É certo que não são os tradicionais 75 centilitros, mas sim 27 litros. Contudo, ainda assim, o valor desta garrafa de Liber Pater é uma exorbitância difícil de compreender: 1,5 milhões de euros. Não é gralha, é isso mesmo, um valor que impressiona qualquer um. E há um português com a gestão exclusiva da venda deste exemplar único no nosso país e a querer trazê-lo para Portugal. “Cada cêntimo é bem investido neste produto”, garante Claúdio Martins, da Martins Wine Advisor, empresa de consultoria de vinhos especializada em fornecer soluções premium e de luxo para o mercado internacional e que está sediada em São Romão, uma vila em Seia..“Esta garrafa é única”, realça. “Uma relíquia” que, segundo conta, foi apadrinhada pelo princípe Alberto do Mónaco, que apoia a Association Franc de Pied, da qual faz parte um produtor português, Luis Pato. Trata-se de um vinho Liber Pater, uma marca criada por Loïc Pasquet, em 2006, em Bordéus, que se diferencia precisamente pela utilização de variedades nativas da região em pé-franco, um plantio de videira diretamente no solo sobre as suas próprias raízes, sem o uso de um porta-enxerto, prática muito comum antes da invasão da filoxera, uma praga que destruiu videiras em todo o mundo no século XIX..“Ele chegou a uma região conservadora e quis mudar o paradigma”, conta Cláudio Martins. Condenado por fraude e acusado de não seguir as regras e práticas agrícolas de Bordéus, Loïc Pasquet é o produtor dos vinhos mais caros do mundo, autoproclmados de “vinhos dos deuses”, figura controversa com direito a um documentário na Netflix intitulado precisamente The Most Expensive Wine in the World (O vinho mais caro do mundo, em tradução literal). “Ele queria o melhor dos vinhos e poder usar o que achasse por bem. Queria fazer vinhos icónicos, que trouxessem os aromas e sabores da época de Napoleão”, conta Cláudio Martins, que, com dois potenciais compradores no mercado nacional interessados, mas não portugueses, tem esperança de conseguir vender esta garrafa de 27 litros em Portugal..Há clientes que bebem estas relíquias, conta, mas a maioria são colecionadores ou investidores. E, como acontece com um carro de coleção, um relógio de luxo ou uma obra de arte, o processo exige ponderação e, eventualmente, ir ver o exemplar e conversar com o produtor. Afinal, sempre são 1,5 milhões de euros..Cláudio Martins tem a gestão exclusiva da venda desta garrafa de 27 litros..A acontecer o negócio, é depois necessário trazer a garrafa de Bordéus para Portugal numa viatura adequada, com temperatura controlada e com mecanismos para evitar que a trepidação afete o vinho..Às vezes o processo é mais rápido, como aconteceu em 2021, em plena pandemia, com a venda de uma garrafa de 18 litros de Liber Pater de 2011 e outra de 30 litros de Boerl & Kroff de 1998, cada uma por 200 mil libras, a um cliente inglês..Aliás, Cláudio Martins também tem agora a gestão da venda para Portugal de uma garrafa de 30 litros de um champanhe Boerl & Kroff, por 250 mil euros: o Melchizedek 2006..Outro tesouro: uma garrafa de 30 litros de um champanhe Boerl & Kroff, à venda por 250 mil euros..Um patamar de preços a que os vinhos portugueses ainda não chegam. O mais caro foi um Porto Niepoort de 1863 numa garrafa de 1,5 litros desenhada e produzida pela cristalaria francesa Lalique, que foi vendido por 111 mil euros em Hong Kong, em 2018. “Falta-nos, apesar da qualidade, a consistência e a comunicação”, analisa o consultor, também ele produtor nas regiões do Dão e Pico, constatando que não há muitos vinhos nacionais acima dos quatro digitos. Um desses casos é o Júpiter, saído do projeto Vinhos do Outro Mundo, que pretende lançar tantos vinhos quantos os planetas. Saiu em 2021, em parceria com a Herdade do Rocim, a mil euros por garrafa e atualmente já ultrapassa os 2000. A coleção já integra Urano (Espanha) e Saturno (Alemanha) e, em 2025, terá mais uma relíquia.