Há muito tempo que Carla não era tão feliz. Finalmente, depois de anos a trabalhar num call center da PT, o seu sonho de ser cientista estava a materializar-se. A licenciatura de Biologia e o mestrado que fizera a duras penas (e pagando do seu bolso), acumulando trabalho de laboratório de dia com as noites - das seis da tarde às 3 da manhã - no call center, mais a escrita de uma tese em cuja defesa fora considerada "segura e à vontade" tinham-lhe valido o interesse do presidente do departamento de Biologia da Universidade de Aveiro, Amadeu Soares, que iria ser o seu orientador de doutoramento. O primo Roberto, que com ela passou férias desde criança em casa da avó materna, em Chão de Vã, recorda o entusiasmo com que ela lhe mostrava plantas e animais e lhe falava de ciência. "Agora só falava do doutoramento." Filha única de um reformado da GNR e de uma operária, Carla Sofia Lourenço Martins dava-se muito com a família. Mas falava pouco de coisas pessoais: descrita como alegre, brincalhona, sempre disponível para ajudar e para se interessar pelos outros, furtava-se a confidências. A aparência extrovertida, afirmativa, ocultava afinal uma auto-estima a precisar de reforço. É pelo menos o que acha Amadeu Soares. "Era muito humilde e um pouco insegura quanto ao seu valor, necessitava de alguém para apostar forte nela. A sua responsabilidade e grande vontade de trabalhar, bem como a sua maturidade, eram muito importantes para o projecto que iria desenvolver, em colaboração com a Universidade de Ghent, no Laboratório de Bioquímica de Proteínas e Engenharia Biomolecular. A Carla iria ter, pela primeira vez desde que concluiu a sua licenciatura, uma oportunidade para se dedicar a tempo inteiro à ciência, algo que a apaixonava." ."A Carla ia mudar de vida. Ia ser feliz como já há muito não era. Ia fazer algo por ela. Era a perspectiva da autonomia dela. Ele não ia permitir isso.". A notícia da bolsa e da aprovação do doutoramento, que a levaria a dividir o tempo entre Aveiro e Bruxelas durante quatro anos, coincidiu com outra coisa - que, a crer no que dizem os amigos, seria também novo na vida da Carla: um amigo especial. Ou, como diz o próprio, um colega do call center, estudante de Engenharia do Ambiente na Universidade, "mais que um amigo". A relação ter-se-ia transformado numa "espécie de namoro, que não era ainda namoro porque nenhum de nós dissera a palavra", cerca de um mês e meio antes de Carla ter ido, na tarde de sábado dia 14, visitar os pais a Castelo Branco. "Estávamos na fase do encantamento", diz, com um sorriso invisível, o namorado-que-não-era-namorado. "Ela era maravilhosa. Conhecemo-nos no trabalho, começámos a falar e isto aconteceu. Estávamos a planear passar um fim de semana em Espanha. Ela andava tão contente. E já tínhamos combinado que quando fosse para Aveiro eu a ia lá visitar. Estava subentendido." Acende cigarros uns atrás dos outros, sentado no jeep, Coimbra inteira à frente na noite clara e fria. O jeep que guarda as melhores memórias, a de um passeio a Alcarraques, uma espécie de rally que fizeram com amigos e cujo dístico auto-colante desdobra, os dedos lentos. Defeitos, a Carla não tinha? Olha o horizonte. "Não lhos descobri. Não houve tempo."É esta relação que João Oliveira, 28 anos, doutorando de Genética no IPATIMUP (Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto), alega como motivo para a espera que fez a Carla à porta de casa dos pais, numa rua escura de casas unifamiliares em que os gritos dela, abafados pelo som da TV, não abalaram o sossego dos vizinhos da frente. "Só dei por isso quando já estava aí a ambulância. E nem tive de coragem de olhar quando percebi que estava ali uma pessoa caída. A minha mulher é que viu." Ver o quê. Um corpo na soleira da porta, nas costas das rosas que fazem a cerca da casa onde passou a adolescência, sangue - o sangue exacto de mais de vinte facadas -, a mãe sem sentidos, o pai que veio acudir e foi ferido