Ex-inspetor da PJ é suspeito de ter frustrado operação com a DEA

Ministério Público acusou 29 pessoas na Operação Aquiles pela prática de crimes de associação criminosa, corrupção e tráfico de droga

Carlos Rodrigues Lima

"La Maquina". Foi no final de 2007 que a agência norte americana para o combate ao tráfico de droga, a Drug Enforcement Administration (DEA), fez chegar à Polícia Judiciária a alcunha com que era conhecido em algumas organizações criminosas da América do Sul um informador da própria PJ. Isto depois de uma operação conjunta entre as duas polícias ter sido frustrada por uma "dica" que chegou aos traficantes, levando-os a cancelar o embarque da droga para a Europa. Dez anos depois, o Ministério Público considera ter prova suficiente para acusar o informador "la maquina", Carlos Dias Santos, ex-inspetor da PJ, e outro suspeito: Ricardo Macedo, inspetor chefe, que também terá colaborado com cartéis de droga.

O episódio de 2007 abre o despacho de acusação dos procuradores Vítor Magalhães, João Melo e Lígia Salbany do Departamento Central de Investigação e Acção Penal contra 29 arguidos, acusados de crimes de associação criminosa, corrupção ativa e passiva, tráfico de droga, entre outros.

No despacho de acusação, o MP considera que as condutas dos arguidos Carlos Dias dos Santos, coordenador de investigação criminal reformado, e de Ricardo Macedo, inspetor-chefe ainda no ativo, "violaram a fidelidade reclamada pela sua qualidade de inspetores da PJ e infringiram as regras e exigências de legalidade, objetividade, imparcialidade e independência". Carlos Dias dos Santos e Ricardo Macedo estão acusados de tráfico de droga agravado, associação criminosa com vista ao tráfico e corrupção passiva para prática de ato ilícito. Outro dos 29 acusados é o militar da GNR José Baltazar da Silva, que responde por tráfico de droga agravado e associação criminosa com vista ao tráfico de estupefacientes.

Apesar de durante vários anos existirem suspeitas de ligações dos dois homens da Judiciária ao mundo do tráfico de droga, só há uns anos é que uma equipa da Unidade Nacional Contra a Corrupção da Polícia Judiciária as investigou a fundo, cruzando informações de vários processos e mantendo os suspeitos sob apertada, mas discreta, vigilância. O impulso para a investigação terá partido de uma nova informação dada pelos norte americanos, em 2013, identificando claramente Dias Santos e Ricardo Macedo como as "toupeiras" de alguns traficantes, sobretudo um grupo da Colômbia, cujo líder é conhecido como "Papi".

Uma das situações imputadas a Ricardo Macedo prende-se com uma viagem realizada por este e por outro inspetor da judiciária a Marrocos, em 2012, para, segundo a versão do próprio, contactar com um informador, um tal Raul Rosa, que tinha fugido de Portugal, enquanto cumpria um pena de prisão e estava sujeito a vigilância eletrónica. É que, ao mesmo tempo desta viagem, a PJ de Leiria estava a preparar uma ação encoberta para apanhar um carregamento de droga e ao mesmo tempo prender novamente Raul Rosa. Algo que não chegou a acontecer porque, segundo a acusação, a tal viagem foi apenas um pretexto para informar o traficante da investigação em curso.

Fruto da alegada colaboração com as algumas redes de tráfico, Dias Santos e Ricardo Macedo terão recebido durante anos centenas de milhares de euros. Aliás, Dias Santos, estando em prisão domiciliária no âmbito da Operação Aquiles, não se coibiu de comprar um carro de alta cilindrada. Segundo o Ministério Público, o antigo inspetor da Judiciária, simplesmente, não tinha rendimentos declarados para tal. Aliás, Carlos Dias Santos é ainda suspeito de ter recorrido a contas bancárias de uma madrinha para dissimular a origem de alguns milhares de euros que lhe terão sido entregues pelos traficantes.

Ontem, contactado pelo DN, o advogado Carlos Melo Alves, que representa Dias Santos, disse ao DN que o mais provável é requerer a abertura da instrução, uma vez que "segundo o meu cliente", referiu, "os factos descritos não correspondem à verdade". O DN procurou ouvir Rodrigo Santiago, advogado de Ricardo Macedo, mas tal não foi possível.

A investigação da UNCC detetou ainda várias entradas de dinheiro em contas bancárias de Ricardo Macedo. Ao mesmo tempo, a polícia detetou que o antigo inspetor-chefe só depois ter suspeitado estar sob investigação é que começou a fazer movimentos frequentes com o seu cartão bancário, algo que até então não acontecia, indiciando que o mesmo teria acesso a dinheiro vivo. Depois da acusação do DCIAP, o processo correrá no Tribunal Central de Instrução Criminal.