Há quem tenha a casa no parque de estacionamento. E goste

Têm amor pela liberdade, vontade de viver de modo diferente de uma forma mais simples e económica de estar

O dia amanheceu com sol no céu e frio na terra, mas não tanto que alguns, a maioria estrangeiros, não tomem o pequeno-almoço em T-shirt na esplanada do Ganda Lata, de olhos postos no rapaz que passa rente à estação fluvial de Belém montado num monociclo, a dedilhar o seu cavaquinho. Leonor, 26 anos, bebe um café antes de arrancar para o trabalho, os pingos nas botas a contarem o que tem andado a fazer - "estou a pintar uma casa perto daqui"- o cão Puto ao lado, sempre, desde que o encontrou na rua há cinco verões.

Ontem estava no Cais do Sodré, anteontem no quintal dos pais, em Caselas, onde estaciona com regularidade - "mas o objetivo não é estar parada". Hoje acordou cedo na carrinha transformada em autocaravana, lugar para tudo, da cama à bicicleta, painel solar para a energia, interior em madeira quente desenhado à medida das necessidades e construído a muitas mãos, com mãe, pai e amigos. "Foi um projeto coletivo muito bonito", diz, "já sabia as funcionalidades que queria, tinha experiência de viver em espaços semelhantes".

Em 2010, acabou o curso de Artes Plásticas e foi com uma tenda para França, trabalhar na agricultura sazonal. "No ano a seguir fui de carro e com o namorado. Encontrei uma associação de viajantes e passei a viver em caravanas, conheci pessoas incríveis. Uma americana de 60 anos, por exemplo, que vivia numa mota da Segunda Guerra com uma tenda atrás e que agora mora numa ambulância antiga que transformou. Vivíamos em comunidade, construímos ali qualquer coisa, e isso é muito interessante, as pessoas terem coisas para dar." De vez em quando regressa a Portugal, trabalha em festivais, faz animações para festas de crianças e coisas pontuais que vão aparecendo, como a tal casa que anda a pintar. "Quando não tenho estes trabalhos desenho, fotografo, leio. Tenho um tear que gosto de meter à beira-rio para trabalhar. E faço jantaradas para os amigos, gosto muito de cozinhar."

Orgulha-se de arranjar lugar para todos no seu T0: se uma mesa de gente que se ama a partilhar um piquenique ao ar livre nunca feriu a dignidade de um lugar - desde que haja civismo e caixotes do lixo - , compreende no entanto "que as pessoas se chateiem com uma mesa posta no meio da rua. O espaço público é isso mesmo, de todos. E todos o podem utilizar desde que se respeitem uns aos outros." Diz que esta é uma forma de vida económica e alternativa e que "chatices" tem tido poucas, medos alguns. "Sou uma rapariga a viver sozinha com um cão que nem sequer é grande. Mas é preciso enfrentar os nossos receios, este sistema de medo. É o que digo à minha mãe, que volta e meia se preocupa." Belém, com o seu café-bar aberto até tarde e o grupo de autocaravanistas que ali para, é uma espécie de rede de segurança na cidade.

"Acordo onde quero"

"Uma mulher quando se mete nisto não tem medo de nada", diz Maria Vieira, vizinha temporária de Leonor. Há várias coisas a uni-las e uns cinquenta anos a separá-las - mais ou menos, que Maria pertence ao tempo em que a idade não se pergunta a uma senhora e invariavelmente responde "metade mais outros tantos" a quem o faz. Comprou a primeira rulote em 1976, "por cinco contos", e diz que são tantas as mulheres caravanistas que até há planos para formar um grupo só delas, "para abrir os olhos dos homens! Porque há muitas senhoras com carta que só não conduzem as autocaravanas porque os maridos não deixam". Reformada de "um pequeno negócio de artesanato", conta que já viveu bem e já viveu mal, já morou num barco e já morou numa casa e que nunca lhe ocorreu desistir da vida sobre rodas. "Mesmo quando fiquei viúva, em 2005, o bichinho já cá estava. Enquanto puder conduzir, lá vou eu!"

