De acordo com a investigadora, “os trabalhadores africanos só surgem na construção em Portugal depois das independências, mas essa tradição foi construída antes”.
De acordo com a investigadora, “os trabalhadores africanos só surgem na construção em Portugal depois das independências, mas essa tradição foi construída antes”.Foto: Reinaldo Rodrigues

Estudo mostra como o colonialismo ainda molda o trabalho da construção em Portugal

Conferência “Colonial and Post-Colonial Landscapes: Architecture, Cities, Labour” decorre esta semana em Lisboa e discute o tema.
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“A maioria dos operários que constrói hoje as infraestruturas dos países ocidentais é oriunda de antigos impérios coloniais e produto de uma estrutura de produção montada no século XIX”. Em Portugal, o cenário não é diferente. Um estudo do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE) indica que o “operário comum no setor da construção é africano ou afrodescendente, não especializado e precário”.

É a partir desta realidade que decorre, esta semana, em Lisboa, a conferência internacional “Colonial and Post-Colonial Landscapes: Architecture, Cities, Labour” (Paisagens Coloniais e Pós-Coloniais: Arquitetura, Cidades e Trabalho, em tradução livre). A iniciativa está associada a um projeto de investigação liderado por Ana Vaz Milheiro, docente e investigadora do ISCTE, que recebeu uma bolsa de 2,5 milhões de euros do Conselho Europeu de Investigação para estudar o tema.

Segundo a investigadora, citada em comunicado, são hoje os filhos e netos de quem construiu o império europeu que trabalham no setor da construção. “A máquina de produção montada pelos impérios coloniais no século XIX continua a alimentar as necessidades de mão-de-obra da economia atual: tal como os seus antepassados construíram os impérios europeus, os seus filhos e netos constroem hoje os prédios, as autoestradas e as fábricas nos países para onde emigraram, mantêm-nos a funcionar, limpam-nos, tratam da sua manutenção; em suma, são o operariado atual”, afirma Ana Vaz Milheiro. De acordo com a investigadora, “os trabalhadores africanos só surgem na construção em Portugal depois das independências, mas essa tradição foi construída antes”.

Outro dos oradores da conferência, que decorre na Fundação Calouste Gulbenkian, é o historiador Alexander Keese, da Universidade de Genebra. Especialista em história do trabalho forçado colonial, Alexander Keese apresentará a sua investigação sobre os espaços e os movimentos desse tipo de trabalho. “É muito curiosa a falta de debate e de interesse mediático que se tem verificado em Portugal a propósito dos 50 anos da descolonização dos PALOP”, afirma. “Deveriam existir mais arquivos e mais publicações sobre este tema em Portugal”, critica.

A arquiteta e investigadora Cecilia L. Chu, da Universidade de Hong Kong, vai também abordar a relação entre este passado histórico e a atual crise da habitação. “Sem pensar e analisar o passado, não é possível encontrar alternativas para o futuro. Só a compreensão da dinâmica histórica torna viável questionar e rejeitar os modelos económicos e sociais que levaram à normalização da especulação imobiliária e à dependência do mercado”, refere. Ao mesmo tempo, sublinha que “a habitação social continua a ser vista com alguma desconfiança, apesar da crise habitacional”. O programa completo da conferência pode ser conferido aqui. As atividades seguem até a noite de sexta-feira, 13 de fevereiro.

amanda.lima@dn.pt

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