Estudo prova que zika passa a placenta e afeta o cérebro dos fetos

Investigação feita em ratos confirma que vírus provoca microcefalias em bebés. Só no Brasil há 1326 casos confirmados

Já não restam dúvidas de que o vírus zika é capaz de atravessar a placenta e infetar os fetos, provocando danos cerebrais, como a microcefalia. Dois estudos feitos com ratos e publicados nas revistas científicas Nature e Cell são considerados as primeiras provas experimentais de que o vírus é responsável pelas malformações congénitas detetadas em bebés no Brasil e em outros países afetados pelo zika. Isto depois de o Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças Transmissíveis dos Estados Unidos ter anunciado, há um mês, que existia efetivamente uma relação entre o vírus e a doença.

Conduzido por cientistas da Universidade de São Paulo, no Brasil, o estudo publicado na Nature utilizou uma amostra do vírus recolhida no ano passado de um doente em Paraíba, que foi usada para infetar ratas grávidas. Após o nascimento, os investigadores perceberam que as crias apresentavam "evidências claras de atraso no crescimento" ou "restrições no crescimento intrauterino", bem como "malformações corticais", sinais da microcefalia identificada em humanos.

Contudo, as crias de uma outra variedade de ratas infetadas com o mesmo vírus não apresentaram qualquer problema, o que, segundo os cientistas, pode estar relacionado com uma resposta imunitária mais robusta dessa variedade. E que também pode ajudar a explicar o facto de nem todas as mulheres infetadas com o zika terem filhos com microcefalia, uma malformação em que os bebés nascem com cabeças demasiado pequenas e, por vezes, com danos cerebrais.

Já no estudo publicado na Cell, e citado pelo Los Angeles Times, os investigadores infetaram ratas grávidas de uma semana com o vírus que circulou na Polinésia Francesa em 2013, tendo examinado as placentas e os fetos entre seis e nove dias depois. E concluíram que o zika passou para o feto, infetando o cérebro e provocando danos nos neurónios. Mas, neste caso, não foi identificada microcefalia.

Um terceiro estudo feito por investigadores da Academia Chinesa de Ciências e publicado na mesma revista mostrou que a concentração de zika na placenta era mil vezes superior à detetada no sangue da mãe, o que revela que, o vírus não só atravessa a placenta como se multiplica. Há ainda um outro dado interessante: os cientistas concluíram que o vírus é capaz de infetar uma espécie de "minicérebros" desenvolvidos em laboratório a partir de células humanas. Em quatro dias, os ratos que foram infetados com o zika registaram uma quebra significativa no número de neurónios, quando comparados com os restantes.

Em declarações à revista científica Cell, Michael S. Diamond, que estuda doenças infecciosas na Universidade de Washington, disse que "o zika é suficiente" para causar microcefalia, o que vai ao encontro das suspeitas que já existiam desde a explosão de casos destas malformações congénitas no Brasil. Resta agora saber se as crias que nasceram saudáveis podem vir a sofrer problemas ao longo do desenvolvimento. Michael Diamond reconhece que o mundo está ansioso para ter vacinas e tratamento, mas destaca que já foram feitos progressos consideráveis: a investigação está a desenvolver-se a um ritmo notável, o que nem sempre acontece.

Há cerca de um mês, o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças Transmissíveis dos Estados Unidos anunciou ter chegado à conclusão - após uma revisão rigorosa das evidências já apresentadas - de que efetivamente existe uma relação entre as infeções provocadas pelo zika e o aparecimento de casos de microcefalia em bebés. Meses antes, a Organização Mundial de Saúde já tinha admitido existirem fortes evidências dessa ligação. Mas agora existem provas experimentais.

Só no Brasil, o país mais afetado pelo vírus (até 1,3 milhões de infetados), existiam até ontem 1326 casos confirmados de microcefalia e alterações do sistema nervoso central em bebés e 3433 em investigação. Em Portugal, registaram-se 15 casos de infeção pelo zika desde junho de 2015, mas não há registos de microcefalias causadas pelo vírus.

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