A doenças cérebro e cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte em Portugal, representando cerca de 25% do total de óbitos anuais. Mas a sua proporção tem vindo a diminuir de forma sustentada, tendo-se aproximado em 2023, pela primeira vez, da proporção observada para os tumores malignos. O que faz a Direção-Geral da Saúde concluir que “os indicadores de mortalidade cérebro e cardiovascular estão iguais ou inferiores à média europeia.Isto mesmo é revelado num relatório do Programa Nacional para as Doenças Cérebro e Cardiovasculares (PNDCCV) que faz o retrato de “10 Anos das Doenças Cérebro e Cardiovasculares em Portugal”, no período entre 2013–2023 e que é divulgado nesta quarta-feira, 11 de fevereiro. Mas se há melhorias,há também alertas, já que o relatório deixa claro que um dos grandes desafios para a próxima década é a área da insuficiência cardíaca, que apesar de ter registado uma redução de 37% nos internamentos, manteve a mortalidade associada elevada, refletindo o peso da doença crónica e do envelhecimento. Mais de 65% dos internamentos por AVC e insuficiência cardíaca ocorrem em pessoas com mais de 70 anos. Segundo refere o documento, melhorias relevantes foram detetadas logo no acompanhamento de doentes nos Cuidados de Saúde Primários (CSP) entre 2015 e 2024, devido ao aumento no controlo de doentes com pressão arterial e com diabetes com níveis de colesterol LDL controlado. Para este aumento no controlo destes doentes contribuiu também um maior número de consultas na área de cessação tabágica, que permitiu sinalizar melhor os fatores de risco cardiovasculares e o seu controlo.Isto levou também a que, na última década, os internamentos por doenças do aparelho circulatório diminuíssem 19%, refletindo os ganhos em prevenção, a melhoria da resposta assistencial e avanços terapêuticos. No documento é ainda referido ter-se verificado haver neste período uma redução consistente da mortalidade hospitalar por enfarte agudo do miocárdio (EAM) e acidente vascular cerebral (AVC). No entanto, registe-se que, entre 2017 e 2023, foram realizados 198.927 internamentos por doenças cérebro e cardiovasculares, dos quais mais de 80% corresponderam a AVC agudo.No mesmo período observou-se também uma melhoria consistente da letalidade intra-hospitalar no enfarte agudo do miocárdio e no acidente vascular cerebral isquémico, associada a um notório aumento do acesso a terapêuticas avançadas de reperfusão. No entanto, a consolidação das Vias Verdes do AVC e da Via Verde Coronária teve impacto direto na sobrevivência dos doentes. Nos dados agora apresentados são identificados desafios, nomeadamente desigualdades regionais no acesso a cuidados diferenciados, a elevada letalidade dos AVC hemorrágicos, o crescente número de adultos com cardiopatia congénita e a necessidade de reforço da reabilitação cardiovascular e da integração de cuidados..E depois do AVC? “É fazer tudo para voltar a ter uma vida boa, mesmo que não seja igual à anterior”