no ombro antes de derrubar o assassino, a vizinha da outra esquina, funcionária da PSP local, que acorreu, a gente que se se vai juntando. E ele, o doutorando de Genética, descrito por quem o conhece como "muito inteligente, tímido, um miúdo normal, sem nada que fizesse prever uma coisa destas.""Não creio que ela tivesse medo dele, tinha era medo do que ele podia fazer a ele próprio"Prever uma coisa destas. No dia em que matou Carla, João Oliveira não terá tomado a medicação - um leve ansiolítico - que um médico do centro de Saúde lhe teria receitado para a depressão que lhe fora diagnosticada em Agosto. A ida a Castelo Branco justifica-a com a vontade de uma conversa "final", depois de se ter cruzado com Carla no messenger assumindo uma identidade falsa - a de uma amiga - e de a ter levado a confessar um relacionamento sexual com outra pessoa desde o fim do namoro dos dois, que situa duas semanas antes. A faca, diz, era para se matar à frente dela. Mas não, não se matou - e as facadas que lhe deu foram pelas costas depois de ela lhe ter dito que estava tudo acabado, que ele devia "andar em frente e andar com outras pessoas." "Um tal de João que era namorado". É assim que o primo Roberto fala dele. "Tinha ouvido falar mas há mais de um ano que ela não dizia esse nome. O único episódio a que assisti foi aqui em Lisboa, em minha casa. Ela recebeu um telefonema de um namorado, com uma cena de ciúmes, a perguntar onde estava, a insistir muito, mas que entendi como saudade, nada de mais." Há quem garanta que os pais de João, uma administrativa e um professor de Artes Visuais residentes em Coimbra (e que, como o outro filho - mais novo que João - declinaram qualquer conversa com o DN), nunca tinham ouvido falar de Carla e que os pais de Carla não conheciam João. Numa das versões daquela noite, ele teria andado até à procura da casa deles, sem saber bem onde seria - mas não só deu com ela como sabia, desconhece-se como, que Carla lá ia. E se há quem avente que ele a seguiu de carro, de Coimbra até Castelo Branco, o certo é que Carla foi de comboio nessa tarde por ter o carro avariado. Nuno Vieira, 34 anos, mais um colega da PT, esteve com ela a beber café e deu-lhe boleia até à estação, onde ela apanhou o comboio, pouco antes das seis. "Estivemos na brincadeira." Para Nuno, como para todos os amigos de Carla, João era um ex-namorado longínquo, de quem ela raramente ou nunca falava. "Conheço-a há três anos e soube da existência dele. Aquilo já tinha acabado há algum tempo. Mas tenho a ideia de que mantiveram contacto sempre, mesmo depois de acabarem. Parecia ser um tipo muito possessivo." ."As raparigas da PT sabem que ele durante a última semana a perseguia. Quem olhasse para a Carla a almoçar connosco nem imaginava o drama que se estaria a passar... Parece que ele se dizia que se matava. Que se suicide.". Um retrato sublinhado por Cátia Silva, 30 anos, investigadora do Laboratório de Zoologia da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Foi na Faculdade que Carla e João se viram pela primeira vez, no curso de Biologia, e começaram a namorar (diz-se que em 2001, para terminarem em 2006 e talvez para recomeçarem muitas vezes) mas Cátia, que só conheceu Carla durante o mestrado, nunca o viu. E se para a amiga só tem elogios ("Gostava muito de rir e de fazer o outros rir, dava muito bom ambiente, sempre a mandar graçolas. E ia ter connosco ao laboratório já depois de acabar o mestrado, e ficava lá de manhã a trabalhar connosco, sem ganhar nada"), de João reproduz o pouco que ela lhe disse. "Sabia que ela tinha tido um namorado e tinha acabado. Era um namorado que nunca foi muito certo, agressivo e manipulador. A última vez que ela falou dele foi quando as coisas acabaram. Ela na altura disse que ele não aceitava bem a separação." E não falaria dele porquê? Cátia hesita. "Não sei porque é que ela não falava do João. Se calhar porque não tinha nada para dizer. Nada de positivo. Era