Elvira Fortunato, ex-ministra da Ciência
Elvira Fortunato, ex-ministra da Ciência FOTO: Leonardo Negrão

Elvira Fortunato. “Estamos a enfraquecer a Ciência e a ir numa direção contrária ao que se faz de melhor na Europa”

A cientista e ex-ministra critica a extinção da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e rejeita a fusão com a Agência Nacional de Inovação (ANI). Defende que sem uma agência independente e estabilidade no financiamento e nas carreiras, a ciência fica vulnerável às mudanças políticas.
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Ex-ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, professora da NOVA FCT e uma das cientistas portuguesas mais reconhecidas, Elvira Fortunato defende carreiras estáveis e financiamento previsível. Valoriza o FCT tenure por ter aproximado instituições e ajudado a resolver um problema estrutural, e insiste na importância de uma agência forte, independente e com missão clara. Se voltasse ao Governo, priorizaria previsibilidade no investimento em I&D, menos precariedade nas carreiras e uma ligação mais efetiva entre ciência, economia e sociedade. Aponta o RESTART como política de forte impacto e questiona a eficácia de um programa “nacional” para raparigas nas STEM com financiamento territorial limitado. Para o futuro, destaca a importância de pensamento crítico, literacia digital, ética, comunicação e curiosidade. Olhando para trás, diz que gostaria de ter arrumado o sistema científico nacional.

O ministro Fernando Alexandre anunciou a extinção da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) em julho de 2025, integrando-a numa reforma maior do Ministério da Educação, Ciência e Inovação. É necessário proteger a ciência (e os cientistas) da volatilidade política e dos ciclos eleitorais? Se sim, como?  

Com carreiras estáveis e financiamento previsível. Estou muito orgulhosa de ter resolvido parte de um grande problema que foi o FCT tenure, colocando as universidades e os politécnicos a dialogarem com a Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Não podemos ter dois sistemas em paralelo: a grande maioria da investigação que se faz em Portugal está dentro das instituições de ensino superior. Acabou por ser um problema que se transformou numa oportunidade única para o país. Para além de se resolver um problema praticamente de imediato, colocámos as várias instituições a dialogar e a contribuir para a resolução do problema. Isso, só por si, foi muito bom para o sistema científico nacional. Quanto a fundir a FCT com a Agência Nacional de Inovação (ANI) sou contra essa decisão. Na minha opinião, enfraquece a ciência e estamos a ir numa direção contrária ao que se faz de melhor na Europa e noutros países que têm apostado na ciência. É fundamental manter uma agência forte, independente e com missão clara de apoio à investigação fundamental e aplicada.

⁠Hoje, se pudesse voltar ao cargo político e executivo quais seriam as suas três prioridades para o sistema científico português?

Estabilidade no financiamento científico, garantindo previsibilidade plurianual e crescimento sustentado do investimento em I&D , carreiras científicas menos precárias, consolidando os avanços do FCT tenure e alargando estabilidade contratual, ligação efetiva entre ciência, economia e sociedade, reforçando transferência de conhecimento e valorização do impacto social da investigação. Para além destas 3 prioridades, gostaria de ter arrumado o sistema científico nacional. Temos uma rede muito dispersa e por vezes sobreposta, com várias instituições e com missões não muito bem definidas. Precisamos de massa crítica, mas organizada e mais concentrada. Só quando cheguei ao ministério tive noção da dispersão que o sistema científico português tinha e tem. É público que o atual ministro está a reformular a lei da ciência. Não sei o que está previsto, mas espero que a casa fique pelo menos mais arrumada e com objetivos mais claros. Era uma coisa que tinha na minha agenda, mas que não consegui executar.

Quanto a fundir a FCT com a Agência Nacional de Inovação (ANI) sou contra essa decisão. Na minha opinião, enfraquece a ciência e estamos a ir numa direção contrária ao que se faz de melhor na Europa e noutros países que têm apostado na ciência

⁠O que sente que ainda falha na relação entre ciência e sociedade em Portugal?

Mais trabalho conjunto entre a academia e a sociedade. Ainda precisamos de trabalhar muito mais esta questão. Por exemplo, ter uma proximidade maior às regiões, seja através das empresas seja dos próprios municípios. Há desconhecimento de parte a parte e, sem nos conhecermos, não podemos cooperar eficazmente. A ciência continua frequentemente vista como algo distante, que acontece em laboratórios e universidades, sem ligação clara aos problemas quotidianos das pessoas e das comunidades. É preciso mudar esta perceção, mostrando que a investigação científica tem impacto direto na qualidade de vida, no desenvolvimento económico local e na resolução de problemas concretos.

