Impacto indireto da covid-19 é maior nos jovens: mais peso, pior sono, mais álcool e drogas

Consequências físicas foram graves nos mais velhos, mas são os novos que têm mais problemas sociais. E não são os com mais de 70 anos a ter mais medo de contrair a doença. E a maioria concorda com as medidas de combate à pandemia.

Os jovens são o grupo que mais tem sofrido no dia-a-dia com a pandemia, conclui o estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) Impactos económicos, sociais e políticos da covid-19 em Portugal, que será apresentado esta segunda-feira. Metade dos entrevistados com idades entre os 15 e os 20 anos referem alterações de peso ou do sono, 20% admitem um aumento do consumo de álcool e de tabaco e 11% iniciaram-se nos fármacos psicotrópicos.
A conclusão é sublinhada por Maria Manuela Calheiros, coordenadora do capítulo Sociedade, dedicado à saúde e ao bem-estar, ao funcionamento social e equilíbrio económico. "A covid-19 teve um maior impacto, mesmo que indireto, nessa faixa etária, o que para mim foi surpreendente. Não foram só as idades mais avançadas que viveram estas questões intensamente. A geração jovem sofreu um impacto indireto maior e com diferenças significativas. Ficaram muito menos ativos, muito menos regulares no sono, devido às alterações dos horários escolares, deixaram de ter os ciclos de vida habituais", explica.
Os resultados são preliminares e fazem parte de uma investigação a concluir na primavera de 2022. Nesta primeira fase, foram inquiridas, de 16 de março a 20 de maio, 2307 pessoas. É uma amostra estratificada por grupos etários (15 e mais anos) e por regiões, cujos resultados são cruzados com outras fontes de informação.
Na população em geral, 35% dos entrevistados dizem ter sofrido alterações no peso habitual, 30% sofrem distúrbios nos padrões de sono, 9% têm alterações no consumo habitual de álcool e tabaco ou na ingestão de calmantes, tranquilizantes ou outros fármacos com efeito psicotrópico. Logo, percentagens inferiores às verificadas entre os mais jovens.

Menos meios, mais conflitos

A docente e investigadora da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa destaca também as dificuldades das famílias em gerir a vida pessoal e laboral no mesmo espaço. "O facto de membros do agregado familiar estarem em teletrabalho e outros em telescola implica a existência de meios e equipamentos: computadores, acesso à internet, espaço e privacidade. E 43 % das pessoas reportaram ter escassez destas ferramentas, o que está associado a maiores índices de conflito no agregado familiar e a menores índices de coesão familiar."
Homens e mulheres dizem ter mais tarefas a cumprir e são eles a revelar um maior conflito família/trabalho. Só que há diferenças de género. "No universo masculino, os maiores conflitos família/trabalho estão associados ao aumento das tarefas domésticas. No universo feminino, este conflito refere-se a um conjunto muito mais alargado de fatores, que tem a ver não só com o aumento das tarefas domésticas, mas também com a quantidade de filhos dependentes e a necessidade de prestar apoio emocional a familiares. O trabalho informal relacionado com o apoio aos outros parece estar assimetricamente distribuído entre géneros, tal como as responsabilidades parentais, penalizando muito mais as mulheres", salienta Maria Manuela Calheiros.
Tal situação implica junto das mulheres um sentimento de menor bem-estar, ao contrário do que acontece com os homens.
A satisfação da população "oscila de forma significativa com as sucessivas restrições impostas" pela pandemia, isto é, estar ou não em confinamento. Na fase pré-covid, 71% dos entrevistados estavam satisfeitos, percentagem que desce para 22% no primeiro confinamento. No final do segundo, a satisfação com a vida rondava os 30%. "Os dados permitem ainda verificar que o isolamento social prediz de forma significativa as quebras reportadas no bem-estar subjetivo, sendo particularmente penalizadores neste contexto os sentimentos de solidão", referem os cientistas.
Tem também influência a diminuição das consultas médicas presenciais nos cuidados de saúde primários, (-38%), como das consultas ao domicílio (-35%). Isto apesar da duplicação das consultas médicas não presenciais (ou inespecíficas). "Duas em cada 20 pessoas afirmam que o próprio ou alguém do agregado familiar ficou impedido de receber tratamento médico durante 2020, sendo também possível aferir que esta privação do acesso a cuidados de saúde está relacionada com sentimentos de depressão."
Ao nível da saúde mental, houve um impacto negativo em cada 20 entrevistados: seis sentiram-se sozinhos, quatro sentiram pouca intimidade com as pessoas com quem passam tempo, três reportaram distância face àqueles que consideram importantes. Um em cada 20 afirma ter desenvolvido doenças crónicas graves, incluindo doença mental.
Umas das causas é o medo em contrair o SARS-CoV-2, só que não é o grupo onde os efeitos da doença são mais graves a revelar maior preocupação. "Apesar da perceção do risco aumentar de forma estável em função da idade, são os indivíduos na faixa etária entre os 61 e os 70 anos, e não os mais velhos (mais de 70), quem reporta os níveis mais elevados de medo quanto à possibilidade de contrair o vírus."

