Fenómeno extremo deixa Lisboa inundada. "Vai voltar a acontecer. É inevitável"

Chuva intensa inundou casas, garagens, lojas e transformou ruas em rios e o túnel do Campo Grande numa "piscina com três metros de profundidade". Moedas alerta que situação vai repetir-se devido à alterações climáticas, mas aponta já à solução futura: os túneis de drenagem previstos para a cidade, que deverão estar concluídos até 2025.

"Vi as coisas muito complicadas por volta da meia-noite", admitiu esta quinta-feira o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, após a noite anterior ter sido "muito difícil" devido à quantidade de chuva que caiu na cidade. Em poucas horas, a forte precipitação deixou a capital inundada.

A água entrou em habitações, garagens, estabelecimentos comerciais, alagou estações de metro e de comboios, transformou estradas em rios e o túnel do Campo Grande numa "piscina com três metros de profundidade", salientou Moedas. "E a minha angústia como presidente da câmara foi pensar o que pode estar em três metros de profundidade", reconheceu, antes de salientar que "felizmente não há feridos graves no município de Lisboa, mas há muitos danos materiais".

De acordo com o autarca, foram "resgatadas 14 pessoas, que estavam em situação muito difícil", algumas das quais encontravam-se dentro de carros e tiveram de abandonar as suas viaturas. "O nível da água subiu tanto, que a angústia era grande. As pessoas foram resgatadas sem grandes incidentes e ferimentos", disse o autarca, dando conta que existiram, sobretudo, situações de "ansiedade e de grande susto".

Tratou-se de um "fenómeno meteorológico muito extremo, com impacto sobretudo na Área Metropolitana de Lisboa e nos concelhos limítrofes", classificou Patrícia Gaspar, secretária de Estado da Administração Interna, durante um ponto de situação, no qual lamentou a única vítima mortal, uma mulher -- que inicialmente os bombeiros informaram ter 55 anos mas que depois, segundo vizinhos, se soube ter 75 --, que foi registada em Algés, no município de Oeiras, uma das zonas mais afetadas pelo mau tempo.

Em todo o país foram registadas quase duas mil ocorrências (1977) na noite de quarta-feira, mas só no distrito de Lisboa foram 913, contabilizou a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC). "Tivemos mais de 300 ocorrências em Lisboa. Basicamente, choveu, entre as 17.00 e as 01.00, 87 milímetros de água, algo que não se via desde 2014", salientou Carlos Moedas. Números que ilustram bem a quantidade de chuva que caiu em algumas zonas da cidade, em poucas horas, uma vez que os valores médios de precipitação para todo o mês de dezembro rondam os 126 milímetros para Lisboa, indicou à Lusa a meteorologista Patrícia Gomes do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

E o pior é que estas condições meteorológicas extremas vão repetir-se na cidade de Lisboa, avisou Carlos Moedas. "Vai voltar a acontecer. É inevitável" devido às alterações climáticas, que "estão para ficar", explicou, fazendo de seguida um pedido aos lisboetas: "Não arrisquem, peçam ajuda".

Autarca destaca importância dos túneis de drenagem para o futuro da cidade

Perante o que se viveu na capital, o autarca apontou a soluções futuras e destacou a importância dos túneis de drenagem previstos para a cidade (ver peça secundária). Precisamente na quarta-feira, "por coincidência", foi aprovado na Assembleia Municipal o orçamento que "dá a capacidade de começar já em março" estas obras, que são consideradas estruturais e que devem estar concluídas até 2025.

São "dois túneis, um que irá desde Campolide até Santa Apolónia e outro entre Chelas e Beato", permitindo "escoar toda esta água em caso de chuva, com reservatório de 17 mil metros cúbicos", detalhou o presidente da autarquia. Uma infraestrutura que irá preparar Lisboa para o futuro, para que "estas situações não aconteçam na nossa cidade", sublinhou. Moedas pediu, desde logo, "paciência" aos lisboetas, já que a obra vai ter impacto na mobilidade, mas, repetiu, a infraestrutura "é essencial".

O presidente da Câmara de Lisboa referiu que estão a ser analisados todos os danos, realçando que se está perante "fenómenos extremos". "Avaliando os danos, podemos depois olhar para, caso a caso, o que aconteceu", declarou, garantindo também que serão equacionados apoios. Vários comerciantes começaram na manhã de ontem a fazer contas aos prejuízos e a iniciar os trabalhos de limpeza.

Oeiras foi outro município na Grande Lisboa fortemente afetado pela chuva intensa, sobretudo Algés, onde se registou uma vítima mortal. Na Amadora mais de 100 pessoas tiveram mesmo de ser retiradas das suas habituações devido ao aluimento de terras a cerca de 200 metros das habitações do Casal de São Vicente, na freguesia de Mina de Água. Ainda no dia de ontem, os moradores começaram a regressar às suas casas.

No total, o mau tempo na Grande Lisboa provocou 27 desalojados, nove em Odivelas, seis na Amadora e 12 em Loures, indicou a Proteção Civil.

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