Há sinais de fumo na Tabaqueira, às portas da sua maior transformação

A estátua a homenagear o fundador, Alfredo da Silva, marca a entrada da fábrica, mas pouco resta desse tempo. Totalmente modernizada depois de integrada na Philip Morris, a empresa exporta 90% do que produz. Agora quer tornar o negócio radicalmente menos nocivo

Olhos postos no robô que vai enchendo maços com cigarros ao ritmo impressionante de oito mil por minuto, Nélson zela pela perfeição com que a máquina cigarreira os faz e cospe em grupos de 20 para a empacotadora, onde são automaticamente arrumados em maços da marca mais vendida no mundo. O seu papel é garantir que a cadência se mantém e alguma falha no invólucro ou no tabaco não compromete o processo. Daqui a uns anos, talvez esteja a operar uma máquina diferente, a fazer os heatsticks para vender aos utilizadores do iQOS - produto com potencial de risco reduzido em que a Philip Morris investiu dois mil milhões de euros nos últimos oito anos e que começou a vender em Portugal em novembro de 2015 (ver texto ao lado). E ainda que, para já, não haja planos para reconverter a fábrica portuguesa, a transformação do negócio do tabaco já está a acontecer a nível internacional.

Nuno Jonet, administrador de assuntos institucionais da Tabaqueira, explica que a estratégia da multinacional que comprou a empresa portuguesa há quase 20 anos passa por "transferir todos os consumidores de produtos do tabaco convencionais, combustíveis, o mais rapidamente possível, para esta nova categoria de produto do tabaco - aquecido mas sem fumo, sem cinza e com uma redução de 90% a 95% da exposição aos constituintes nocivos e potencialmente nocivos do fumo que resulta da combustão do tabaco".

Há uma preocupação expressa com os malefícios do fumo e que não é de hoje. Nuno Jonet recorda que foi a própria Tabaqueira a propor que se estabelecesse um limite de idade legal para poder comprar cigarros e que introduziu nos maços, há alguns anos, um folheto explicativo de como o fumo prejudica a saúde.

Também haverá uma lógica comercial nesta iniciativa, numa altura em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) está em guerra aberta com a indústria - apontando estudos que revelam que o tabagismo mata mais pessoas do que qualquer outra doença e calculando em dez milhões as mortes devidas ao consumo de tabaco, em 2030. A OMS calcula que, até 2030, o número de fumadores subirá de mil milhões para 1300 milhões, 18% da população mundial. Para contrariar esta tendência, os governos têm seguido políticas cada vez mais restritivas - em Portugal, por exemplo, a proibição de fumar em locais públicos fechados será agora alargada aos parques infantis e às áreas situadas junto das portas e janelas" dos estabelecimentos de cuidados de saúde e de ensino, e as novas regras incluem os cigarros eletrónicos. Neste contexto, a transformação do negócio das empresas que operam neste setor é um fator de sobrevivência.

Uma nova visão

Agora focada em reduzir os riscos para a saúde dos consumidores de produtos de tabaco ao mesmo tempo que faz subir os resultados da empresa, a dona da Tabaqueira está na linha da frente desta investigação, tendo já registado mais de mil patentes relacionadas com produtos redução do risco e contando com 450 cientistas, engenheiros e técnicos especializados a trabalhar o novo produto. "Portugal foi um dos primeiros mercados em todo o mundo a comercializar o iQOS, produto com potencial de risco reduzido, que resulta de vários anos de investimento em investigação, segundo o modelo da indústria farmacêutica", explica Mário Moniz Barreto, responsável de assuntos institucionais da Tabaqueira.

Segundo os responsáveis da Tabaqueira, "os resultados dos estudos e ensaios até agora realizados demonstram um potencial de redução de risco notável". De tal forma que a Philip Morris está a finalizar um processo de submissão de todos os dados do produto e dos estudos até agora realizados à FDA (agência americana que regulamenta os alimentos e os medicamentos), para obter um estatuto de produto de risco modificado.

No âmbito deste projeto, a empresa tem ainda participado em conferências científicas e publicado estudos em revistas da especialidade, "de forma a incentivar uma revisão entre pares para a ciência disponível".

Em Tóquio, onde o iQOS se estreou, em 2014, os produtos de risco reduzido já representam um terço do total de vendas da Philip Morris. O objetivo do CEO da multinacional é que a tendência se espalhe ao mundo inteiro. "Pela primeira vez, temos a oportunidade de reduzir os efeitos nocivos para os fumadores e fazer crescer o nosso negócio", disse recentemente André Calantzopoulos, citado pela Economist.

15 milhões de cigarros por dia

Por cá, enquanto se aposta na mudança de hábitos, a produção da fábrica de Albarraque vai-se mantendo fiel aos cigarros tradicionais.