Saúde à frente da economia

Este projeto foi inicialmente coordenado por Nuno Monteiro, docente da Universidade de Yale (EUA), que faleceu há dois meses. Carlos Jalali, da Universidade de Aveiro, assumiu essa tarefa, fazendo questão de sublinhar o papel decisivo do colega na construção da investigação. Destaca o facto de ser um projeto dimensional sobre o impacto da pandemia.
Uma das conclusões significativas para Carlos Jalli é a boa aceitação em relação às medidas governamentais do combate à covid-19. "O inquérito sugere que os portugueses percebem a intervenção do Estado em defesa da saúde pública. Reflete-se em dois aspetos: 86% dos respondentes dizem que as limitações às liberdades públicas foram justificadas e, por outro lado, a maioria discorda de que os governos permitam que as pessoas tomem as decisões sobre a melhor forma de se protegerem. É também interessante o facto de 53 % defenderem que a saúde pública é mais importante que a atividade económica."
A decisão governamental mais polémica e que merece contestação foi a abertura nas regras de circulação e de atividade no Natal e Ano Novo de 2020. Apenas 25% consideram a decisão como boa ou muito boa, o resto avalia a medida como má ou muito má.
Estão em maioria os que avaliam como bom/boa ou muito bom/boa: a restrição da circulação e da atividade no confinamento (68%); o regresso ao ensino online em fevereiro (63%); o pedido de ajuda médica a outros países (62%); a política de aconselhamento científico (60%), e o plano de vacinação contra a covid-19 (51%). Por outro lado, somente 45% consideram boa ou muito boa a decisão de reabrir o ensino presencial até ao 12. º ano em setembro de 2020.
Na relação de Portugal com a UE, 58% dizem-se razoavelmente satisfeitos com as medidas tomadas a nível do contexto comunitário para controlar a pandemia, sendo que 12% estão totalmente satisfeitos. Os críticos à atuação comunitária constituem 31 % dos inquiridos, que afirmam estar não muito ou mesmo nada satisfeitos.

Perguntas e respostas

Qual é o objetivo do estudo?
A Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) pretende avaliar as várias dimensões do impacto da pandemia na população portuguesa e, em última instância, contribuir para a a adoção de políticas públicas. Tem três grandes áreas: instituições (internas e externas), sociedade e economia.
Quais são os grupos de investigação envolvidos?
É um grupo multidisciplinar e envolve investigadores do ISCTE-IUL, da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, da Universidade de Aveiro e da Universidade do Minho.
Qual é a dimensão da amostra?
Os resultados, divulgados esta segunda-feira, são preliminares e respondem ao primeiro inquérito, com 2307 pessoas com 15 ou mais anos, numa amostra estratificada por grupos etários e regiões. São cruzados com informações de outras fontes, nomeadamente do Ministério da Saúde.
Quando será realizada a segunda fase?
A segunda fase de inquéritos será realizada em setembro, prevendo-se a conclusão do relatório final na primavera de 2022.
É um estudo apenas a nível nacional?
É um estudo interno, com abordagens à investigação internacional. No capítulo Sociedade, os investigadores inspiraram-se num artigo de Igor Linkov, Benjamin Trump e William Hynes (Resilience-based Strategies and Policies to Address Systemic Risks). Foi publicado pela OCDE em setembro de 2019, pouco antes do anúncio do primeiro doente com covid-19 na China .
Em que consiste o modelo de resiliência?
Linkov e o seu grupo criaram o modelo de resiliência do sistema social, que se baseia em quatro fases de reação a uma pandemia: o planeamento (não havia ninguém que estivesse preparado, apesar de alguns cientistas falarem dessa probabilidade), absorção, recuperação e adaptação. O estudo da Fundação foi iniciado na fase de absorção, sendo que o modelo aponta para escalas distintas entre absorção e recuperação, o que ainda não se verificou com esta pandemia. Estamos sempre em absorção e recuperação. Portugal vai na quarta vaga de maior incidência do vírus. O grupo da Sociedade, da área da psicologia social, analisou estas fases tendo em conta as dimensões comportamental, emocional e cognitiva (crenças, enviesamentos, construção sobre o fenómeno).
A pandemia teve influência na participação das eleições presidenciais?
Sim, uma vez que 11% dos inquiridos admitem não ter votado nas presidenciais de 2021 por medo de contágio pelo coronavírus.
A confiança nas instituições nacionais foi abalada?
Não há essa indicação. O Serviço Nacional de Saúde (81% de aprovação) e o Presidente da República (85%) recebem a maior confiança dos inquiridos. No lado oposto estão os políticos, com apenas 33 % de votos confiantes, seguidos do Parlamento (50%). E 60% dizem ter alguma confiança ou muita confiança no governo.
E as instituições europeias?
78% dizem ter alguma ou muita confiança na UE, 76% gostam de pertencer à Comunidade e apenas 5% consideram isso uma coisa má. Em relação às medidas de combate à pandemia, 58% dizem-se razoavelmente satisfeitos com a UE e 12% totalmente satisfeitos. No geral, 31% estão pouco ou mesmo nada satisfeitos.
Perderam rendimentos?
Sim, 34% afirmam que o rendimento do agregado familiar diminuiu após a emergência da pandemia e, destes, 21% referem ter perdido um terço ou menos do seu rendimento e 13% terem perdido metade ou mais do seu rendimento. E em 22% dos entrevistados eles ou algum membro do seu agregado familiar ficaram desempregados durante a pandemia.
Houve quem não perdesse financeiramente com a doença?
A redução das deslocações e do consumo poderão ter contribuído para a redução das despesas dos agregados familiares com rendimentos médio/alto e alto, para quem 2020 trouxe maior estabilidade financeira. Os investigadores salientam que 50% dos agregados com rendimentos médios mensais entre 1500 e 2000 euros afirmam ter aumentado as suas poupanças, e a proporção ascende aos 95% entre aqueles que auferem mais de 5000 euros mensais .

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