Estudantes temem batota e disparar das médias de acesso ao superior

O ensino à distância foi imposto para combater a pandemia, mas também abriu portas a fraudes que fizeram disparar as notas e médias de acesso ao ensino superior. Alunos receiam que isso os afaste dos cursos pretendidos. E ainda não conhecem formato dos exames nacionais deste ano.

Alexandra Sá Pinto não entrou na universidade na sua primeira opção, no ano letivo anterior. A jovem, de 18 anos, viu o curso pretendido (Fisioterapia, Escola Superior de Saúde do Porto) atingir uma média de mais de 17 valores, na primeira fase, quando em 2018-2019 se tinha fixado nos 15,6. "Quando saíram os resultados dos exames nacionais, percebi que as médias podiam subir e fiquei preocupada", relembra ao DN. A jovem ficou "um pouco triste" por não ter conseguido atingir o seu objetivo, acabando por entrar na sua segunda opção (Farmácia). O mesmo se passou com "a maioria dos colegas da turma". "Muitos dos meus amigos também não conseguiram entrar no curso que queriam. As médias subiram para todos", conta.

A experiência de Alexandra Sá Pinto e de muitos jovens que passaram pela mesma situação está na base da ansiedade dos alunos que agora frequentam o 12.º ano. João, aluno de secundário do curso de Socioeconómicas, não esconde o "medo de não entrar em Economia". O estudante recorreu a um explicador neste período de ensino à distância (e@d), depois de, no ano passado, ter percebido que a maioria dos colegas "tinham ajuda externa para fazer as avaliações online". "A avaliação à distância dá margem para copiar e eu percebi que todos o faziam, menos um ou outro colega. As notas acabaram por subir no último período do ano passado e eu mantive os níveis que tinha porque não queria fazer batota. Neste ano, não posso fazer isso. Não quero ficar à porta depois de tantos anos de esforço e de estudo", justifica.

O estudante relembra, ainda, que a nota de acesso ao curso de Economia da Universidade do Porto foi de 17,8 valores, pelo que tem de "subir obrigatoriamente a média". "Tinha média de 17 no final do 11.º ano e já não chega. Neste ano pode acontecer o mesmo e estou ansioso", confessa.

Rui Martins, presidente da direção da Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação (CNIPE), acredita não fazer "sentido que um aluno não possa entrar no curso que pretende por, por exemplo, uma décima". "Para além da tipologia dos exames com perguntas de opção, as notas internas também contribuíram muito para o aumento das médias. O ensino à distância veio causar mais desigualdades e os professores não têm todos os instrumentos para avaliar o aluno, que acaba por ser favorecido, mas são vicissitudes do e@d", diz.

"A avaliação à distância dá margem para copiar e eu percebi que todos o faziam, menos um ou outro colega"

O responsável pela CNIPE recorda ter recebido, no final do ano letivo passado, "muitas as queixas dos pais pelas injustiças no acesso ao superior". "Neste ano, há novamente essa preocupação. Os alunos estão mais receosos. Apesar de já saberem o calendário de exames, ainda não sabem se a tipologia (com perguntas de resposta não obrigatória) se vai manter ou não. A informação já devia ter sido dada, até para poderem gerir melhor a ansiedade", salienta. Rui Martins defende o fim dos numerus clausus das universidades. "Esperemos que seja uma altura para repensar esta questão. Há outros métodos, mais justos, que podem ser implementados. Podíamos encontrar um ponto de equilíbrio. A reorganização podia passar por uma maior autonomia das universidades", conclui.

Reformular sistema de acesso

A opinião é partilhada por Vasco Ribeiro, professor de Matemática do Ensino Secundário. O docente afirma ser necessária uma "reformulação do sistema de acesso, não só referente à pandemia em que vivemos, mas também pelos ajustes que têm sido introduzidos no ensino secundário. "Na minha opinião, é fundamental que os alunos apenas realizem exame nacional às disciplinas necessárias para ingressar no(s) curso(s) a que se candidatam, tendo estas um peso significativo no cálculo da média final de ingresso ao ensino superior, de modo a mitigar as discrepâncias existentes nas médias de conclusão do ensino secundário", sublinha.

