Brasões da Praça do Império substituídos por relva

Projeto vencedor do concurso de ideias para o jardim de Belém não integra os arranjos florais que representam as capitais de distrito e as antigas províncias ultramarinas

Os 30 brasões florais que representam as armas das cidades capitais de distrito do país, bem como das antigas províncias ultramarinas, no Jardim da Praça do Império, desaparecem para dar lugar a um espaço relvado. Esta é a solução que consta do projeto que mereceu a preferência do júri do concurso de ideias lançado pela Câmara de Lisboa para a requalificação do jardim de Belém. A escolha vai amanhã a debate na reunião da autarquia, para ratificação da decisão do júri, que definiu um vencedor, e um segundo e terceiro classificados.

A ser acolhida pelo executivo camarário, como é expectável, a proposta vencedora promete relançar a polémica de há dois anos, quando foi conhecida a intenção da autarquia de acabar com os brasões evocativos das antigas colónias. "Não faz sentido estarmos a gastar dinheiro a recuperar símbolos que já não existem", afirmou então o vereador da Estrutura Verde. Nu m comunicado emitido nessa altura, o gabinete de José Sá Fernandes garantia que a autarquia não iria despender "recursos financeiros a recuperar os brasões criados pelo Estado Novo das antigas colónias portuguesas e que há muito não existem, nem sequer como arranjos florais no local".

O CDS questionou então António Costa sobre o tema. O gabinete do então presidente da câmara respondeu dizendo que o autarca tinha ficado "surpreendido" com as notícias s sobre o projeto para o jardim, e remetendo o assunto para reunião do executivo camarário. Foi nesta sede que foi posteriormente decidido o lançamento de um concurso de ideias para a requalificação do jardim.

Em frente ao Mosteiro dos Jerónimos, o Jardim da Praça do Império (que se integra na zona de proteção do monumento, que é Património Mundial reconhecido pela UNESCO) desenha-se, em forma quadrangular, em torno da Fonte Monumental. É à volta desta que surge o friso de brasões , três dezenas representando as 18 províncias portuguesas, e as ex-colónias, a que se juntaram ainda as cruzes de Cristo e Avis. Há ainda um escudo nacional, também feito com buxo e flores, que se mantém no projeto que mereceu a escolha do júri. Com três hectares, o jardim há anos que mostra sinais de degradação.

Contactado pelo DN, o presidente da Junta de Freguesia de Belém, o social-democrata Fernando Ribeiro Rosa sublinha não ter conhecimento oficial de qualquer projeto para a Praça do Império, situação que diz estranhar: "Acho estranho que isto vá a reunião da Câmara sem que previamente tenham tido a gentileza de me ter dito." O assessor de José Sá Fernandes remeteu declarações do vereador para depois da reunião de Câmara, sublinhando que o que está agora em cima da mesa é o relatório do júri e não ainda uma decisão da Câmara.

"Enorme preconceito ideológico"

Tal como sucedeu na altura, e agora face à perspetiva de acabar de vez com os brasões florais, a decisão tem críticas garantidas entre a oposição. João Gonçalves Pereira, vereador do CDS na autarquia, fala num verdadeiro "apagão" dos brasões , num "claro desrespeito pela História de Portugal", que revela um "enorme preconceito ideológico". O autarca democrata-cristão questiona mesmo se a Câmara "não quererá mudar o nome da própria praça", já que "de império ficará apenas com o nome".

João Gonçalves Pereira diz ter dado o "benefício da dúvida" ao concurso de ideias lançado pela edilidade porque em causa deveria estar apenas o "enquadramento paisagístico" do jardim. Foi isso, afirma, que disse António Costa. "António Costa disse na altura que se devia tentar encontrar uma solução mais barata porque a manutenção do jardim era muito dispendiosa", mas salvaguardando a componente histórica do jardim. "Pelos vistos, dois anos depois teremos um apagão da história e um apagão do que António Costa disse", aponta João Gonçalves Pereira, garantindo que o CDS vai votar contra a decisão do júri e o projeto eleito vencedor.

O "fim da mosaicocultura"

Para o PCP o problema não é exatamente o desaparecimento dos brasões, mas da arte que eles prepresentam. "O projeto vencedor faz tábua rasa da mosaicocultura", diz o vereador Carlos Moura, que cita o que diz ser "uma frase muito interessante" que consta da proposta: "Um processo de rega duas vezes por ano. Se for um prado de sequeiro, com certeza". "Vamos votar contra. Isto vem ao arrepio completo da proposta que tínhamos apresentado ", garante o vereador comunista, considerando que a aprovação deste projeto ditará "o fim do caminho" da mosaicocultura, em Lisboa, dado que se perderão os conhecimentos para o exercício desta actividade entre os jardineiros que trabalham na Câmara. Carlos Moura diz mesmo que este novo figurino deixa em aberto a possibilidade o "serviço de manutenção do jardim da Praça do Império vir a ser externalizado".

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