normal que não quisesse falar desse ambiente negro, ela não era nada depressiva, isso não se coadunava nada com ela. Mas as raparigas da PT sabem que ele durante a última semana a perseguia. Quem olhasse para a Carla a almoçar connosco nem imaginava o drama que se estaria a passar... Mas não creio que ela tivesse medo dele, teria era medo do que ele podia fazer a ele próprio." A voz endurece a dizer este nome, João. "Parece que ele se dizia que se matava. Que se suicide.""Disse-lhe que quem faz aquilo a uma porta faz a uma pessoa"João, parece, descreveu a relação como "obsessiva de parte a parte", com "ciúmes recíprocos". Terá dito que o casal se reunia aos fins de semana (ela vivia em Coimbra e ele no Porto, onde é o IPATIMUP, em casa de um primo). As amigas de Carla que viviam com ela na mesma casa, porém, nunca deram por tal. Uma delas, Tatiana Ribeiro, 26 anos, também funcionária do call center e estudante de Ciências da Educação, só viu João Oliveira uma vez, na rua perto da casa onde habitavam. "Passei por eles e ela apresentou-mo. Não me pareceu uma pessoa muito afável. As pessoas do curso dela conheciam-no como ex-namorado, mas connosco ele sempre foi uma referência. Tinha sido uma relação muito longa e é normal que as agruras do passado pesem. Nunca me foi apresentado como um namorado muito carinhoso. Discutiam muito, era uma relação atribulada. Mas ultimamente tinha havido uma reaproximação, uma espécie de volta." Tatiana não sabe precisar a data - "Por Agosto" - mas foi durante essa reaproximação que João partiu um dos vidros da porta do prédio onde ela e Carla moravam. "Não estava lá mas apercebi-me e tive uma conversa mais dura com ela. Disse-lhe que quem fazia aquilo a uma porta fazia a uma pessoa. Perguntei-lhe se aquilo não seria só a continuação de algo que acabou porque não aparecia nada de novo. Não encontrarem ninguém durante os últimos três anos não lhes permitiu encontrar um rumo diferente para as suas vidas. Acho que ela não percebia bem o que aquilo era... Até porque me contaram que os pais não o conheciam, e ela tinha uma relação muito próxima com a mãe. É muito estranho. Se não tivesse acontecido nada e se me perguntassem quem era o João eu diria: 'É o ex-namorado da Carla'." Pára. Recomeça: "Já me passou pela cabeça que não fizemos as perguntas suficientes. Ela nunca me deu a perspectiva do homem perigoso. Queria muito saber o que aconteceu verdadeiramente, qual o motivo que ele elaborou para justificar aquilo. O que lhe passou pela cabeça. Ele confessou, claro - mas foi apanhado, é redundante. O que ele precisa não é de confessar, é de consequência. Lembrar-se dela para o resto da vida. Que o assombre." .Crime passional? "Há uma romantização, uma irresponsabilização, uma certa inconsequência associada a este tipo de comportamento. Parece que virou moda - cinco ou seis casos em 15 dias. Atenuante? Que palavra tão bonita. Actos de loucura cometem-se mas não se premeditam.". Crime passional? Tatiana sacode a designação: "É estúpida. Há uma romantização, uma irresponsabilização, uma certa inconsequência associada a este tipo de comportamento. Parece que virou moda - cinco ou seis casos em 15 dias. Atenuante? Que palavra tão bonita. Actos de loucura cometem-se mas não se premeditam. Ele teve muito tempo para perceber o que estava a fazer." E o que é que ele estava a fazer? "A Carla ia mudar de vida. Ia ser feliz como já há muito não era. Ia fazer algo por ela. Era a perspectiva da autonomia dela. Ele não ia permitir isso." Não há, claro, uma fórmula científica para o amor - a frase é de um outro amigo de Carla, com quem ela falou mais de João. "Mas a relação que ele tinha com ela não tem nada a ver com amor, pelo menos com os meus padrões do que é o amor. Ele passava a vida a exercer represálias sobre ela. A fazer jogos. Fazia-lhe a vida negra para depois a acusar. Chegou a usar as traições dele e a reacção dela ao saber contra ela. A última conversa que