Michal Nachmany, fundadora e CEO da Climate Policy Radar.
Michal Nachmany, fundadora e CEO da Climate Policy Radar.Foto: Leonardo Negrão.

Especialista alerta para riscos do uso da IA nas políticas climáticas: "Não temos tempo para errar"

Em Lisboa para participar do TEDx, fundadora da Climate Policy Radar, Michal Nachmany defendeu ferramentas mais transparentes e específicas para decisões ambientais.
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O mundo está num momento decisivo da crise climática e a inteligência artificial pode tanto ajudar quanto atrapalhar este processo. É isso que explica a especialista Michal Nachmany, fundadora e CEO da Climate Policy Radar, que concedeu entrevista ao DN, no âmbito da sua participação no TEDxLisboa, nesta terça-feira, 19 de maio, na qual defendeu que governos, tribunais, investigadores e jornalistas precisam de ferramentas mais precisas para tomar decisões ambientais. “Não temos tempo para errar”, frisou.

Nachmany tornou-se uma das principais referências internacionais na intersecção entre clima, legislação e tecnologia. Depois de integrar um projeto da London School of Economics (LSE) voltado para a compilação de leis climáticas ao redor do mundo, decidiu criar a Climate Policy Radar, uma plataforma que utiliza inteligência artificial para organizar e analisar milhares de documentos relacionados com políticas ambientais e processos judiciais climáticos. Hoje, a ferramenta reúne mais de 35 mil documentos de praticamente todos os países do mundo e conta com cerca de um milhão de utilizadores por ano.

Segundo a investigadora, grande parte das respostas para a crise climática passa diretamente por decisões políticas. “As maiores coisas que podemos fazer para resolver as alterações climáticas são melhores políticas públicas e mover dinheiro dos combustíveis fósseis para as renováveis”, afirma. “Mas, se não conseguimos encontrar informação de qualidade para tomar melhores decisões, às vezes copiamos, inventamos ou simplesmente erramos”, complementa.

A especialista chamou atenção para os limites das ferramentas de inteligência artificial mais populares, como ChatGPT, Gemini e Claude, sobretudo quando utilizadas para decisões complexas ligadas ao clima. “Os sistemas generalistas de IA às vezes omitem informações, inventam dados ou reproduzem vieses”, explica. “Eles funcionam muito melhor quando as fontes originais estão em inglês. Sobre línguas menores ou contextos locais, muitas vezes não compreendem suficientemente bem”.

A questão ambiental da própria IA também esteve no centro da conversa. Nachmany reconheceu o elevado consumo energético associado aos grandes modelos tecnológicos, mas defendeu que é preciso olhar para o impacto final do uso dessas ferramentas. “Você pode ter um modelo extremamente eficiente energeticamente, mas se ele for usado para incentivar mais consumo e mais emissões, qual é o benefício ambiental disso?”.

Para evitar esse problema, a Climate Policy Radar optou por desenvolver modelos próprios, menores e mais específicos. “Não usamos grandes modelos de linguagem. Treinamos pequenos modelos especializados, muito mais rápidos, baratos e com uma fração do impacto ambiental”.

Ao falar sobre Portugal, a investigadora destacou os avanços recentes do país na área das energias renováveis e da adaptação climática, citando o programa de resiliência aprovado este ano para enfrentar fenómenos extremos. “Portugal já tem legislação climática significativa e metas bastante ambiciosas”. “Mas dizer que existe uma lei não é suficiente. O diabo está nos detalhes”.

Segundo ela, um dos maiores desafios da transição energética é justamente desenhar políticas que não deixem comunidades e trabalhadores para trás. “Quando se decide abandonar combustíveis fósseis, é preciso pensar no que acontece com os trabalhadores, com as comunidades e com os mercados que dependem disso”. “A forma como as políticas são desenhadas pode ser a diferença entre resolver um problema ou criar ainda mais problemas”.

Nachmany também insistiu na importância da transparência e do acesso público aos dados climáticos. De acordo com a especialista, a sua plataforma criada é gratuita e aberta justamente para permitir que governos menores, ONGs e comunidades vulneráveis tenham acesso às mesmas informações disponíveis para grandes instituições. “Os mais afetados pelas alterações climáticas costumam ser justamente os que menos conseguem pagar por esse tipo de ferramenta”.

A especialista ainda deixou um alerta sobre responsabilidade coletiva diante do avanço acelerado da inteligência artificial. “Precisamos entender quais são as decisões que não podemos delegar a estes sistemas”. “Ainda existe uma enorme distância entre o que essas tecnologias conseguem fazer e o nível de confiança necessário para decisões tão importantes”, finalizou.

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