As queixas sobre o funcionamento da urgência central não são de agora e o Conselho de Administração (CA) sabe disso. O anterior diretor de serviço levou sempre estas questões ao CA com propostas de resolução, que foram ignoradas. Em janeiro, houve uma reunião com os chefes de equipa e o CA, onde foram apresentadas todas as falhas, as condições de trabalho no dia a dia, mas também soluções para as resolver. Nada foi aceite e nada mudou”. A descrição é feita ao DN por fontes do Hospital Santa Maria, que dizem conhecer bem o funcionamento da urgência geral. “São vários dias a pensar-se que pior poderá acontecer, mas no dia seguinte ou mais tarde há um pior”, sublinham. A questão é que “não se percebe porque nunca foram aceites soluções que poderiam resolver tais problemas”, destacam. Ao DN, as mesmas fontes retratam um cenário de atendimentos diários que chega aos 350 doentes ou mais para “equipas médicas com seis a oito elementos, dois a três especialistas, e o resto internos, alguns de formação geral - ou seja, sem qualquer diferenciação ou autonomia. E isto é assim nos vários turnos”. Mas as fontes falam ainda da falta de “recursos humanos noutras classes profissionais, como enfermagem, o que agrava a falta de acompanhamento dos doentes”. Por outro lado, queixam-se também da necessidade de “manter doentes internados nas urgências durante vários dias pela falta de camas nas enfermarias - há doentes que permanecem três dias ou mais sem condições até serem transferidos do Serviço de Observação”. Tudo isto junto, dia após dia, “acaba por colocar em risco a segurança dos cuidados prestados aos doentes. É isto que está em causa, os doentes e o seu bem-estar. E se não forem tomadas medidas para resolver tais condições não adianta substituir o diretor de serviço. Vai tudo continuar na mesma”, argumentam.Recorde-se que na semana passado foi noticiada a demissão de seis médicos das suas funções de chefia de equipa na urgência geral, após a administração ter substituído o então diretor de serviço, João Gouveia, conhecido pelo papel que desempenhou a nível nacional durante a pandemia na rede da medicina intensiva. João Gouveia, e como confirmou o próprio hospital, estava no cargo desde 2022, em funções internas, e desde outubro de 2023, por nomeação. Faltavam seis meses para terminar o mandato e a sua substituição é considerada por alguns como "surpreendente". Numa nota interna, enviada na semana passada a todo o hospital , o Conselho de Administração anunciava esta substituição como “uma decisão normal de gestão” e com o objetivo de “imprimir uma nova dinâmica no âmbito do projeto estratégico de renovação do Serviço de Urgência Central”.Para as fontes hospitalares, tal acontece porque “João Gouveia nunca foi um yes man, apresentava os problemas, mas também as soluções. Só que esta administração ignorou sempre as situações, o que demonstra uma total falta de respeito pelos profissionais e doentes”. As mesmas fontes confirmam ao DN que as condições de trabalho que há muito deixam as equipas “exaustas” e “desmotivadas” estão na base da demissão dos seis chefes de equipa, que integram um grupo de oito das equipas fixas da urgência, que asseguram os turnos das 8h00 às 20h00”. Na semana passada, a administração desvalorizava a situação, explicando que eram apenas seis de 31 chefes de equipa, e que todos eram próximos de João Gouveia, mas as mesmas fontes contrariam tal, esclarecendo que foram sete, contando com João Gouveia que assegurava a chefia de duas equipas, e que houve mais uma demissão no entretanto, bem como três rescisões de contrato com o hospital. “O serviço tem oito equipas fixas e 16 rotativas, que fazem noites, fins de semana e feriados. Dos 31 chefes de equipa, demitiram-se oito no total e rescindiram três. No total, 11 pessoas deixaram as suas funções. A questão é o que isto representa para a prestação de cuidados aos doentes. Há ainda o lado da formação, porque internos da especialidade ficaram sem tutores. E isto também coloca o serviço em causa”, disseram-nos. O DN questionou sobre o número de equipas fixas e rotativas e se este não era suficiente para manter o serviço a funcionar, mas as fontes explicaram que “uma das propostas feitas era a fusão de equipas, passando a haver 12 equipas fixas e 12 rotativas, para se aumentar o número de profissionais em cada uma, mas não foi aceite”.O Conselho de Administração “não confirma mais pedidos de demissões de chefes de equipa da Urgência Central, relacionados com a substituição da direção do serviço”. E contraria as falhas apresentadas pelas fontes do DN, sobretudo no que respeita à falta de recursos humanos, dizendo que “nos últimos cinco anos houve uma evolução de custos e de investimentos no SUC em comparação com a atividade assistencial, que diminui”. Na resposta ao DN, o CA refere uma evolução que representa “um aumento de cerca de 50% de gastos nos últimos cinco anos em recursos humanos, nomeadamente em contratações para a equipa fixa, prestadores de serviço, horas extraordinárias e prevenções. Só em 2025, os custos nesta área ultrapassaram os 13 milhões de euros, em contraciclo com os episódios totais de urgência, que caíram 18% no último ano”. As fontes consultadas pelo DN garantem que se nada for feito o que “se antevê é a saída de mais médicos da urgência e do hospital”..Seis chefes da equipa da Urgência Central do Hospital de Santa Maria apresentaram demissão