O papel da engenharia na atual sociedade é o tema central do livro escrito por Elói Figueiredo e Carlos Matias Ramos. Dividido em 12 princípios - que orientam a formação e o exercício da engenharia - a obra defende que esta é muito mais que uma profissão técnica. A importância da inteligência artificial é outro dos pontos focados neste livro. Ao DN, Elói Figueiredo fala sobre o livro e do que a engenharia portuguesa necessita de fazer para, por exemplo, acompanhar as alterações climáticas. E o uso da já referida inteligência artificial.O que as tempestades que atingiram Portugal no final de janeiro e em fevereiro mostram? Ou o que nos ensinaram?É uma pergunta fácil para de responder. O que estas tempestades mostraram em primeiro lugar é que as infraestruturas, de uma forma geral, foram dimensionadas para um certo nível de referência que nós temos de informação do passado. Por exemplo, quantificamos a ação do vento, das pessoas, dos automóveis em função daquilo que observamos no passado. O que as infraestruturas estão a mostrar com alguma frequência? É que, provavelmente, algumas destas ações podem estar desatualizadas.Refere os períodos de retorno. O que são?É a forma de podermos estimar uma ação que vai incidir sobre a infraestrutura, tendo em conta a probabilidade de ela ocorrer num conjunto de anos. Por exemplo, vamos ter uma cheia com um período de retorno de 1000 anos. Significa que a probabilidade de termos um caudal durante esses 1000 anos é de 1% ao ano. Portanto, é expectável que, em termos médios, em 1000 anos, possa só ocorrer uma cheia com aquele nível de referência. E aquilo que se especula muito é que, por efeito das ações climáticas, essas ações que temos como referência, possam estar ultrapassadas. E se isso é verdade as nossas infraestruturas podem mostrar níveis de stresse elevados.Foi o que aconteceu com o dique que rebentou em Coimbra a 11 de fevereiro?A partir do momento em que esse dique rebentou a água começou a desafiar o aterro. Este deu sinais de que podia entrar na ruptura e nós conseguimos bloquear o trânsito e salvaguardar vidas humanas. Isso é uma prova de que tudo funcionou como está previsto. O que as pessoas podem achar estranho. Mas o aterro deu sinais de que iria entrar em colapso e, portanto, nós conseguimos intervir rapidamente para poder salvar vidas humanas..Especialista alerta: sem ordenamento do território e novas barragens, cheias no Mondego irão agravar-se. Preparar as estruturas para resistir tem custos. Estamos preparados para investir?Do ponto de vista da gestão de risco temos de fazer ideia. Sabemos que de 20 em 20 anos temos de reparar o dique. Os políticos têm de assumir essa responsabilidade. Por exemplo, no caso dos diques do Mondego, se foram dimensionados para um período de retorno com o caudal de dois mil metros por segundo, como é que, segundo tenho conhecimento, rebentaram pelo menos três vezes: 2001, 2019 e 2026. Não me parece que seja normal. Enquanto técnico não acho razoável um dique entrar em rutura três vezes num espaço de cerca de 25 anos. Não acho normal. Isto claramente é um sinal de que, neste caso, os políticos têm de tomar uma decisão.Na sua opinião o que se deve fazer?Temos de intervir naqueles diques ou acompanhá-los melhor. Se observarmos melhor podemos evitar rupturas porque estamos a antecipar problemas ou então temos de intervir construindo novos diques para evitarmos o que aconteceu.No livro é chamada a atenção para as zonas vulneráveis, o que com as alterações climáticas são cada vez mais afetadas. Não é, também, um desafio para a engenharia?Temos de repensar tudo. A engenharia é uma arte inacabada, é uma arte que se vai melhorando ao longo do tempo. E temos, por exemplo, os regulamentos que vão sendo renovados periodicamente, de 20 em 20 anos. O que está aqui em jogo é que, provavelmente, vamos ter de alterar, e estamos já a fazê-lo, os regulamentos, para irem de encontro a uma nova realidade climática.E que realidade é essa?Os novos regulamentos, a que chamamos de segunda geração, auxiliam-nos no dimensionamento das estruturas, por exemplo, pontes e edifícios. Esta segunda geração, que vai muito provavelmente entrar em vigor nos próximos de dois, três anos, já está a incorporar os efeitos das alterações climáticas.."No caso dos diques do Mondego, se foram dimensionados para um período de retorno com o caudal de dois mil metros por segundo, como é que, segundo tenho conhecimento, rebentaram pelo menos três vezes: 2001, 2019 e 2026. Não me parece que seja normal”.. Podemos dizer que a engenharia está a reagir aos novos desafios?Sim. Até agora dimensionávamos em função das ações que observámos no passado. A partir de agora vamos continuar com estas ações que foram observadas no passado, mas vamos adicionar uma parcela, que é a função do desenvolvimento socioeconómico que se espera para aquela região e que incluiu as emissões de carbono. Isto é uma mudança de paradigma muito grande em relação ao que era feito no passado. Isto já é um ajuste à nova realidade.Essa adaptação coloca um problema financeiro. Não é possível fazer todas as mudanças rapidamente...O que nós temos de fazer é que em função da nova realidade, e sempre que haja necessidade de intervir, vamos fazê-lo já com o novo conhecimento que temos. Isto significa nós dimensionamos todas as infraestruturas para um problema climático