter dado "provas de responsabilidade e maturidade", ter mostrado que "tem comportamentos adequados quando sai durante o dia e que cumpre as recomendações dadas pelos pais".

No livro Adolescência, os Anos da Mudança, a psicóloga Rita Castanheira Alves dedica um capítulo às "Primeiras experiências de independência - passeios depois das aulas, fins de semana fora, férias sem os pais, saídas à noite" - em que dá algumas dicas relativas ao contacto durante as saídas. O uso do telemóvel e a garantia de que está ligado devem ser uma condição imposta pelos pais, mas o conselho é para que "não o inunde com chamadas ou sms, porque perderá a eficácia e os objetivos principais: ter a certeza de que ele chegou bem, está bem e regressará bem, e que terá a tecnologia como recurso, se necessário". Se impuser demasiados contactos, o adolescente pode não responder e "os seus níveis de ansiedade aumentarão".

O pediatra Hugo de Castro Faria também defende o meio-termo, já que "um pai que liga constantemente não permite que o adolescente desenvolva a atividade social normal". Fundamental é que haja uma "comunicação aberta entre pais e filhos". No dia seguinte, deverá perguntar o que fizeram, o que beberam, do que gostou mais, "os pais devem estar envolvidos e conhecer as atividades dos filhos".

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