A professora catedrática da Universidade de Coimbra, titular da cátedra da Unesco para a Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável e fundadora do Centro de Ecologia Funcional tem estado, à distância, “muito preocupada” a acompanhar as consequências do “comboio de depressões” que Portugal atravessa até, pelo menos, este fim-de-semana.Depois da tempestade Kristin, Portugal Continental foi atingido pela depressão Leonardo e, este fim-de-semana, prepara-se para o pico da depressão Marta. Com os solos saturados, milhares de pessoas sem energia elétrica, populações ainda isoladas, casas destruídas e empresas paradas, pedimos a Helena Freitas para olhar para o atual cenário e perceber, com um olhar humanista, o que afinal falhou – ou não – e como se pode reconstruir para um futuro mais seguro e, acima de tudo, mais próspero para todos.Alinhar uma visão de longo prazo com a Ciência, restaurar a conexão com a natureza e esquecer os ciclos políticos são algumas da soluções apresentadas por esta especialista que não perde o otimismo e a certeza de que há futuro se arregaçarmos as mangas. Juntos.“Nós sabíamos que a conjuntura climática iria impor cenários de alguma imprevisibilidade associados a estes eventos extremos. Mas penso que perspetivávamos isso no longo prazo. As questões ambientais foram sempre percecionadas numa lógica de longo prazo. A crise climática, poluição, biodiversidade foram anunciadas há décadas, mas acho que tendemos a percebê-las com alguma distancia no tempo”, começa por justificar a cientista, que tem sido, ao longo dos últimos anos, uma das vozes mais ativas e públicas quanto à urgência de trazer a natureza para o centro do debate sobre desenvolvimento económico e social.Ao telefone com o DN desde o Reino Unido, onde tem estado nos últimos dias, Helena Freitas mostra-se consternada – ainda que não surpreendida – e profundamente crítica dos caminhos que têm sido trilhados até agora para prevenção destes grandes eventos que, lembra, eram “um cenário antecipado”.“As pessoas tendem a associar os fenómenos extremos ao calor, ao verão, aos incêndios florestais. Eventos situados mais em contexto rural, mais longe das pessoas, no fundo. Esta situação convoca-nos a todos: não há território nenhum que não tenha sido afetado”, de uma forma ou de outra. “As cidades estão a sofrer o impacto de um momento extremo. A ciência tinha esta orientação clara, estes cenários estavam a ser equacionados”, repete a bióloga, também diretora do Parque de Serralves, no Porto."Agora acho que percebemos o nível de preparação que não temos, de todo! Já tínhamos percebido que não tínhamos para os fogos e agora o que estamos a perceber é que não estamos preparados para este tipo de eventos, que acontecerão com mais frequência", avisa.“Nos últimos anos, em particular, havia uma variável que começava a inquietar a ciência climática – o aumento da temperatura dos oceanos, que aponta para grande preocupação e mexe com a atmosfera. Uma das questões sistematicamente levantada tem sido esta, de que teríamos uma alteração profunda do sistema climático do Atlântico Norte que poderia colocar grande pressão sobre a Europa e sobre o Ártico”.A verdade é que, no entanto, na população em geral e nos governantes e decisores, em particular, parece que se vivia uma espécie de um estado de negação. A aceleração dos processos climáticos, que Helena Freitas assume ter existido, é agora o fator fundamental e de choque.“Os invernos, precisamente por esta circulação meridional do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês), que é um grande sistema de correntes oceânicas que transporta calor das regiões tropicais para ouras regiões, nomeadamente a Europa”, estão a tornar-se mais extremos porque “esta circulação está a abrandar e pode levar a mais eventos extremos e tempestades persistentes”.Naturalmente que a isto se juntam os esforços humanos que têm sido feitos para dominar a natureza, um ecossistema vivo e livre que, lembra a especialista, procura sempre encontrar o seu caminho. “Nós artificializamos as bacias hidrográficas; os rios foram artificializados, e acreditámos que os rios estavam sob o nosso controlo. E mesmo percebendo que aquilo que estamos a fazer é uma alteração profunda de um sistema vivo e livre, o que aconteceu agora no Mondego…repare, o que se pôs em cima da mesa foi ‘vamos fazer a barragem de Girabolhos’. Mas é a bacia hidrografia no seu conjunto que está mal, e é preciso corrigir o que está mal”, ao invés de agir por reação, defende.