Chegou há pouco das compras - "fui a Algés, ao supermercado e ao talho, depois passei em Carcavelos, fui passear. De vez em quando vou à Costa [de Caparica], outras às Caldas, a Peniche, ao Algarve vou menos. É onde me dá na cabeça. E gosto mais de ir sozinha. Não gosto de me comprometer com ninguém e onde vou encontro sempre gente conhecida". Em Lisboa, a filha aparece para jantar, em Fátima há um grupo certo todos os meses - e a 13 de dezembro celebra-se o Dia do Caravanista. "A solidão é sempre triste", diz, "seja numa caravana ou numa casa. Eu faço amigos em qualquer lado." Só não há pneu sobresselente na autocaravana que tem tudo, da casa de banho à cama e à bicicleta, da cozinha e mesa de jantar às cortinas e napperons em croché. "Tenho a minha internet, o meu telefone, o meu aquecimento, estou garantida. Quando me dá na telha, vou." E se tem um furo, chama a assistência em viagem.

Zezé passou o verão no Algarve, depois zarpou a norte. E voltou a Lisboa para celebrar o 49.º aniversário com a filha que mora na capital e festejou 24 logo a seguir, antes do fim do ano. Diz-se "o verdadeiro homem dos sete ofícios" e a vida confirma-o: é artista, artesão e DJ, organiza festas e festivais e ainda faz "altos pitéus na cozinha". Há seis anos fartou-se de pagar a renda do apartamento em Sintra "quando, na realidade, nunca parava em casa", comprou uma rulote em segunda mão e passou a viver sobre rodas. Tem um ateliê no Cais do Sodré e a namorada tem casa em Lisboa - umas vezes ficam na caravana, outras estacionam-na à porta dela -, mas Belém continua a ser um poiso favorito, pelo "rio em frente, o comboio ao pé, os transportes para todo o lado na cidade, os pescadores e velhotes reformados que param aqui e têm histórias incríveis para partilhar".

Tem boas recordações de quando "a zona vinha em tudo quanto era guia de autocaravanismo e era o sítio por excelência para pousar em Lisboa, uma espécie de aldeia móvel com vista para o rio e todo o tipo de habitantes, jovens com pouco dinheiro e burgueses com altos camiões", estrangeiros e portugueses, muitos na reforma, alguns no desemprego, eletricistas, enfermeiras, trabalhadores da CP e do aeroporto, um paraquedista, até um agente da PSP. Depois, da doca do Bom Sucesso ao parque fronteiro ao novo Museu dos Coches, o espaço foi sendo interditado às autocaravanas, só uns poucos lugares a escapar à proibição geral. Zezé acredita que muito se perde, da mais-valia para o comércio local que a presença de turistas com poder de compra e necessidades de consumo quotidianas representa, à constância de uma comunidade que vivifica a zona o ano inteiro e não apenas na "época alta". Continua a crer na coexistência legal e pacífica de vários modos de vida e nada o faz desistir da sua casa sobre rodas. "Desde o momento em que a escolha é tua, viver numa caravana não tem desvantagens. Acordo onde quero, vou para onde quero. Vivo como se morasse num apartamento das Amoreiras mas sem o prédio manhoso cheio de vidros e elevadores."

"Podia viver numa caravana"