A máquina cigarreira, uma das long makers da Tabaqueira - que produzem ininterruptamente cigarros das marcas mais populares, como Marlboro, Chesterfield, Ventil, Português e L&M, e cujo mecanismo inclui fornecimento de papel e filtros -, está bem ensinada para detetar erros e livrar-se de elementos defeituosos. Deixa-os cair num caixote anexo que daí a minutos há de ser analisado, o tabaco separado para ser reaproveitado em condições, o resto destruído. No dia e à hora em que visitamos a fábrica, essa função é assumida por José Luís, 41 anos e há uma década na empresa, agora como técnico de suporte e apoio ao processo.

A empacotadora, onde pranchas de cartão, bobinas de filme transparente e rolos de cem quilómetros de fita (que sela o maço de tabaco) se transformam em maços e volumes de cigarros, tem um sistema semelhante de deteção de defeitos, mas "o processo é reforçado com o controlo aleatório de qualidade" garantido pelas equipas que operam cada máquina - três operadores e um técnico, explica o engenheiro mecânico hoje responsável pelo processo de embalamento. Salvador, 27 anos, chegou à Tabaqueira através do programa de trainees, há quatro anos. Acompanhou o processo de instalação das máquinas importadas da Holanda e é, há ano e meio, supervisor na fábrica de Albarraque.

Antes de entrarmos neste espaço, tampões obrigatoriamente enfiados nos ouvidos, colete vestido e com uma espécie de crocs por cima dos sapatos, cumprindo "as regras de segurança e higiene que a empresa aplica a rigor" - Teresa Mendes Ferreira, há 28 anos na empresa onde tem responsabilidades na comunicação na fábrica, já nos apontou os quadros onde a qualidade da produção e o número de dias sem acidentes são registados -, já passámos pela sala de controlo. Nesse dia, cabia a Manuel Brito observar todo o processo através dos monitores e estar preparado para alertar os colegas de chão ao menor sinal de alarme. Diz que raras vezes teve de o fazer.

Lá fora, o cheiro é forte, doce sem chegar a ser enjoativo, o chão vibra ao ritmo de quilómetros de passadeiras automatizadas que transportam o tabaco em folha até às máquinas de corte e de secagem. José Horta, há 16 anos na Tabaqueira, vai relatando o processo que supervisiona. Aqui o tabaco é tratado e separado nos seus diferentes tipos - Virginia, Burley e Oriental são os mais comuns -, até estar em condições para integrar os blends ali produzidos (cada marca tem uma mistura diferente) e armazenados em silos conforme o destino que os espera.

Para uma parte destas toneladas de tabaco, o percurso na fábrica de Albarraque está completo. Sujeito apenas ao processo primário, "que aqui é especialmente completo", diz Moniz Barreto, será depois posto em caixas e seguirá assim mesmo para novas paragens para ser transformado nos produtos finais. O restante seguirá caminho ali, do silo para nova passadeira e daí para o sistema automatizado que o transformará em cigarros, à razão de 15 milhões por dia numa única máquina. A Tabaqueira tem cinco: três long makers e outras duas mais pequenas e mais lentas, para produzir marcas de menor popularidade. Numa destas, basta meia hora para encher de volumes de tabaco as dez caixas que em breve seguirão para a Islândia, explica Nélson, que ainda não fez 40 anos e está ali há mais de uma década - "tinha uns amigos a trabalhar na remodelação da fábrica, em 2000, e disseram-me que havia vagas. Consegui o emprego e estou cá há 16 anos."

O quinto maior exportador

Não foi a falta de melhores oportunidades de carreira que ali atraiu e prendeu a maior parte dos cerca de 700 quadros da Tabaqueira. Repetidas vezes eleita uma das melhores empresas para trabalhar, ali os empregados têm seguros de saúde e de vida, plano de pensões, cestas de fruta fresca três vezes por semana, são incentivados a fazer formações e a melhorar competências com cursos patrocinados pela empresa, estão integrados em projetos de valorização e responsabilidade social, como as hortas comunitárias nos terrenos da Tabaqueira, são convidados a dar ideias para melhorar processos e premiados pelos resultados.

Exemplo de como os funcionários realmente contribuem para o desenvolvimento da empresa são as salas de fumo criadas na fábrica, onde há café e cigarros oferecidos - apenas para consumo no local, claro. "Houve um concurso interno, selecionaram-se as melhores ideias e o resultado está à vista", orgulha-se Teresa Mendes Ferreira.

Porque a fábrica funciona 24 horas por dia, o trabalho é organizado em turnos - de 12 horas, incluindo duas de pausa. Ao fim de dois dias e duas noites, há quatro dias de descanso.