“Construímos um progresso na base da destruição permanente da natureza, sobretudo nos últimos 50 a 60 anos, e esse desligamento da natureza tem custos. Fomos atropelando a natureza, e não lhe dando espaço. É muito visível nos sistemas dinâmicos e não é sistematicamente acreditando que há um controlo a montante que vamos resolver o assunto. Para além disso, achamos que as soluções que preconizamos há 30 anos continuam a ser válidas”, critica. .A ciência como elemento fundamental de futuro.Helena Freitas salienta que nas últimas décadas a ciência e a tecnologia têm sido usadas, sobretudo, para protelar “aquilo que tem um custo imediato”. Mas nota que estas coisas têm de ser, de facto, entendidas no longo prazo e cientificamente fundamentadas”. Ou seja, adianta, “o que entendemos muito bem é que a prosperidade e a inteligência no processo de desenvolvimento não são exatamente compatíveis com a forma como estamos organizados, como planeámos, como a nossa administração decide e escolhe, como votamos os processos eleitorais…há uma dessincronização entre o que é o modelo de organização social e político e aquilo que é preciso – restabelecer, reconectar com a natureza e trazer a natureza para o centro das nossas decisões estratégicas”.E concretiza, para que não restem dúvidas: “Se eu tiver uma bacia hidrográfica que tiver nas suas margens vegetação natural, fauna autóctone e se o leito se puder expressar”, tudo correrá pelo melhor. Agora, “se eu artificializar um sistema vivo, a expectativa que posso ter é de que ele sairá do nosso controlo”, resume.“E é isso o que está a acontecer. As pessoas sentem isso hoje, e em Portugal, concretamente, estes episódios tão sucessivos de tempestades – faz com que nos sintamos quase impotentes. Queremos respirar e parece que não conseguimos, porque sempre que tentamos, nos voltam a colocar a cabeça debaixo de água – e essa sensação de afogamento é o que hoje sentimos. Não há capacidade para responder. O nível de resiliência que nos é pedido é excessivo. Pedem-nos resiliência para perceber a realidade geopolítica global, as grandes transformações e também para perceber que não temos telhado hoje, que temos de encontrar um sítio para a família…é muito sofrimento e angústia”, e estas coisas andam todas ligadas.Aquilo em que Helena acredita é que “a natureza está a interpelar-nos a procurar um progresso e uma prosperidade que a respeita. Há uma sensação profunda de vulnerabilidade que tem que ver com a aproximação à natureza. No fundo, no meio desta grande agitação da incerteza, insegurança, medo, da perda, podem ficar algumas lições aprendidas: e a primeira que as pessoas vão buscar é a natureza. Esta necessidade de convocar uma outra realidade com a natureza no centro”.E pede que se destaque outra questão que considera “muito importante”, que é o facto de a ciência estar “connosco. E ajudou-nos a perceber e a antecipar as situações. Se não tivéssemos instrumentos de antecipação, não tínhamos a Proteção Civil preparada, de prevenção. Portanto, a ciência é absolutamente instrumental e pode e deve continuar a ajudar. Isto deve ser um sinal e alertar-nos para o facto de que a ciência é mesmo um auxiliar precioso, hoje e futuramente, na forma como nos organizamos e como somos capazes de criar situações que nos permitem responder a estas situações que se vão agudizar”, avisa.“A ciência ajudou-nos e precisamos de perceber que vamos continuar a ter mais ciência no apoio à decisão política. Significa que, futuramente, no quadro da nossa administração, temos de começar a incorporar o conhecimento científico de uma forma muito prática. Temos de trazer a ciência para a decisão”, insta.“E nossa autoridade de Proteção Civil talvez tenha de sofrer uma reorganização. Não pode ser somente reativa. Tem de estar tecnicamente habilitada para participar de forma antecipativa e mais capacitada com as comunidades que estão no território. Percebemos que há um nível de literacia que as pessoas hoje já estão preparadas para acolher e tenho a certeza absoluta de que a partir de agora as pessoas olharão para as recomendações de outra forma”, acrescenta ainda. .Há futuro!.E apesar da urgência, a especialista acredita que há futuro, assim saibamos tirar as devidas lições de tudo o que temos vivido, e se as autoridades arregaçarem mangas em prol de um projeto comum tendo em vista o bem-estar das pessoas e do país, acima de ciclos eleitorais e interesses económicos ou financeiros.“Um aspeto que vale a pena realçar e que nos comove a todos é a capacidade de solidariedade das pessoas”, salienta Helena Freitas. “Ainda bem que ainda somos capazes de chamar o melhor de nós e ajudarmo-nos de uma forma muito solidária e comprometida. É um valor em si mesmo que não perdemos e que se manifesta. Somos um povo, uma comunidade e estamos juntos. A humanidade está! Esteve. É pelos valores e pela regeneração dos valores que vamos conseguir dar a volta”, acredita a professora universitária.