Fátima Lopes: "Não tenho medo de competir com ninguém"

Há 25 anos apresentou a sua primeira coleção no Convento do Beato, em Lisboa. Amanhã, volta ao mesmo local para o desfile comemorativo de uma carreira "sem limites", como ficou provado no biquíni de diamantes e ouro que vestiu, em 2000, em Paris, para o mostrar ao mundo.

Fátima Lopes, que promete surpresas para este desfile, garante que nunca vai parar de criar, porque não imagina a sua vida sem a moda. Em tom de balanço de carreira , a estilista, que saiu da Madeira porque a ilha era demasiado pequena para o seu "sonho", confessa que a agitada vida profissional não lhe roubou nada à vida pessoal.

O que falta fazer a Fátima Lopes estilista? E a Fátima Lopes mulher?

Ao longo destes 25 anos pautei a minha vida por fazer exatamente o que me dá prazer, tanto a nível pessoal como profissional. Sou uma pessoa positiva, muito otimista, lutadora, neste momento o meu objetivo é continuar a fazer o que faço diariamente e sobretudo fazer por ser o mais possível feliz.

Há algum local específico onde gostaria de fazer um desfile?

Já fiz desfiles nos sítios mais incríveis que se possa imaginar. Em Paris, nestes 19 anos de Fashion Week, 38 desfiles, consegui fazer o primeiro desfile no cimo da Torre Eiffel e depois repeti passados alguns anos, já fiz no Louvre três vezes, no Musée de L'Armée onde está sepultado Napoleão Bonaparte, galerias de arte, hotéis, o último foi no salão nobre da Câmara de Paris do 4eme. Não tenho nenhum sítio que seja um sonho para desfilar, todos os anos, duas vezes por ano, tento encontrar um espaço diferente e que seja espetacular, a sorte é que Paris é muito grande e tem muito por onde escolher. Em Portugal, o Convento do Beato é um local de eleição por ter feito lá o primeiro desfile de sempre. Agora que estou a festejar os 25 anos da marca fiz questão de fazer este desfile lá para homenagear o meu início.

Quantos mais anos conta estar na alta-roda da moda?

Enquanto eu for viva e tiver saúde, trabalharei para estar sempre presente na linha da frente. A moda não é o meu trabalho, é a minha profissão e a minha paixão, não imagino a minha vida sem estar a criar diariamente.

Como se autodefine?

Sou uma profissional exigente em primeiro lugar comigo própria, sou workaholic com prazer. Gosto de liderar equipas de profissionais empenhados e capazes de corresponder às expectativas. Em média trabalho dez horas por dia, sete dias por semana, depois há uns mais calmos mas outros muito mais complicados.

De que forma pretende surpreender no desfile de amanhã?

Será surpresa!

Nestes 25 anos qual o episódio que mais a marcou?

Tenho muitos momentos espetaculares, o desfile do biquíni de diamantes será sempre uma referência na minha vida, as primeiras vezes que abri as Fashion Weeks de Paris, as viagens pelo mundo, a condecoração do Presidente da República, são muitos ...

E qual a experiência que gostaria de não ter tido?

Olhando para trás foram vários os momentos que gostaria de não ter tido, mas todos fizeram de mim a pessoa que sou hoje, forte e sem medo de ir à luta, com uma força que eu não sabia que tinha.

A nível pessoal o que é que o lado profissional lhe roubou?

O lado profissional não me roubou nada, tirou-me tempo mas esse tempo foi sempre aproveitado e vivido muito intensamente, foi a minha opção de vida, não seria feliz de outra forma.

Quando é que percebeu que a moda era mesmo o que pretendia fazer?

A moda nasceu comigo. Sempre fui uma criança muito feminina, só gostava de desenhar e fazer roupas para as bonecas. Como nasci e cresci na Madeira achava que a moda era impossível e por isso estudei e trabalhei em turismo durante quatro anos. Aos 23 decidi que era altura de seguir o meu sonho, deixei tudo para trás e parti à aventura para Lisboa, sem a mínima noção do que me esperava.

Se não fosse estilista qual a profissão que gostaria de ter tido?

Fui agente de viagens/guia turística durante quatro anos e fui muito feliz. Comecei a viajar pelo mundo aos 19 anos, acho que tive a melhor escola de vida que poderia ter tido. Mas o sonho é mesmo a moda, neste momento não me consigo imaginar a fazer outra coisa.

Alguma vez pensou que Portugal era um país demasiado pequeno para si?

Vim para Lisboa porque a Madeira era pequena, quando cá cheguei logo me apercebi de que Portugal era pequeno. Acho que sou uma cidadã do mundo, gosto de viajar, falo algumas línguas, o que me ajuda imenso. Mas para viver escolhi Portugal e disso não quero arrepender-me.

Como sente que é vista no estrangeiro?

A moda não tem nacionalidade, sou vista como uma criadora com um estilo muito próprio. Estou em Paris há 19 anos, já fiz 38 desfiles na principal capital da moda internacional, comecei sozinha em Paris quando ninguém acreditava que era possível um português conseguir entrar no calendário oficial da Fédération Couture. Evidentemente tenho a consciência de que não é possível competir com as multinacionais em termos financeiros, elas têm a capacidade de ter lojas no mundo inteiro e campanhas de publicidade diárias em todo o lado. Mas em termos de capacidade criativa e qualidade de produtos, não tenho medo de competir com ninguém.

Sente que o reconhecimento que tem em Portugal corresponde ao que tem dado ao país?

Acho que não posso queixar-me.

Considera que há espaço em Portugal para novos projetos?

Acredito que Portugal está a crescer e que é possível voltarmos a creditar no nosso país, apesar de ser muito difícil ser empresário em Portugal.

Como é que as pessoas na rua reagem quando por elas passa? Falam consigo? Pedem-lhe alguns conselhos de como vestir?

As pessoas são muito simpáticas e eu gosto de falar com toda a gente, se me abordarem eu falo imediatamente.

Qual o comentário mais caricato que já ouviu numa apreciação às suas roupas?

Houve muitos, talvez o mais importante tenha sido o da famosa Jane Birkin [atriz e cantora inglesa] em Paris, que disse publicamente que o vestido vermelho da Fátima Lopes lhe tinha restituído a vontade de dançar, que não sentia há 20 anos. A mesma Jane Birkin, que a Hermès homenageou com a mala Birkin, escolheu-me a mim para a vestir no seu regresso aos palcos ao fim de 20 anos.

Numa escala de 0 a 10, quantos pontos daria à forma como o português, no geral, se veste?

A globalização trouxe uniformização especialmente dentro da Europa, por isso acho que o português se veste da mesma forma que a maior parte dos outros povos europeus.

Perfil:
› Nasceu na Madeira há 52 anos.

› Foi agente de viagens e guia turística durante quatro anos.

› Fez o primeiro desfile, enquanto estilista, em 1992.

› Estilista pioneira em diversas áreas, criou uma marca com o seu nome, uma agência, a Face Models, desfilou na Torre Eiffel, lançou coleções de calçado e de perfume. A sua moda provocadora chegou a diversos países e em França é presença assídua.

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