Carlos Fiolhais: "A ciência não é o que diz um cientista"

O físico Carlos Fiolhais junta-se a outros cientistas para criticar o Governo e dizer que não se pode pedir consenso científico quando "a ciência nunca foi ouvida de forma organizada e coerente" no combate à pandemia

As criticas às reuniões do Infarmed, que reúnem peritos de várias áreas, o Presidente da República, o primeiro-ministro, partidos e outros representantes da sociedade e da economia, para avaliar a evolução da pandemia no país, estão a crescer de tom. Desta vez, foi o cientista Carlos Fiolhais, que numa conversa com Francisco José Viegas, numa iniciativa da Editora Quetzal, disse que tais "reuniões eram um simulacro".

A mesma opinião também a reafirmou ao DN, salvaguardando que nestas reuniões estão presentes cientistas com valor, mas que não podem ser consideradas uma audição à ciência. Explicando: "A ciência não é o que diz um cientista. A ciência é um processo, e a sua força está no facto de se trabalhar em conjunto e continuamente até se alcançar as respostas que estão mais adequadas ao que podemos chamar verdade".

E é neste sentido que o físico e professor da Universidade de Coimbra critica o Governo, quando diz que "os cientistas têm de se entender' ou, pior ainda, quando disse: 'Os cientistas não se entendem'". Isto revela que os políticos "não estão a perceber o que é a ciência". Por isso, "o primeiro-ministro não pode agora pedir aos cientistas consenso, quando a ciência nunca foi ouvida de forma organizada e coerente, no combate à pandemia".

Carlos Fiolhais argumenta: "Se queremos apurar a opinião da ciência, num assunto interdisciplinar, como é o combate à pandemia, que tem várias dimensões, desde a infecciologia, à bioquímica, à epidemiologia, à prática médica, há que criar um conselho científico, onde todas estas pessoas estejam presentes e possam dialogar entre elas para chegarem a um consenso do que há fazer, do que é certo ou do que é errado, para se fazer melhor a seguir".

O professor dá como exemplo outros países, nomeadamente os EUA, onde "o professor Anthony Faucci é o porta-voz da ciência. É presidente de uma organização científica e tem a confiança dos seus pares para falar sobre a matéria", sublinhando que é precisamente este diálogo entre pares que não existe em Portugal. "Não há um porta-voz da ciência em Portugal", afirma. Portanto, o Governo não pode vir agora pedir aos cientistas que definam critérios ou que alcancem o consenso cientifico quando nunca criou um organismo, um conselho científico, onde os cientistas pudessem dialogar".

O professor de Coimbra fundamenta: "O consenso científico surge do trabalho em conjunto e contínuo, não é uma coisa que se faça ao fim de semana e que depois desapareça. Um cientista quando fala em nome de um grupo tem de incorporar no seu discurso as apreciações feitas pelos seus pares, a apreciação geral das coisas do que é o raciocínio, a base do conhecimento do que é o método científico e não só o que é a sua perceção".

A voz de Carlos Fiolhais junta-se à de outros cientistas - como o médico e professor catedrático jubilado, Constantino Sakellarides, que defendeu a mesma perspetiva num artigo publicado recentemente no DN, onde dizia não se poder usar a ciência em vão, ou o diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Carlos Robalo Cordeiro, que também em entrevista ao DN lembrou que a audição individual de cientistas não é a ciência falar.

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