“E isso vem colocar aqui outra questão que é percebermos que é na diversidade que somos mais solidários. E somos capazes de perceber que vamos precisar de imigrantes. Somos todos importantes”, nota, reafirmando a importância desta ideia em vésperas de eleições presidenciais.E continua: “Mas o que isto também nos ensinou é que a administração local tem de se capacitar para ajudar as comunidades locais a responderem. Por isso é que a descentralização nesta conjuntura mais imprevisível é ainda mais importante. Não podemos ficar à espera que a administração centralizada venha responder. Foi evidente que nem dois dias depois havia uma decisão dos órgãos centrais!”, lamentou.Portanto, temos de “capacitar os territórios para que eles possam tornar-se mais resilientes. Precisamos de um nível de resiliência descentralizado. E não basta dizer às pessoas individualmente para se prepararem, porque muitos portugueses vivem no limite. A administração pública local tem de ser garantia de resiliência nos territórios”.Para que isto funcione, continua, é preciso também entender que “estes fenómenos resultam da mudança climática do planeta. O equilíbrio do sistema climático planetário não acontecerá neste século. As próximas décadas serão de adaptação, e devem tornar-nos mais conscientes sobre temas como segurança alimentar e consciência energética: se dependemos energeticamente do exterior neste contexto de incerteza política, é tempo de pensarmos soluções nas comunicações, energia, mobilidade e segurança alimentar. Ou seja, qual é a capacidade real que o país tem para ser auto-suficiente e fazer face a isto?”, atira.“As infraestruturas da comunicação são vitais. As nossas fragilidades infraestruturais foram absolutamente evidentes nessa crise. Acho que falamos há mais de 20 anos no SIRESP, que dizem que agora vai ser estendido às freguesias…mas vai ser estendido porquê se continuamos sem entender porque é ineficaz?”, questiona também.E chama os decisores à ação. “Há uma irracionalidade aqui com a qual é preciso acabar. Vamos tentar acabar com alguma da irracionalidade que tem presidido a muitas decisões do Estado, e que são incompreensíveis. Ou há altos interesses que acabam por manietar o Estado – nos incêndios são os helicópteros… - ou então não se entende”.E pede compromisso de longo prazo aos governantes, que se não deixarem para trás os ciclos políticos colocam em causa o desenvolvimento e manutenção do território. “Não há dúvida de que temos tido um pensamento estratégico que orienta o país, sobretudo no ordenamento do território, condicionado pelos ciclos eleitorais. Mas o território tem de ter uma leitura de longo prazo”, sublinha.Isso significa mudar a forma como se tomam decisões, o que pode ser difícil mas é fundamental, defende. “Vamos deixar de partidarizar a política, e perceber que esta é uma agenda comum no interesse do pais. Temos de deixar de partidarizar as políticas públicas”, considera.“Estamos num nível de exigência que convoca os valores, que é o que está em cima da mesa nestas eleições [deste domingo, 8 de fevereiro]. Quando dizemos que está em causa a democracia, é esta consciência de que há uma agenda que se dirige ao bem comum e da qual não podemos abdicar, e uma outra que nos coloca uns contra os outros”, aproveita para lembrar.“Eu tenho uma profunda fé na humanidade. Penso que temos uma enorme capacidade de nos reinventarmos, e este sinal de aproximação que tivemos é um sinal de que ainda estamos disponíveis para nos ajudarmos mutuamente e encontrarmos soluções coletivas”, aplaude Helena Freitas. “Mas estamos num tempo profundamente difícil e complexo, em que as escolhas são extremamente importantes. Porque podemos rapidamente destruir tudo, ou encetar um caminho novo de regeneração. Eu acredito que seja esse que acontecerá, porque os cidadãos comuns vão exigir esse caminho dos valores que nos aproximam, que nos ajudam a construir progresso; esse modelo de desenvolvimento que coloca a natureza no centro da nossa vida, das cidades, dos territórios rurais.E a natureza traz-nos estes valores de empatia, de compromisso, da colaboração. Os valores humanos. A natureza aproxima-nos mais da condição humana e dos valores humanos. Nada nos aproxima tanto deles como a natureza”, repete.“Estamos a sentir essa quase retaliação da natureza e este é o tempo de regenerar e de nos reconectarmos com a natureza. Porque quando o fizermos com a natureza, também o faremos uns com os outros e isso serve-nos muito mais a todos”, conclui.