"Penso que há vida microbiana em Marte. Estou a estudar isso"

O antigo astronauta francês Jean-Jacques Favre esteve em Lisboa para falar do espaço. Ao DN disse estar convicto de que há vida em Marte. Voou no Columbia em 1996, mas não foi convocado em 2003. O vaivém desintegrou-se na missão

Participou numa missão espacial, há quase 20 anos. Sente falta dos voos para o espaço?

Claro. Estaria pronto para voltar amanhã mesmo.

Porque não esteve em mais nenhum voo orbital?

Não sou piloto, sou um cientista, e fui selecionado pelo CNES, a agência espacial francesa, que abriu vagas para astronautas não pilotos. Candidatei-me e fiquei. Depois fui escolhido para participar numa missão científica no vaivém Columbia, antes do início da construção da estação espacial ISS, em 1996. A nossa missão serviu para testar procedimentos para a ISS, com experiências em ciências da vida e em ciências físicas. Enquanto físico, fui responsável por 43 experiências no Spacelab, um módulo construído pela Europa que era instalado no porão do vaivém.

Quarenta e três experiências em 16 dias missão.

Dezasseis dias e 22 horas, quase 17 dias [ri-se]. Foi a mais longa missão de um vaivém. Mas na parte das ciências da vida fui sujeito das experiências. Eram sobre a fisiologia humana, para compreender melhor o comportamento do organismo em microgravidade, porque todas as funções fisiológicas se alteram lá em cima. Se queremos fazer missões tripuladas a Marte, é necessário perceber como evoluirá o organismo dos astronautas. As nossas experiências permitiram, na altura, compreender melhor o que se passa no organismo em microgravidade. E este conhecimento também tem repercussões na saúde pública. Quando se desenvolvem formas de contrariar os efeitos da microgravidade no organismo dos astronautas, isso também pode servir para as pessoas cá em baixo, para novos tratamentos.

Pode dar um exemplo?

Os astronautas perdem cálcio lá em cima, o que é comparável à osteoporose. Os procedimentos desenvolvidos para estabilizar esse processo nos astronautas já estão a ser usados há cerca de uma década usados em pessoas idosas, nos hospitais. E com a física é idêntico. As leis da física são as mesmas, no solo ou no espaço, mas em órbita um dos parâmetros, a gravidade, não existe, o que permite, lá em cima, medir melhor os outros parâmetros de um dado fenómeno físico. Com base nessa melhor compreensão podemos imaginar formas de de-senvolver processos para produzir novos materiais, para equipamentos eletrónicos, por exemplo. Ou para estudar, como já aconteceu, a estrutura tridimensional em cristais de proteínas que foram produzidos no espaço, porque sem gravidade se formam cristais maiores e, assim, é mais fácil estudá-los.

Teve tempo durante a missão para olhar a Terra cá em baixo, e refletir sobre a sua aventura espacial?

Infelizmente, não foi suficiente. Trabalhávamos 14 horas por dia e eu quase não tive tempo para isso, mas nas oito horas que tínhamos para dormir passava uma boa parte do tempo a olhar lá para fora, e a refletir.

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