Fim da proteção leva Rui Pinto a anunciar fuga para local secreto. Defesa fala em "terrorismo de Estado"
O hacker Rui Pinto anunciou que vai mudar-se, nos próximos dias, "para um local não divulgado por tempo indeterminado", na sequência do fim da proteção concedida pelo programa de proteção de testemunhas. O anúncio foi feito na rede social X (antigo Twitter), onde também divulgou uma campanha online de arrecadação de fundos, com uma meta de três milhões de euros.
Rui Pinto explica que a decisão ocorre depois de ter deixado de contar com proteção policial, que recebe desde 2020. "Na quarta-feira, poucas horas após o veredicto que confirmou oficialmente a culpa do Manchester City, a Comissão responsável pelo programa de proteção a testemunhas em Portugal informou-me da sua decisão de encerrar a minha participação no programa e retirar a minha proteção policial, colocando-me, assim, conscientemente, numa situação de risco de vida", lê-se na publicação.
Segundo o hacker, esta é a única alternativa. "Dadas estas circunstâncias, não tenho outra alternativa senão mudar-me, nos próximos dias, para um local não divulgado por tempo indeterminado, devido às múltiplas ameaças de morte que tenho recebido e ao grave risco de um atentado contra mim", afirma.
A campanha de arrecadação, através da plataforma GoFundMe, tem o título Help save Rui Pinto's life (Football Leaks whistleblower) - "Ajude a salvar a vida de Rui Pinto (denunciante do Football Leaks)", em tradução literal. A meta é de três milhões de euros e, em menos de duas horas, tinham sido angariados pouco mais de seis mil euros.
"Terrorismo de Estado"
A defesa de Rui Pinto também divulgou um comunicado em que apela às autoridades portuguesas para que reconsiderem "uma decisão com consequências gravíssimas" para o denunciante. A proteção termina em 10 de outubro. Os advogados alegam que Rui Pinto não foi ouvido antes da decisão, em desacordo com o que determina a lei.
"A sua situação é agora crítica. As ameaças de que é alvo não são meramente teóricas: em abril passado, foi agredido em Lisboa. As suas revelações envolveram figuras poderosas e dotadas de vastos recursos", argumentam.
A defesa lembra ainda que o caso continua em curso e que uma das decisões relacionadas com as revelações de Rui Pinto foi conhecida esta semana, com o veredicto envolvendo o Manchester City. "Rui Pinto ficará agora mais vulnerável do que em qualquer outro momento desde 2020", vincam os advogados.
A defesa acrescenta que "Rui Pinto cooperou com a justiça portuguesa, e foi precisamente essa cooperação que justificou a sua integração num programa de proteção" e que "os Estados que beneficiam da sua atuação não podem simplesmente virar as costas à pessoa que assumiu os riscos necessários para trazer estes factos à luz do dia".
Os advogados vão apresentar um recurso administrativo contra a decisão, com o objetivo de a suspender. Segundo a defesa, foram pedidos uma reavaliação da situação e a divulgação dos elementos que fundamentaram a avaliação de risco. A defesa solicitou ainda que Rui Pinto fosse ouvido e que, "em qualquer caso", fosse assegurada a continuidade da sua proteção.
Para os advogados, "esta decisão e a forma como foi tomada não respeita, lamentavelmente, o Estado de Direito e constitui um ato de terrorismo de Estado", posição que afirmam não poder aceitar.
amanda.lima@dn.pt

