O Governo português apresentou oficialmente, esta quarta-feira, 1 de Julho,, a versão final do Amália (Assistente Multimodal Automático de Linguagem com Inteligência Artificial), o primeiro modelo de linguagem de grande escala (LLM) desenvolvido especificamente para o português de Portugal. O evento decorreu no Técnico Innovation Center, em Lisboa, e ficou marcado pelo anúncio de um reforço de 1,5 milhões de euros no orçamento do projeto, elevando o investimento total do Estado para sete milhões de euros até 2027.Inicialmente orçado em 5,5 milhões de euros financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), o projeto — que demorou cerca de 18 meses a ser concluído — vai agora contar com mais verbas para continuar a evoluir a sua capacidade de computação e infraestrutura. O modelo, que arranca com 9 mil milhões de parâmetros, tem como meta atingir os 22 mil milhões de parâmetros numa segunda fase.Durante a cerimónia de apresentação do Amália, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, sublinhou a importância de encarar este avanço tecnológico como um ponto de partida e não como uma meta finalizada. "Não estamos aqui para festejar nada. Estamos aqui apenas para lançar o desafio de amanhã estarmos melhor do que estamos hoje e, para o ano, estarmos melhor do que estamos hoje", afirmou Montenegro no seu discurso oficial proferido no Técnico Innovation Center.O chefe do Executivo destacou ainda o potencial que o modelo tem para modernizar os serviços públicos e simplificar a vida de cidadãos e empresas, mas pediu uma postura pragmática e de constante evolução no que toca à adoção de novas tecnologias na Administração Pública."Isto não é um ChatGPT", diz Paulo DimasApesar de ser frequentemente apelidado na esfera pública de "o ChatGPT português", os responsáveis pelo projeto fazem questão de afastar essa comparação direta. Em entrevista à Lusa, Paulo Dimas, CEO do consórcio Center for Responsible AI, explicou a verdadeira natureza do modelo: "Não vai haver uma interface de chat para as pessoas interagirem, como se fosse o ChatGPT, porque não é essa a função. É preciso perceber que isto não é um ChatGPT e é muito importante a repetir".O engenheiro explicou que o Amália é, na verdade, uma infraestrutura de base que serve para "quem aplica a inteligência artificial" e que assenta em três pilares fundamentais de soberania nacional: a língua (focado no português europeu), a cultura (ajustado aos valores e referências históricas e sociais do país) e os dados (garantindo que a informação sensível do Estado português é processada localmente e não em servidores de multinacionais estrangeiras).A génese do projeto assenta numa forte cooperação científica e tecnológica nacional. O Amália foi treinado ao longo de um ano e meio a partir do modelo europeu EuroLLM, tirando partido da capacidade computacional de supercomputadores de topo em solo ibérico, como o português Deucalion (instalado no Minho) e o MareNostrum 5 (em Barcelona).O desenvolvimento científico esteve a cargo de uma equipa de mais de 60 investigadores e estudantes de cinco instituições de ensino superior do país: a Nova FCT (que assumiu a coordenação do consórcio através do professor João Magalhães), o Instituto Superior Técnico (IST), a Universidade de Coimbra, a Universidade do Minho e a Universidade do Porto.Código aberto e disponível em "ia.gov.pt"Ao contrário de outros sistemas de IA proprietários, o Amália adota uma filosofia de transparência. Manuel Dias, diretor de Sistemas de Informação (CTO) do Estado e presidente da ARTE (Agência para a Reforma Tecnológica do Estado), explicou o formato de disponibilização do modelo: "O modelo Amália tem 9 mil milhões de parâmetros e vai evoluir para chegar aos 22 mil milhões, o que já nos permite uma precisão e uma 'performance' e uma capacidade resistente substancial".O responsável confirmou ainda que qualquer programador ou empresa pode descarregar e utilizar o sistema sem custos. "Vou ao portal ia.gov.pt, lá tenho o 'link' para o Hugging Face, onde eu posso, qualquer empresa, qualquer cidadão, qualquer entidade, pode descarregar o modelo e usá-lo a nível comercial, porque ele tem uma licença Apache 2.0", assegurou.O Amália já foi validado em ambiente real em quatro setores estratégicos: museus e cultura, ciência, comunicação social e educação (através da plataforma IAedu da FCT). O próximo passo do Governo português será integrá-lo diretamente nos canais de atendimento digital da Administração Pública e na aplicação móvel gov.pt.