Tintin, amigo de muitos anos e vizinho ocasional, confirma: "Poder estar hoje aqui e amanhã na serra de Sintra com a minha casa é imbatível. São opções de vida. Eu sou feliz. E dificilmente me tiram a felicidade." Sempre fez campismo e desde que teve carta de condução passou a fazer caravanismo. "Primeiro comprei uma carrinha velhota e transformei-a toda, só mais tarde investi no meu T0 com rodas, em terceira mão." Há quatro anos mudou a vida. "Era tipógrafo, como o meu pai, que tinha uma tipografia no Príncipe Real, mas o digital acabou com a profissão. Estava desempregado, pagava 500euro de renda no Bairro Alto e tinha uma autocaravana à porta. Percebi que não fazia sentido e a partir daí ela passou a ser a minha base." Trabalha em montagem de espetáculos, vive o tempo quente quase sempre a sul, no outono e no inverno procura estar na capital. "A minha filha tem 7 anos, anda na escola, e eu quero estar por perto para a apoiar" - outra razão para a zona de Belém ser conveniente, com a sua rede de transportes até de madrugada. Dificilmente o convencem de que um autocarro de turismo aparcado o dia inteiro na zona monumental seja mais digno do que uma caravana ou de que entre os ocupantes de um e de outra exista qualquer escala de valores. A crescente ilegalidade da situação preocupa-o, mas não a compreende. "Pago os meus impostos como qualquer cidadão automobilista, a minha autocaravana ocupa o espaço de estacionamento de uma carrinha de mercadorias. Não aceito a discriminação. Sou autossuficiente, vou a áreas de serviço dos arredores fazer os despejos e encher o depósito da água, não deixo lixo na rua e até chego a limpar o dos outros, para não apontarem o dedo a caravanistas." Sente-se seguro em Belém, apesar de não existirem infraestruturas adequadas e de a lei municipal estipular que "para acampar, o único espaço que existe é o Parque de Campismo de Monsanto" (posição oficial da CML em declarações à Lusa, em agosto passado).

"Não gosto de ir para parques de campismo, são geralmente afastados do centro das cidades e demasiado caros para os serviços de que necessitamos. Até o cão tem de pagar", diz Philip na sua autocaravana com casa de banho e cozinha, energia solar e espaço q.b. para ele, a mulher, Vilma, e o Butch, um bicho de 13 anos com porte de pastor-alemão.

Pagar diária em Monsanto

Se estacionassem no camping de Monsanto teriam de desembolsar, consoante a época, 23,80euro ou 34,60 euroseuro por dia. Em jeito de comparação, o vizinho Udo, um alemão de 77 anos, conta que apesar de viajar por Portugal numa pequena autocaravana vive numa versão XL permanentemente aparcada num parque de campismo em Hanôver: "Pago mileuro euros por ano, com tudo incluído, água, luz, wi-fi, esgoto. Fica bastante em conta." Ressalvando que "temos de respeitar as regras e as pessoas", Philip lembra que a última vez que parou a sua casa móvel em Belém, o vasto espaço de estacionamento em frente à estação fluvial ainda não tinha a sinalização "exceto autocaravanas" por baixo do P de Parque. "Há nove anos que vimos para cá e ficamos sempre nos mesmos sítios."

Assim que o corpo dá sinal, Philip fecha à chave o apartamento em Bruges e a família põe-se a caminho do Sul. "Os meus ossos doem até eu chegar ao sol" diz, num português com sotaque à conta do ano em que foi "sozinho de mochila para o Brasil, era muito novo. Falo várias línguas e nunca aprendi nenhuma na escola, além do flamengo". Agora tem 59 anos e está reformado, gosta de entrar por Coimbra, descer à Nazaré, depois Batalha, chegar a Belém, estacionar e apanhar o elétrico para matar saudades de Lisboa e dos amigos que aqui encontra. Vilma, de origem filipina, acha piada à última novidade lisboeta: "Os tuk-tuks, que dão muito jeito para subir ao castelo e arredores." Gosta de acordar cedo e de tricotar à noite, adora a comida portuguesa - "quase sempre jantamos fora e sempre que podemos comemos peixe". Philip continua: "Gosto do convívio com os portugueses, do cafezinho, do sol. A mentalidade aqui agrada-me, as pessoas são afáveis, disponíveis. Cada vez encontro mais caravanistas portugueses, principalmente ao fim de semana. Na última vez que estive na praia da Consolação, o único estrangeiro era eu, e aquilo estava cheio." A família aponta a autocaravana ao Algarve e continua a descer, lá para o fim do inverno há de começar a subida até ao Porto e Braga, depois atravessa a Espanha, e por aí fora até ao verão belga. Seis meses lá, seis cá. "A Vilma gosta de voltar a casa, mas eu podia viver numa caravana para sempre", remata Philip. "You are free like a bird. Se chegas a um sítio e ele te agrada, ficas. Senão, vais!"

Se uma cidade é tanto mais cosmopolita quanto os diferentes modos de vida que consegue acomodar no seu quotidiano, Lisboa está no caminho certo.

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