Filhos ditadores. Quando eles ameaçam, agridem e insultam os pais

Javier Urra, autor de O Pequeno Ditador Cresceu, dá a receita para disciplinar filhos agressivos: aplicar limites e sanções

"Gostam de ter sucesso na sua tirania. Gostam de bater e humilhar. O seu princípio filosófico é: primeiro eu, depois eu. Não empatizam, não se colocam no lugar do outro, não aceitam a frustração. Por vezes, mostram-se muito zangados e irritados." São assim os pequenos ditadores, diz Javier Urra, autor de O Pequeno Ditador Cresceu, uma espécie de sequela da obra O Pequeno Ditador, que desde 2007 vendeu 33 mil exemplares em Portugal. A solução passa por disciplinar e impor sanções.

Não nascem assim, mas transformam-se. "É verdade que há pais que educam bem os filhos e que, por diferentes circunstâncias, eles se viram contra eles", disse, numa entrevista ao DN. Fazem ameaças, agridem, insultam. A maioria dos agressores são rapazes e as principais vítimas são, segundo o psicólogo espanhol, as mães. "Mas não estamos a falar de violência de género." Irmãos e avós também sofrem imenso. "30% dos jovens que são violentos com os pais, também entram em conflitos na escola e na rua."

Javier Urra é diretor de um programa de terapêutico para pais e filhos em conflito. Nos últimos quatro anos passaram pelo programa cerca de mil jovens em ambulatório e 370 de forma residencial, com uma estada média de dez meses. "63% são jovens rapazes", mas o problema começa quando ainda são crianças. Nas famílias, o psicólogo deteta um elevado grau de superproteção, pais permissivos e também simpáticos e amáveis. Após o tratamento, revela Javier Urra, a taxa de sucesso é de 72%.

Numa entrevista recente à Lusa, o presidente da Sociedade Espanhola para o Estudo da Violência Filioparental afirmou que "estamos perante uma pandemia de violência filial" em países como Portugal e Espanha. Os sinais surgem desde muito cedo, com insultos, ameaças, objetos destruídos. Mas, quando os ditadores crescem, os maus-tratos verbais ou emocionais chegam, por vezes, a transformar-se em violência física.

Ao longo dos anos, diz Javier Urra, a gravidade dos comportamentos faz que o problema seja exacerbado, mas ele está lá desde o início. "São faíscas, que geram um grande incêndio." A disciplina é "essencial". Pais e professores devem impor poucas regras, mas que sejam cumpridas. E as sanções, defende, fazem parte da educação. Tal como fixar limites, dizer não ou adiar gratificações.

"Pequenos ou não tão pequenos ditadores podem ser derrubados", assegura o psicólogo. Javier Urra aconselha os pais a reconhecer o problema e a procurar a ajuda de especialistas desde muito cedo, para marcar limites, transmitir o que é o respeito pelos adultos. Uma criança pode, por exemplo, ser instruída para não levar as sapatilhas para dentro de casa, porque os pais estão cansados. "Devem saber o que é o esforço, o dever, a compaixão, a ternura, o perdão."

A maioria dos jovens ditadores sentem que as suas famílias não os compreendem. Podem ter comportamentos antissociais, mas geralmente não o são. Em alguns casos, começam a consumir canábis, o que, segundo os pais, faz piorar os comportamentos. Ao "tsunami relacional" entre pais e filhos Javier Urra chama "patologia do amor", que exige um envolvimento de profissionais de saúde mental, não apenas da justiça.

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