Durante ano e meio uma equipa internacional de investigadores, liderada pelo cientista português, Nuno Faria, do Imperial College London, em colaboração com o Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), da Universidade Nova de Lisboa, estudou toda a documentação histórica contida no arquivo da biblioteca desta última instituição e conseguiu reconstruir com todo o detalhe a epidemia de febre amarela, em 1857, que atingiu Lisboa e provocou mais de 5600 mortes. Ao DN, Nuno Faria confirma que as conclusões “surpreenderam”, considerando que o estudo realizado e já publicado na revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases, mais do que um alerta para a febre amarela é um alerta para o aumento das doenças provocadas por mosquitos. Para o epidemiologista, embora Portugal tenha um risco reduzido de contágio da doença, “o contexto global mudou e há sempre um risco, que deve ser acompanhado com atenção”. Do lado do IHMT, a cientista e farmacêutica Ana Abecassis destaca a importância da documentação existente na instituição, referindo que esta investigação só foi possível pelo “acesso e análise dos dados de surtos históricos preservados no património documental do IHMT NOVA”, os quais, explica, permitiram “compreender padrões de propagação, as determinantes sociais de saúde envolvidos e antecipar riscos relevantes para a saúde pública atual”. Na entrevista ao DN, Nuno Faria fala da importância da investigação que liderou na prevenção das doenças provocadas por mosquitos. . Liderou um estudo sobre a febre amarela em Portugal e a possibilidade de a doença regressar face a novos fatores ambientais e sociais, como surgiu a ideia de investigar uma doença erradicada do país desde o Século XIX? A febre amarela é uma doença transmitida pelo Aedes aegypti, um mosquito que se adapta particularmente bem a ambientes urbanos e climas tropicais e subtropicais e que, uma vez estabelecido, é particularmente difícil de eliminar. Historicamente, as epidemias de febre amarela fora de África ocorreram sobretudo em cidades portuárias devido à introdução do vírus e do mosquito através do comércio transatlântico de escravos. Foi o que aconteceu em Lisboa, em 1857. Em relação às motivações para o nosso estudo posso dizer que surgiu da conjugação de dois fatores. Por um lado, o facto de ter vindo a aumentar o risco global associado às doenças transmitidas por mosquitos (também chamadas de arboviroses) num contexto de alterações climáticas, urbanização acelerada e mobilidade internacional. Por outro, a existência de registos históricos excecionalmente detalhados sobre a grande epidemia de febre amarela que afetou Lisboa no Século XIX, o que nos ofereceu uma oportunidade única para estudar a doença e como esta se disseminou num contexto urbano europeu antes da existência de vacina, que só surge após 1937. Quando fala em fontes históricas a que se refere?Refiro-me, por exemplo, ao Relatório da Epidemia de Febre Amarela em Lisboa, no Ano de 1857, publicado pelo Conselho Extraordinário de Saúde Pública do Reino, disponível no acervo do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, da Universidade Nova de Lisboa, junto com descrições médicas detalhadas da época, mapas urbanos, registos de mortalidade e dados demográficos. Estes materiais foram digitalizados e integrados com métodos modernos de análise espacial e modelação epidemiológica. Foi uma investigação que decorreu ao longo de ano e meio e envolveu uma equipa multidisciplinar de investigadores, combinando geografia, epidemiologia e modelação matemática.Os resultados surpreenderam?Alguns resultados foram particularmente marcantes. Apesar de se tratar de uma epidemia do século XIX, os padrões de transmissão que observámos são semelhantes aos que hoje associamos a surtos urbanos de febre amarela em regiões tropicais. Observámos também desigualdades claras, tanto no espaço urbano como entre diferentes grupos populacionais: alguns bairros e grupos em situações sociais mais vulneráveis foram desproporcionalmente afetados. As epidemias expõem e amplificam desigualdades sociais e 170 anos depois voltamos a ver esse padrão também durante a pandemia da covid-19, percebendo-se que as condições e o acesso aos cuidados de saúde continuam a influenciar fortemente quem adoece mais e quem sofre as consequências mais graves.Até agora, Portugal era dos países que tinha risco nulo de contágio de febre amarela. A situação pode mudar? Porquê?É fundamental sublinhar que Portugal não tem atualmente transmissão de febre amarela, nem casos autóctones. Como já disse, a febre amarela é transmitida principalmente pelo mosquito, Aedes aegypti, que não está estabelecido em Portugal continental. No entanto, o nosso estudo mostra que, no passado, existiram condições urbanas e ecológicas que permitiram a transmissão da doença em Lisboa. Hoje, embora o risco para a febre amarela continue a ser muito baixo, o contexto global mudou: há maior mobilidade internacional e alterações climáticas que favorecem a expansão de mosquitos. E , em Portugal, já está estabelecido o mosquito Aedes albopictus, que também é um vetor de outras doenças importantes, como dengue, zika e chikungunya. E isto mostra que há um risco real associado ao estabelecimento de doenças transmitidas por mosquitos em Portugal e que este risco deve ser acompanhado com atenção.Este estudo é um alerta às autoridades de saúde portuguesas e à própria comunidade internacional?Mais do que um alerta específico para a febre amarela, o estudo é um aviso mais amplo sobre as doenças transmitidas por mosquitos e sobre a forma como fatores ambientais, sociais e urbanos podem criar condições favoráveis à propagação de epidemias transmitidas por mosquitos. Num contexto em que o Aedes albopictus já