dos anos 80 e 90. Se agora há uma alteração no clima temos de adaptar as infraestruturas a esta nova realidade.E começamos por onde?Podemos ter o conhecimento de zonas vulneráveis, que não foram afectadas, mas que são vulneráveis. Quando há uma zona vulnerável que foi impactada, como foi, por exemplo, o Mondego, a intervenção que vai ocorrer tem de ser de adaptada à nova realidade. Portanto, aquilo que se espera agora é que a intervenção nas zonas afectadas não seja só repor o que existia. Temos de transformar para a nova realidade. Isso é fundamental.Há exemplos?A ponte sobre a Ribeira Grande no concelho de Fronteira. O colapso em 2022 aconteceu por causa do nível da água da ribeira que subiu de uma forma repentina e destruiu a ponte. Construiu-se uma nova ponte, a montante mas com o tabuleiro mais alto precisamente para acomodar as subidas do nível médio da água. E é esta a forma de intervir que tem que existir a partir de agora. Não é só repor o que lá estava. Não, temos de adaptar para cenários que provavelmente não pensámos no passado.Mas nem tudo é “culpa” das alterações climáticas, certo?Há outros fatores como a ocupação dos solos e a redução das zonas permeáveis. Em determinados momentos, as soluções são dimensionadas para apenas uma questão, não levando em conta o conjunto. E, de repente, há desequilíbrios que têm de ser corrigidos. Por vezes as coisas são mal feitas. Há autorizações para construção junto ao rio ou perto da praia. E aí tem de haver intervenção política, que tem de ser exigente. Só que, normalmente, essas decisões acarretam custos para os municípios.É possível reagir melhor?Podemos. E lembro-me de um caso que conheço bem - a queda da ponte de Entre-os-Rios, que provocou a morte de 59 pessoas. Percebeu-se que as nossas principais pontes não eram inspecionadas de forma periódica. Atualmente as principais pontes são inspecionadas pelo menos de dois em dois anos, o que faz com que o risco de colapso seja menor. Pode existir, mas o risco é menor. Risco há sempre, mas não tenho dúvidas que foi minimizado.Mas nem todas são inspecionadas...Temos neste momento cerca de dez mil juntando as obras de arte, não são só pontes, que são da responsabilidade das Infraestruturas de Portugal, da Brisa e da Ascendi. O problema é que o país tem mais obras de arte que não são acompanhadas devidamente. São as que estão na alçada dos municípios. Aí há trabalho para fazer.Que tipo de trabalho?Há muitos municípios, a generalidade, que ainda não têm um programa de acompanhamento das obras de arte ou das pontes. Aí há trabalho para fazer. Tivemos situações onde infraestruturas sofreram um nível de stress elevado e, portanto, temos de saber reagir e repensar a forma como lidamos no futuro. Por exemplo, o sistema de controlo de cheias no baixo Mondego tem de ser repensado, não podemos esperar que surja uma nova rotura. Como já disse não acho normal que tenham existido três roturas em 25 anos e não se faça nada para evitar que haja outra dentro de cinco ou seis anos. Temos de garantir que vai haver esse escrutínio.."Temos neste momento cerca de dez mil, juntando as obras de arte, não são só pontes, que são da responsabilidade das Infraestruturas de Portugal, da Brisa e da Ascendi. O problema é que o país tem mais obras de arte que não são acompanhadas devidamente. Sãoas que estão na alçada dos municípios. Aí há trabalho para fazer”.. No caso do baixo Mondego refere-se muito a importância da construção da barragem de Girabolhos...Não sei dizer se vai resolver o problema. É apresentada como uma solução para mitigar os efeitos, mas isso não resolve o problema, ajuda a controlar o caudal mas não resolve o problema efetivo dos diques. Tem de se repensar se não se tem de alterar os diques ou se se controla a montante a quantidade de água que lá chega.Evitar a chegada dos caudais não é uma solução?É capaz de ser mais barato do que estar a intervir nos diques, mas o que sei é que os próprios diques não são acompanhados, tenho fotografias onde se vê as árvores ao pé dos diques de terra e elas ganham raízes. Tem de haver limpeza e é preciso também verificar se sofrem assentamentos ao longo do tempo. Tem de haver inspeção.Regressando à questão de adaptar as zonas mais vulneráveis. Como se processa esse trabalho quando nesses áreas moram pessoas? Temos de as tirar de lá?É complexo claro, quando se mexe com pessoas. Se pensarmos em construções autorizadas em zonas de cheia Isso tem o custo de ver quanto custa retirar as pessoas, construir novas casas. É uma decisão política. E é bastante importante ver quanto custa proteger essas pessoas.No livro refere-se a inteligência artificial. Qual a importância na engenharia?A engenharia é um instrumento que nos permite ter uma sociedade que se desenvolve mas no equilíbrio certo, para que não esteja nos extremos nem da estagnação económica nem do desenvolvimento desenfreado. Mas também queremos que a tecnologia não ponha em causa a própria vida humana. Temos de ter a certeza de que a inteligência artificial está aqui para nos auxiliar, não para substituir o senso da decisão humana. Por isso é que dizemos no livro que por muito que a inteligência artificial nos possa dar informação a decisão é sempre nossa. Ou seja, nunca pode estar dependendo de uma máquina.carlos.ferro@dn.pt .Portugal e Espanha vão criar sistema de aviso à população para cheias