⁠Que tema científico/tecnológico acha que deveria estar no centro do debate público e não está?

Não considero que deva existir um tema científico específico que deva estar no debate político. Acho sim que a ciência como um pilar de desenvolvimento de qualquer país deve estar no centro do debate público. Precisamos de uma discussão madura sobre o papel estratégico da ciência, não apenas como curiosidade académica, mas como motor de desenvolvimento económico, social e cultural. As áreas estratégicas devem ser aquelas em que o país tem condições de se desenvolver e poder afirmar internacionalmente. As áreas do Oceano e do Espaço são áreas estratégicas para Portugal, nesta altura por variadíssimas questões, desde a nossa posição geográfica até às competências acumuladas e ao potencial económico e científico que representam.

Que política pública teve melhor relação custo/impacto. E que política "parece bem" mas não muda grande coisa?

O programa RESTART da FCT, que implementei enquanto Ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, teve excelente relação custo/impacto. Destinado a jovens mães cientistas para poderem retomar a sua atividade científica, compensa de alguma forma o tempo interrompido e envia uma mensagem clara de que a maternidade não deve ser penalizadora na carreira científica. Com investimento relativamente modesto, teve impacto direto em dezenas de carreiras e efeito demonstrativo importante. Já o atual Programa Nacional para as Raparigas nas STEM "parece bem" no papel, mas levanta questões importantes sobre eficácia. Gostava de referir uma questão sobre este programa. Está integrado na Estratégia Nacional para a Igualdade e a Não Discriminação 2018-2030 – "Portugal + Igual" e nos Planos de Ação 2023-2026, bem como na Estratégia Digital Nacional e visa capacitar as raparigas para que sigam os seus interesses nas áreas de Ciência, Engenharia, Tecnologia e Matemática, proporcionando-lhes exemplos positivos, apoio e oportunidades para conhecerem e experimentarem profissões nestas áreas. O programa parte de um diagnóstico amplamente reconhecido: a sub-representação feminina nas áreas da Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, apesar do bom desempenho escolar das raparigas e da crescente importância destas áreas para a economia. A proposta é ambiciosa no papel. Pretende combater estereótipos desde o ensino básico, promover vocações científicas, apostar na mentoria e reforçar a retenção de talento feminino ao longo do percurso académico e profissional, com metas alinhadas com o horizonte de 2030. O diagnóstico está certo e a intenção é boa. No entanto, há um problema fundamental: apesar de se chamar "nacional", o financiamento do programa está limitado às regiões do Norte, Centro e Alentejo. Fica a pergunta inevitável: a desigualdade de género na ciência é um problema regional? Não existe nas áreas metropolitanas, no Algarve ou nas regiões autónomas? Quando se promove igualdade com critérios territoriais desiguais, corre-se o risco de criar novas assimetrias. Sem uma coordenação verdadeiramente nacional e uma estratégia integrada para todo o país, fragmentam-se esforços, desperdiçam-se recursos e perde-se impacto. A igualdade de oportunidades na ciência não pode depender do código postal. Esta é precisamente a diferença entre políticas que "parecem bem" e políticas que efetivamente mudam a realidade.

A igualdade de oportunidades na ciência não pode depender do código postal.

⁠Que competências serão essenciais nos próximos 10–15 anos?

Pensamento crítico e capacidade de análise, num mundo inundado de informação, saber distinguir qualidade, identificar viés e avaliar evidência será cada vez mais crucial. Isto aplica-se tanto à ciência como à cidadania em geral. Literacia digital e programação: não necessariamente para todos serem programadores, mas para compreenderem como funcionam os sistemas digitais que cada vez mais moldam as nossas vidas. Isto inclui compreensão básica de algoritmos, dados e inteligência artificial e para isso são precisas mulheres, para que estes sistemas não fiquem a pensar só de forma masculina. Ética e responsabilidade: à medida que a tecnologia se torna mais poderosa, as questões éticas tornam-se mais prementes. Precisamos de profissionais que não saibam apenas como fazer as coisas, mas que pensem criticamente se e quando devem fazê-las. Comunicação e colaboração: a ciência e a inovação são cada vez mais interdisciplinares e colaborativas. Saber trabalhar em equipa, comunicar com públicos diversos e integrar perspetivas diferentes é fundamental. Por fim, diria que a curiosidade continua a ser a competência mais importante de todas. É ela que move a ciência, que leva à inovação e que permite às pessoas continuarem a aprender e a adaptar-se ao longo de toda a vida profissional.

Elvira Fortunato, ex-ministra da Ciência
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