Com a seca, agricultores podem ter de evitar o cultivo de algumas espécies

Até dezembro previsões apontam para pouca chuva e temperaturas elevadas. Próxima época de cultivo pode ter mudanças

Os agricultores vão ter de planear e antecipar as necessidades de água para as suas culturas de forma a ser possível gerir as reservas ainda existentes. Que são cada vez menos em muitas zonas do país que está, em cerca de 60%, num período de seca prolongada excecional. Situação que até pode levar a que na próxima época de cultivo sejam feitas recomendações para que não se cultive espécies que necessitam de muita água.

Para já, numa tentativa de diminuir o desperdício, a Agência Portuguesa do Ambiente vai lançar uma campanha a nível nacional de sensibilização para a necessidade de se fazer um melhor uso da água.

Entre os exemplos de zonas que podem ficar numa situação crítica no espaço de um mês estão os concelhos de Viseu, Mangualde, Nelas e Penalva do Castelo devido ao pouco armazenamento existente na Barragem do Fagilde.

Um cenário provável pois as previsões meteorológicas apontam para que outubro seja um mês de "pouca precipitação e de temperaturas mais elevadas do que a média", como adiantou ao DN o secretário de Estado do Ambiente, Carlos Martins. O governante participou na reunião da Comissão Permanente de Prevenção, Monitorização e Acompanhamento dos Efeitos da Seca, encontro onde se ficou a saber que, além de outubro, os dados científicos conhecidos apontam para a forte possibilidade de novembro e dezembro também serem meses de pouca chuva.

No final de setembro só três bacias hidrográficas - Cávado/Ribeiras Costeiras, Ave e Arade - tinham um nível de água armazenada superior à média para o mês de setembro desde 1990/91. Das 60 barragens monitorizadas pela Agência Portuguesa do Ambiente 23 apresentavam menos de 40 % do volume total. E a bacia do Sado estava com 18,2% do volume quando a média dos últimos ano para o mês de setembro era de 42,6%.

"Neste momento há 17 albufeiras em situação crítica e aumentamos o número das que estão sob vigilância", salientou Carlos Martins. O secretário de Estado alertou para um outro problema: "As reservas subterrâneas estão a reduzir."

Reconheceu também que se não fosse a Barragem do Alqueva (Alentejo), Portugal "estaria numa situação drástica sem poder minimizar os efeitos da seca".

Preocupada com a falta de água e a sua qualidade está a associação ambientalista Quercus como frisa o seu presidente João Branco. "Quanto mais diminui a quantidade das reservas pior fica a água em termos de qualidade. Isto é uma situação muito grave mesmo."

Confirmando que este está a ser um dos piores anos de seca - as médias de armazenamento estão a níveis de 1990/91 - o presidente da Quercus alerta para o que as previsões mostram: "O pior é que nos outros anos nesta altura começa a chover e este ano não há previsão de chuva tão cedo."

Agricultura pode mudar

Uma das consequências da atual falta de água sentir-se-á, muito provavelmente, no próximo ciclo agrícola. Uma possibilidade que está a ser analisada pelas autoridades, como disse ao DN Carlos Martins. "Podemos chegar ao ponto de recomendar aos agricultores que não cultivem algumas espécies na próxima época. Para esta não haverá problemas, mas na que se segue e no que diz respeito às espécies que precisam de mais água pode haver algumas recomendações", explicou.

Por outro lado, os fluxos de água libertados por Espanha estão a ser cumpridos, segundo o governante. Que lembrou uma outra medida que está a ser colocada em prática para manter caudais mínimos. "O regime de exploração da EDP tem assegurado esses caudais. A produção de eletricidade também está a ter restrições", lembrou.

A questão dos compromissos com Espanha não é essencial nesta situação, disse ao DN o presidente da Quercus: "Não é a água do rio Tejo que tem as reservas para abastecer o país, isso são reservatórios, pequenas barragens que existem por todo o território continental e todas elas, mesmo no norte que é a região mais chuvosa, estão num estado critico."

Temperaturas continuam altas

Durante esta semana as temperaturas vão continuar a manter-se elevadas, com os termómetros a marcarem entre os 32 graus desta terça-feira e os 28 do próximo domingo (dia 8). Segundo as previsões do Instituto Português do Mar e da Atmosfera o calor vai manter-se com as temperaturas mínimas a não descerem dos 15 graus previstos para sexta-feira, o valor mais baixo até ao fim de semana.

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