A atual fábrica, que ocupa o espaço de sete campos de futebol (6,5 hectares) e em cujos corredores vamos acompanhando em imagens a história da empresa, ainda mantém parte da estrutura com que foi concebida em 1962, 35 anos depois de ter sido fundada por Alfredo da Silva. O bairro ali construído para os trabalhadores, com escola, posto médico, refeitório, centro de comércio e capela, continua a existir, mas terreno e infraestruturas foram oferecidos à Segurança Social e à Câmara de Sintra.

Com um volume de negócios que ascendeu a euro1,4 mil milhões de euros no ano passado - 1,1 mil milhões foram para o Estado, em IVA e imposto sobre o tabaco -, a Tabaqueira tem hoje uma quota de mercado de aproximadamente 65%, mas a esmagadora maioria da sua produção vai para fora do país. Só as exportações para Espanha já excedem o total de vendas da empresa em Portugal.

Desde que foi concluída a compra pela Philip Morris, em 2000, a produção na fábrica de Albarraque mais do que triplicou, apesar da significativa quebra do mercado doméstico nos últimos anos (menos 500 mil fumadores em dez anos), tendo ultrapassado em 2015 o equivalente a 52 mil milhões de cigarros de marcas como a Marlboro, SG, Chesterfield, L&M ou Português, mais quatro mil milhões do que os produzidos em 2014. Há vinte anos, quando arrancou a reprivatização, a Tabaqueira exportava cerca de 3% do que produzia. Neste momento, 90% do total de produtos que dali saem (cigarros e tabaco de enrolar) são vendidos para mais de 35 países, correspondendo a cerca de 720 milhões de euros e dando à empresa o lugar de quinto maior exportador nacional (segundo o Instituto Nacional de Estatística).

Excelência e formação

Sendo uma das subsidiárias de referência e um dos maiores centros de produção da Philip Morris International na Europa, a Tabaqueira beneficiou, desde 1997, de um investimento médio anual de euro 12 milhões de euros para a modernização da fábrica. No ano passado, foi escolhida para sediar o Centro para a Excelência da multinacional para a região europeia, o que representou o estabelecimento no país de dezenas de financeiros e engenheiros que prestam apoio a todas as fábricas do grupo na Europa.

"O lançamento em Portugal do iQOS - que faz parte de um portefólio alargado de produtos com potencial de redução de risco da Philip Morris International, demonstrando, nos mercados onde está há mais tempo uma quota de mercado e crescimento consideráveis - levará, até ao final deste ano, a um reforço do nosso serviço de venda personalizada para cerca de 300 profissionais", explica Nuno Jonet, acrescentando que será também aqui que se estabelecerá o centro de apoio telefónico do iQOS para quatro países - "o que implicou a contratação de uma equipa de cerca de 27 operadores, coordenadores e outros com vários idiomas".

Além de valorizar os ativos da empresa, a política de recursos humanos da casa também é feita para captar talentos fora, nomeadamente à saída da universidade, através de estágios e programas de trainees - nestes, são escolhidos dois, de cerca de três mil candidatos, a cada ano, e a taxa de retenção é de 100%. Quando acabam os dois anos de programa, são integrados nos quadros, como aconteceu com Salvador.

Responsabilidade social ativa

Apesar de já não construir casas e infraestruturas de apoio aos seus trabalhadores, a responsabilidade social continua a ser uma área encarada com grande importância na empresa. Razão pela qual a Taba- queira promove diferentes ações que contribuem para o desenvolvimento e o bem-estar das comunidades locais, organiza programas de donativos a instituições de solidariedade social e apoia "uma ampla rede de organizações sem fins lucrativos", privilegiando causas que considera essenciais, como a fome e pobreza extrema, a educação, o meio ambiente sustentável, a violência doméstica e a assistência em caso de catástrofe. Misericórdias, Cais, Associação Sol, Cáritas e CERCI são algumas das instituições onde têm chegado donativos.

A casa-mãe partilha esta visão - em 2013, por exemplo, doou 39 milhões de euros para apoiar causas sociais em 70 países, em parceria com mais de 300 organizações, promovendo ainda o voluntariado e a participação ativa em ONG. Essa preocupação é alargada às comunidades ligadas a todas as fases da indústria, incluindo a produção agrícola. A este nível, a multinacional tem programas para garantir a sustentabilidade, utili- zando menos recursos naturais, reduzindo as emissões de carbono, reciclando e gerando menos resíduos. Mas também promove o cultivo sustentável do tabaco, bem como a abordagem de problemas relacionados com o trabalho infantil e outros abusos que possam ocorrer nos mercados de trabalho relacionados com o seu negócio.

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