Gabinete Sénior indignado com morte de idoso em hospital e propõe novas normas de atendimento
O Gabinete Sénior – Associação de Apoio Jurídico e Social manifestou-se esta sexta-feira, 6 de novembro, indignado com a morte de um utente de 87 anos na ULS do Algarve, em Portimão, após mais de 10 horas de espera no serviço de urgência.
No entender da associação, "uma espera de 10 a 12 horas não é aceitável, seja qual for a afluência ao serviço, para um doente urgente de 87 anos", tratando-se de um tempo "10 vezes superior ao tempo-alvo da triagem".
Para o Gabinete Sénior não se trata de uma ocorrência isolado, uma vez que, "em urgências sobrelotadas, é comum ver-se pessoas de maior idade a aguardar horas e horas, muitas vezes sozinhas, sem reavaliação do seu estado", "circunstâncias que têm levado a própria Ordem dos Médicos a defender uma nova avaliação clínica dos doentes com pulseira amarela, quando os tempos de espera se prolongam".
A associação salienta que o quadro legal português já protege a pessoa idosa, "mas o que está a fazer falta é transformar tais direitos em procedimentos obrigatórios dentro dos hospitais".
A proposta de procedimentos da associação para todos os serviços de urgência que atendam pessoas com 65 ou mais anos passa por "informar do direito de acompanhamento na admissão e permitir a presença do acompanhante durante toda a permanência no serviço"; "sinalizar a pessoa idosa que chega sozinha" e a partir daí o serviço contactar, "com o seu consentimento, um familiar, o cuidador ou o médico de família"; "dar prioridade à pessoa idosa dentro do mesmo nível de triagem, sobretudo a partir dos 80 anos ou em situação de dependência, em cumprimento do Estatuto da Pessoa Idosa"; "reavaliar quando o tempo-alvo é ultrapassado", de forma a que um "doente com pulseira amarela que aguarda mais de 60 minutos deve ter sinais vitais medidos de novo e, se necessário, nova cor de triagem"; "vigiar ativamente a sala de espera, com rondas periódicas de um profissional de saúde que verifica o estado de cada pessoa idosa e não apenas a sua presença"; "garantir condições básicas durante a espera: cadeira ou maca adequada, água, acesso a instalações sanitárias, alimentação compatível e a medicação habitual, mediante avaliação clínica"; "informar o doente e a família do tempo previsível de espera e de qualquer alteração do estado de saúde, de imediato quando houver agravamento"; "ativar um plano de contingência quando a afluência aumenta, com reforço da equipa de triagem e encaminhamento dos doentes menos urgentes"; e "publicar os tempos de espera por cor de triagem e por idade, para que o cumprimento possa ser acompanhado pelos cidadãos e pela Entidade Reguladora da Saúde".
Na madrugada de quarta-feira, um homem de 87 anos morreu na urgência daquele hospital, após cerca de 10 horas de espera. A Unidade Local de Saúde (ULS) do Algarve anunciou esta quinta-feira que vai instaurar um inquérito para apurar as circunstâncias da morte.
O hospital explicou que o utente recorreu à urgência por volta das 17h00 de terça-feira, com queixas de vómitos e dor abdominal, tendo sido triado com pulseira amarela. Às 4h00 de quarta-feira, foi chamado para observação médica, não tendo respondido à chamada. Foi depois encontrado inconsciente na sala de espera por enfermeiros.
Segundo a ULS do Algarve, o homem tinha várias comorbilidades, incluindo um acidente vascular cerebral (AVC) anterior e outras doenças crónicas, mas os sintomas apresentados não permitiam antecipar o desfecho fatal.
A administração hospitalar rejeitou que o homem tenha morrido na sala de espera, garantindo que o óbito ocorreu na sala de reanimação, depois de ter sido sujeito a manobras de reanimação sem sucesso.
A Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) confirmou que vai abrir um inquérito para esclarecer o caso.