O também coordenador pedagógico do Colégio Júlio Dinis, no Porto, defende a implementação de um sistema que garanta "transparência e igualdade de oportunidades de ingresso". "Ainda se verifica que nas famílias que têm a possibilidade de optar por um ensino com maior qualidade, os seus filhos atingem, mais facilmente, o sucesso. Não seria de descurar, por isso, a atribuição de uma percentagem de vagas, aos cursos com maior número de candidatos, a alunos das regiões mais desfavorecidas ao nível económico e/ou menos oportunidades de terem um ensino de qualidade", avança.

Fraude nas avaliações

Partilhar o ecrã com explicadores (ou estar com eles ao lado), criar grupos de WhatsApp entre as turmas para saber as respostas, fotografar e copiar questionários. Estas são algumas das fraudes usadas - e admitidas por vários alunos ao DN - para obter melhores resultados nos momentos de avaliação em e@d.

Embora admita que a ansiedade dos alunos perante as médias de acesso ao superior esteja na base da tentativa de fraude nas avaliações à distância, Vasco Ribeiro não considera que esta deva ser a maior preocupação "neste momento". "Os alunos, nomeadamente do ensino secundário, com a pressão de melhorar as suas médias e/ou concluir disciplinas, procuraram soluções entre pares para obterem os melhores resultados possíveis nos instrumentos de avaliação aplicados. Tendo em conta as potencialidades digitais dos nossos alunos, conseguiram arranjar ferramentas que fomentam a realização simultânea da maior parte das tarefas propostas pelos docentes. Não considero que a nossa preocupação se deva centrar na fraude das avaliações, mas em repensar a avaliação, criando diversidade de instrumentos de avaliação formativa e sumativa que nos permita regular o processo de aprendizagem dos alunos, que também seja aplicável no ensino presencial. Não podemos cingir a avaliação à distância à realização de meros questionários ou tarefas escritas, mas aliá-los, por exemplo, à interação entre pares com a realização de trabalhos de projeto ou avaliação oral dos conteúdos nas sessões de videoconferência", concluiu.

À espera das regras

Vítor Pinto, professor de Biologia, sente a ansiedade dos seus alunos diariamente, fruto também da incerteza sobre o formato dos exames nacionais deste ano. "A preocupação com o acesso ao ensino superior é uma constante, notada, principalmente, nos alunos que almejam cursos com média de acesso mais elevadas. Neste momento denoto grande ansiedade por saberem os moldes exatos em que serão realizados os exames", explica.

Vasco Ribeiro também tem assistido a um acréscimo de inquietação por parte dos pais, nesta fase de confinamento, tanto pelos resultados académicos dos filhos como na impossibilidade de os acompanhar no estudo. Para o docente, "a instabilidade gerada pela pandemia nas escolas e na economia potencia uma preocupação acrescida dos pais no futuro escolar dos seus educandos" e a escola "deve, por isso, ser transparente no processo de avaliação e dar uma resposta adequada aos alunos que estão a vivenciar este momento com maior apreensão".

Já Daniel Ribeiro, professor de Física e Química, sente os seus alunos menos ansiosos. "A sensação que tenho é que a pandemia anestesiou um pouco as preocupações relacionadas com o acesso ao superior. Embora continue a verificar preocupação dos alunos com as médias de acesso, as distrações associadas direta ou indiretamente à pandemia originaram um estranho estado de espírito. Na verdade, o atrativo social que o ensino universitário acarretava desapareceu um pouco, algo que também pode ter contribuído para este estado anestesiado", explica. Os pais, diz, mantêm os receios de anos anteriores, mas "os dramas familiares (particularmente económicos) sobrepõem-se esmagadoramente à preocupação com os resultados académicos".

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