Governo aguarda mais dados para decidir segunda dose para vacinados com AstraZeneca

À semelhança de outros países da União Europeia, Portugal vai começar a administrar a vacina da AstraZeneca só a pessoas com mais de 60 anos. A decisão avançada pelo DN ao início da tarde, foi confirmada depois pela diretora-geral da Saúde ao início da noite em conferência de imprensa. A alteração não vai mudar o plano de vacinação.

Em Portugal, há 400 mil pessoas que já receberam a vacina da AstraZeneca, a esmagadora maioria só com a primeira dose. Por isso, o Governo vai esperar por mais dados da empresa e da Agência Europeia do Medicamento (EMA) sobre os fenómenos tromboembólicos para decidir quanto a uma solução para a toma da segunda dose.

Isto mesmo foi garantido pela diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, na conferência de Imprensa que decorreu ontem ao final da tarde, no Infarmed, para anunciar que, a partir de agora, esta vacina, que passou a ter a designação comercial de Vaxzevria, será apenas administrada a pessoas com mais de 60 anos.

A diretora-geral garantiu que esta espera tem como objetivo encontrar uma solução segura para quem já tomou a primeira dose com AstraZeneca e tem de tomar ainda a segunda. "Estas pessoas terão uma solução que seja segura e que permita maximizar a proteção dada pela primeira dose". No entanto, o coordenador da task force, vice-almirante Gouveia e Melo, garantiu que todas as pessoas para as quais for indicada esta vacina não a poderão rejeitar. "A task force segue as orientações da Direção-Geral da Saúde (DGS), senão o fizesse o plano poderia não ser exequível e nem ser justo para todas as pessoas".

Graça Freitas sustentou esta espera por mais dados com o facto de haver tempo para o fazer, já que esta vacina impõe um intervalo de três meses, 90 dias, e no nosso país muito poucas terão sido já vacinadas com as duas doses da AstraZeneca. "Serão muito poucas as pessoas que poderão ter tomado já a segunda dose", já que a vacina só começou a ser administrada no nosso país em fevereiro. No entanto, as autoridades de saúde portuguesas voltaram a reiterar as conclusões já assumidas nesta quarta-feira pela EMA, de que a vacina "é eficaz e segura", cumprindo os objetivos do plano de vacinação contra a covid-19, uma doença grave associada a internamentos e à mortalidade.

"A vacina continua a superar os riscos", referiu o presidente do Infarmed, Rui Ivo. Graça Freitas acrescentou: "Qualquer campanha de vacinação tem em conta a proteção da população contra doenças graves e salvar vidas". Aliás, esta nova alteração de critérios ao Plano Nacional de Vacinação Contra a Covid-19 tem precisamente este objetivo, evitar efeitos indesejáveis numa população mais jovem que possa estar a correr mais riscos.

Segundo garantiu Gouveia e Melo, esta decisão não vem alterar o ritmo da vacinação em Portugal, explicando que a vacina irá ser usada nos dois milhões de população com mais de 60 anos e que ainda não foi vacinada. Graça Freitas justificou também que a decisão foi aceite por "ter como objetivo maior proteção da população sem se perder capacidade de vacinação". A única situação a registar é o adiamento por uma semana dos 200 mil profissionais de ensino, docentes e não docentes, que estavam agendados para vacinação neste sábado e domingo.

O vice-almirante explicou que as vacinas existentes e esperadas em Portugal serão suficientes para prosseguir com o ritmo do plano de vacinação, esperando mesmo que até ao final de maio "a maior parte da população com mais de 60 anos esteja toda vacinada".

No segundo trimestre Portugal deverá receber 1,8 milhões de doses de vacinas, destas 1,4 milhões serão da AstraZeneca, mas como disse servirão para vacinar os mais velhos, já que nenhum caso grave foi detetado nestas faixas etárias.

Exemplos europeus

Portugal junta-se assim a outros países europeus, como Espanha, Holanda, Alemanha e França que já tinham definido este limite de idade para a administração da vacina, havendo outros, como a Finlândia e a Suécia, que administram a partir dos 65 anos, ou como a Itália e a Bélgica que a usam nas faixas etárias a partir dos 55 anos. No Reino Unido, por exemplo, onde foram detetados 79 casos tromboembólicos com gravidade, a vacina é usada em pessoas com mais de 30 anos.

O presidente do Infarmed, Rui Ivo, referiu aos jornalistas que até agora Portugal apenas registou uma situação deste tipo com a administração da vacina da AstraZeneca, e uma segunda com uma das outras vacinas que estão a ser administradas, e que são a Pfizer e a Moderna, não referindo com qual delas aconteceu. No entanto, salvaguardou, "foram situações um pouco diferentes das registadas em outros países e nenhuma foi fatal, as pessoas evoluíram bem".

Ao DN, um especialista em vacinas explicou ser normal que Portugal fosse das nações europeias com menos fenómenos tromboembólicos, já que as situações foram identificadas apenas em países que já têm muito mais população vacinada. "O nosso país apenas administrou a vacina a centenas de milhares de pessoas e não a milhões. É nestes casos que foram detetados tais efeitos indesejados".

Recorde-se que, e como referiu Rui Ivo, os peritos da EMA tinham chegado à conclusão no dia anterior de ser possível a existência de uma relação entre a administração da vacina e a manifestação de tais fenómenos entre os sete e os 14 dias após a tomada da vacina, justificando, no entanto, que esta continuava a ser "eficaz e segura" em relação aos riscos que apresentava. De acordo com a circular do Infarmed, foram avaliados na Europa 62 casos de trombose dos seios venosos cerebrais e 24 casos de trombose esplâncnica, 18 dos quais fatais. Todos ocorreram em pessoas com menos de 60 anos, na sua maioria mulheres.

Segundo os peritos da EMA, a possível ligação entre a administração da vacina e a possível formação de coágulos sanguíneos invulgares estará combinada com um nível baixo de plaquetas, provocando este efeito, pelo que foi recomendado a sua inclusão no folheto informativo da vacina. Um pedido que foi já aceite pelo laboratório.

Esta nova alteração de critérios em Portugal surge após não ter sido possível alcançar uma posição conjunta sobre esta matéria no seio da UE, parte devido ao facto de haver alguns países que estavam a seguir o limite de idade agora assumido também por Portugal.

O primeiro-ministro António Costa e a ministra da Saúde defenderam a tomada de uma posição conjunta, após terem sido conhecidas as conclusões dos peritos da EMA. Como tal não foi possível, ontem foi a vez de Portugal anunciar o seu limite de idade tendo por base o critério comum para uma "medicina de prevenção", como referiu Graça Freitas.

Desde que foi iniciado o processo de vacinação na Europa e no mundo que a vacina da AstraZeneca é que a tem estado envolta em maior polémica. No início, foi a suspensão por parte de alguns países em relação ao seu uso nas pessoas mais de 65 anos, "não por uma questão de eficácia", mas por não haver resultados suficientes em relação à população desta faixa etária. Mas o laboratório continuou os ensaios e veio a verificar-se que era eficaz e segura para os maiores de 65. Depois foi a questão dos fenómenos tromboembólicos: a EMA avaliou os casos e concluiu que a vacina continuava a ter mais benefícios do que riscos, mas agora concordou ser necessário a inclusão no folheto informativo deste efeito secundário em pessoas mais jovens. Mas os estudos vão continuar.

Como é referido desde o início por especialistas nacionais e internacionais "os ensaios continuam" e os planos de vacinação não são estanques, devendo ser atualizados de acordo com a informação científica disponível.

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