está presente em Portugal e noutros países europeus, o estudo reforça a importância da vigilância contínua, da preparação dos serviços de saúde e da capacidade de resposta precoce para um conjunto mais vasto de doenças arboviroses, como a dengue, o zika e a chikungunya. Por outro lado, este trabalho também vem sublinhar o papel fundamental das consultas do viajante e da vigilância de casos importados, quer para proteger os próprios viajantes, quer como um componente essencial de saúde pública. A deteção rápida de infeções importadas permite reduzir riscos e melhorar respostas em saúde publica.Neste sentido e como epidemiologista o que considera que deve e pode ser feito pelas autoridades portuguesas para melhor se prevenir a febre amarela? Este estudo vem alertar para a necessidade de se apostar na prevenção, na coordenação e no investimento sustentado em saúde pública, em Portugal e na Europa, para melhorar a resposta e o controlo de surtos transmitidos por mosquitos num cenário de alterações climáticas e expansão geográfica dos vetores. E considero que esta prevenção tem de passar sobretudo pela vigilância, pela antecipação e pela coordenação entre diferentes áreas da saúde pública. Isto inclui vigilância entomológica para monitorizar a presença e expansão de mosquitos vetores, vigilância clínica para deteção precoce de casos importados e capacidade laboratorial para diagnóstico rápido. É verdade que Portugal já tem excelentes equipas a trabalhar nestas áreas, como a Rede de Vigilância de Vetores e o Laboratório de Referência de Vírus Transmitidos por Vetores, ambos do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, que têm trabalhado em conjunto com o IHTM da Universidade Nova através de um projeto internacional, o projeto DeZi, justamente para a identificação precoce de ameaças por arbovírus e medidas de prevenção. Mas é importante reforçar-se este trabalho, como é igualmente importante investir mais na comunicação com a população e na educação em saúde, incluindo nas escolas, bem como na redução de locais de reprodução dos mosquitos, como recipientes com água parada em ambientes urbanos. Pequenas ações individuais e comunitárias podem ter um impacto enorme na redução do risco.A febre amarela é uma das doenças transmitidas por mosquitos, mas considera que esta, ao contrário de outras, tem sido pouco estudada? É uma doença que mereceria mais investimento na prevenção e tratamento?A febre amarela dispõe de uma vacina altamente eficaz, o que permitiu reduzir significativamente a doença em muitas regiões. No entanto, outros vírus transmitidos por mosquitos, como dengue, zika e chikungunya, todos transmitidos pelo Aedes albopictus, continuam a representar um risco crescente, incluindo na Europa onde houve transmissão local no verão de 2025 em Itália e em França. O investimento deve focar-se sobretudo na prevenção, vigilância e controlo dos vetores, bem como no aumento da capacidade de resposta dos sistemas de vigilância clínica e cuidados de saúde, e no acesso à vacinação para pessoas que viagem para zonas endémicas.A vacina continua a ser o meio mais eficaz para a prevenção. Em Portugal, é administrada apenas aos viajantes para os países onde a doença não está erradicada, perante este estudo faz sentido mudar a vacinação para uma prática de rotina?Em Portugal, a estratégia atual é adequada e baseada na evidência científica disponível. À luz dos dados existentes não há justificação para introduzir a vacinação de rotina na população geral, uma vez que não há transmissão local nem presença estabelecida do principal vetor, o Aedes aegypti. A prioridade deve a ser a vigilância reforçada de vetores, a vacinação direcionada aos viajantes, e o reforço laboratorial para deteção de casos causados por arboviroses.Após este estudo, que mensagem deixaria às autoridades de Saúde e às populações?A principal mensagem é que as doenças transmitidas por mosquitos não pertencem apenas ao passado nem a países distantes. A história mostra-nos que, quando existem condições ambientais e sociais favoráveis, as epidemias podem reaparecer. Além disso, os vírus evoluem e os mosquitos vetores estão a expandir-se geograficamente, em grande parte devido às alterações climáticas e às dinâmicas de urbanização e mobilidade. Importa também sublinhar que alguns vírus se adaptam a novos contextos - no caso do chikungunya, por exemplo, existem linhagens virais que se transmitem de forma particularmente eficiente através do Aedes albopictus. Isto significa que a expansão geográfica deste mosquito na Europa, incluindo em Portugal, aumenta o risco potencial de transmissão da doença, mesmo em territórios onde ela não esteve historicamente presente. No Brasil, por exemplo, que tem décadas de experiência em controlo de surtos epidémicos causados por dengue, febre amarela, zika e chikungunya, os dados de testes rápidos utilizados em contexto clínico são hoje parte integral do sistema nacional de vigilância, muitas vezes através de parcerias com laboratórios de referência. Penso que uma abordagem semelhante poderia reforçar a monitorização e a resposta em saúde coletiva a arbovírus em Portugal também. Em relação à população, a mensagem é de responsabilidade partilhada. A participação de cidadãos jovens e adultos, através de iniciativas como o Mosquito Alert, bem como a eliminação de águas paradas em ambientes domésticos e urbanos e o investimento contínuo na literacia em saúde (incluindo nas escolas) são ferramentas simples, mas muito eficazes. Estar preparado significa aprender com a história e com a experiência de países onde estas doenças continuam ativas, aplicando esse conhecimento ao contexto local para antecipar e prevenir riscos..Alterações climáticas estão a globalizar doenças antes tropicais