Uma semana de depois de ter sido anunciada a existência de um surto de hantavírus no navio cruzeiro MV Hondius, com bandeira dos Países Baixos, que saiu a 20 de março da Argentina, passando pela Antártida, e com destino às Canárias, os 143 (de 149 passageiros) que ainda permaneciam a bordo começaram a ser retirados ontem para serem repatriados para os seus países. Os primeiros a sair, e depois de uma avaliação epidemiológica, foram os 14 espanhóis, que seguiram rumo a Madrid, para permanecerem 42 dias isolados num hospital militar, seguiram-se seis franceses, que também vão ser transportados por avião, ficando também 42 dias de isolamento numa unidade de saúde. Ao final da tarde, um dos cidadãos manifestou sintomas, mas não foi confirmado se se trata de mais um caso suspeito. O desembarque foi acompanhado pelas autoridades de saúde espanholas, por técnicos da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Centro Europeu de Controlo e Prevenção de Doenças (ECDC, sigla inglesa). Mas só nesta segunda-feira, dia 10, é que o desembarque de todos os passageiros deverá terminar. A tripulação permanecerá no navio, onde ser feito um rastreamento às condições, para se tentar encontrar “a origem da contaminação”.Até agora, o balanço das autoridades, é para a existência de seis casos positivos de hantavírus, em oito suspeitos, e três mortes - um hantavírus que já se sabe que é da espécie que se transmite entre humanos - os outros três estão internados e a ser tratados. Os restantes passageiros, que começaram a deixar o navio, encontram-se assintomáticos, mas o período de incubação da doença pode ir até às oito semanas. E é este período de incubação que, na opinião da infecciologista Margarida Tavares, também ex-secretária de Estado para a Promoção da Saúde, pode justificar o período máximo de quarenta, 42 dias”, decretado já por Espanha e por França. “A quarentena serve precisamente para que uma pessoa que esteve exposta a uma situação esteja isolada e vigiada, quando, eventualmente, surgirem sintomas. Mas este período pode variar e neste caso penso que foi definido por excesso, até pelo período de incubação do vírus que pode ir às oito semanas”.. Para a médica “é compreensível que se a exposição terminou ontem, porque os passageiros deixaram de estar em contacto entre eles e com o navio, ainda não sabemos se a fonte de contaminação está no espaço, que só agora se inicie o período máximo de incubação. Este é o racional das autoridades, mas se me pergunta se é mesmo necessário, para mim é muito discutível”, questiona.Margarida Tavares sustenta a sua opinião com o facto de, até agora, toda a “a evidência documentada sobre o hantavírus não referir transmissão entre humanos, a não ser com a espécie em causa, da América do Sul, uma das mais virulentas”, mesmo assim, “a possibilidade de transmissão entre humanos é rara, difícil e só acontece nos primeiros tempos de doença, com um contacto muito próximo, íntimo e prolongado”.“Era mais humano uma quarentena no domicílio”À luz do que se sabe, diz, “podemos questionar se é preciso uma quarentena tão prolongada e a ser cumprida numa unidade de saúde. Penso que poderia haver uma recomendação para que as pessoas permanecessem em casa e se abstivessem de contatos próximos. Era muito mais humano, as pessoas serem aí vigiadas diariamente por um profissional de saúde”. Mas, segundo a infecciologista, há outra razão que explica este período: “O alarme social que a situação gerou, uma mediatização exagerada e com consequências perniciosas”, nomeadamente o ter havido duas recusas para que o navio atracasse em portos de outros países. Foi o que aconteceu, em primeiro lugar, com Cabo Verde, em que houve uma equipa que se deslocou ao barco, e depois com as Canárias, em que o governo não queria o desembarque em Tenerife, que só aconteceu devido ao governo central, de Madrid. Margarida Tavares diz entender tais reações, desde logo porque “o que é uma doença desconhecida, ainda por cima grave, causa receio nas populações. Isso é aceitável, mas deve ser contrariado pela comunicação das autoridades, pelo esclarecimento e não pelo alarmismo”. Por isso mesmo, e apesar da “soberania dos países, é muito importante que as instituições internacionais de saúde global, como a OMS, liderem tais situações. As reações das populações são passíveis de ocorrer, mas não são justas. Hoje é este navio, amanhã será outro de outro país”.Recorde-se que o navio acolhia a bordo passageiros de 23 nacionalidades, neerlandeses, suíços, franceses, espanhóis, alemãs e até um português na tripulação. Por isso, destaca, “é tão importante que haja esta compreensão global e um compromisso de responsabilidade internacional e multilateral para que os países se ajudem uns aos outros”. Por outro lado, para Margarida Tavares as “reações exacerbadas” das populações e de algumas autoridades só provam que os próprios países ainda “não estão preparados para este tipo de situação, nem as encaram de forma mais global e nem integradas no que são as práticas de saúde pública”. E se há mensagem a passar com este caso é que “os países têm de estar preparados para estas situações e sem alarme social”. Depois de todos os passageiros serem retirados do navio MV Hondius, Margarida Tavares explica ao que se segue u, período de trabalho e de procura de respostas. “Vão fazer-se testes a todas a pessoas, mesmo às que estão assintomáticas. É uma forma de se saber mais da epidemiologia molecular da infeção”. Para já, “não parece haver vírus a circular no sangue precocemente - ou seja, antes do início dos sintomas -, mas imagino que serão feitos rastreios moleculares para se saber isto mesmo - e até se o vírus que afetou seis pessoas é o mesmo ou não, se isso tem pouco valor ou não, se o vírus foi transmitido por um animal ou não. Penso também que deve ser feito um rastreamento a locais do barco e se houver algum tipo de contaminação isso poderá ajudar a identificar a origem da contaminação. Vai demorar tempo, mas as autoridades chegarão a alguma conclusão”, sublinha. .Um mês e meio de viagem, seis casos oficiais e três mortes, conheça a cronologia do caso do Hantavírus no navio Hondius .Hantavírus. 94 pessoas de navio repatriadas desde Tenerife em oito voos