A vertiginosa velocidade de propagação que transformou este incêndio no pior da Europa este ano não se explica apenas pelas rajadas de vento de 80km/h que fustigaram a Beira Alta. Sob um cenário meteorológico extremo, o desastre foi catalisado por duas realidades gritantes fora do alcance do combate: a forte suspeita de fogo posto na origem do sinistro e o abandono crónico de um território rural sem donos.“Houve dois focos de incêndio que começam às 3h00 da manhã. Consegue-me explicar o que é que falhou para haver dois focos de incêndio a começarem às 3h00 da manhã?”, questionou o Comandante José Neves, em conversa com o DN, rejeitando liminarmente a existência de falhas táticas das equipas no ataque inicial em Vouzela, numa altura em o incêndio se encontrava já em fase de rescaldo, garantiu.Conta o responsável regional da Proteção Civil, que quando chegou ao terreno, logo naquela primeira madrugada, e parou a carrinha, “o carro abanava, com o vento”. “Havia velocidades de propagação absolutamente descomunais. E isto dificultou em muito as primeiras horas de combate”. Condições que contribuíram, em parte, para que esta ignição já tenha batido todos os recordes da Europa. Mesmo tendo tido “mais de 1300 operacionais – dos quais 120 militares espanhóis – e entre 12 e 15 meios aéreos por dia a atuarem no teatro de operações” frisou o comandante..Outro fator relevante a alimentar a ignição, na opinião de José Neves, foi o fogo ter encontrado nas encostas desordenadas o combustível ideal para se propagar. Confrontado com a eficácia real da legislação de limpeza de terrenos e das faixas de gestão de combustível impostas pelo Governo, a resposta do comandante é desarmante: “Continua tudo igual. Não há diferença nenhuma.”Segundo José Neves, a utopia de uma mata imaculada colide com a dura demografia do interior do país: “O mundo rural, a floresta não pode estar... como é que a floresta pode estar limpa?”O verdadeiro obstáculo para travar a propagação de incêndios reside no abandono populacional e na estrutura de propriedade. Numa região dominada pelo minifúndio, a fiscalização e a aplicação de coimas tornam-se redundantes na prática. “Por outro lado temos o abandono rural, que leva a que os terrenos não tenham sequer dono. Não se pode multar ninguém”, explica o comandante, sublinhando que a maioria das terras nesta zona “são privadas e maioritariamente de eucalipto”, combustível altamente inflamável.Perante o balanço astronómico da área ardida, que tanto se tem sublinhado, responde o comandante José Neves, após quase três dias de combate às violentas chamas: “Hoje, quando eu sair daqui, só há uma coisa que me vai deixar, de certa forma, confortável. Não são os 14 mil hectares, mas é o facto de nenhum operacional ter uma perda de vida durante o combate a este incêndio.”.Vouzela atira Portugal para recorde da Europa de área ardida em 2026