tive sobre isso com ela foi em setembro. Disse-lhe para pôr para trás das costas. Ela queria romper mas tinha dificuldade. Acho que depois de deixar de gostar dele teve dificuldade em acabar, tenho a ideia de que ele não queria ficar só. Ela queria libertar-se mas não conseguia. Ela própria falava daquilo como 'a never ending story'."Vários amigos dizem o mesmo: para Carla era muito difícil ter alguém chateado com ela. Queria ser amada - ver os outros felizes. "Foi uma boa pessoa que conheceu uma má pessoa. Fazia-me muita confusão porque ela não fazia mal a uma mosca. Era fantástica, dificilmente se encontram pessoas como a Carla. Qualquer um com o mínimo de boa vontade podia fazê-la feliz. Muitas vezes lhe perguntei: porquê? Ela chorava e encolhia os ombros. Dizia que tinha de ser forte.""Ele aproveitava-se do amor da minha filha, não é?"Forte. Joana queria sê-lo. Umas vezes para se libertar, outras para suportar aquilo que lhe parecia um tormento impossível: amar sem ser retribuída, amar demais e ser amada de menos ou nada. Fazia força de escrever. Analisar, falar consigo e de si, guardar e comparar sinais, acumular como para feitiço tudo - cartões dele para ela, centenas de fotos, lingeries usadas, objectos trazidos de hotéis (por exemplo de um hotel madrileno onde pernoitaram a 6 de Novembro) - o que testemunhava uma relação de quatro anos com David Tiago Santinhos Saldanha, com quem começou a 3 de Julho de 2005 um namoro muitas vezes terminado e reatado. No seu quarto, a mãe descobriu livrinhos infantis com a transcrição de todas as sms dele. Descobriu folhas soltas com reflexões, apelos, ultimatos, desesperos. Descobriu diários. Por exemplo isto: "Não sei o que se passa comigo e às vezes é como se já nem me conhecesse. Não consigo lidar com os meus problemas, nem com a vida, que na maioria parece nem o ser. (...) Ele não é o David por quem me apaixonei e praticamente em tudo mudou."O texto (reproduzido abaixo) não tem data. Pode ser de 2007 (como a entrada anterior do diário) ou de 2009. A relação de Joana, 20 anos, e David, de 22, passou vezes de mais por crises, por traições e por interrupções mais ou menos prolongadas para se poder situar este lamento: "Eu aprendi a gostar dele assim e ele habituou-se a ter-me só para ele! Desde que o conheci, não voltei a ser a menina que todos conheciam. Este amor estragou-me mas cresci de forma a enfrentar situações inéditas. Sinto ausência de carinho, do carinho e da atenção que ele me deu em tempos. (...) Agora sou dos tempos livres e das horas vagas. (...) Sinto-me incompreendida, sozinha, perdida. Preciso de atenção, o mínimo que seja. Sentir-me desejada e amada. Coisa que eu duvido. Dói, dói demais. No fundo, quero-te a ti com tamanha que tu não tens noção da imensidão. Entende-me, só te peço isso!" ."Eu aprendi a gostar dele assim e ele habituou-se a ter-me só para ele! Desde que o conheci, não voltei a ser a menina que todos conheciam. Este amor estragou-me.". Quando se encontrou com David no dia 17, Joana Cristina Fulgêncio Santos Silva estava zangada. Ou magoada. Ou esperançada. Provavelmente as três coisas. Na sexta feira anterior, tinha saído das aulas para ir ter com ele, como era hábito, ao T2 de Mangualde onde David residia sozinho (os pais, uma professora e um gestor que recusaram falar ao DN, moram em Celorico da Beira) e onde costumavam passar toda a noite juntos desde que a mãe de Joana, Paula Cristina Fulgêncio, 39 anos, empregada doméstica, lhe dera permissão para isso ("Eles de qualquer modo iam dormir juntos e ficava tão preocupada ao saber que ela vinha de Mangualde para Viseu às tantas da manhã que preferi que lá dormisse"). Mas, ao contrário do costume, Joana voltou para casa às 11 da noite. "Estranhei, mas ela disse-me que tinha de estudar para um trabalho de jornalismo e não insisti". Paula Cristina fala pausadamente, as palavras a direito como quem se equilibra no vazio. Na cozinha, o filho Óscar, mais novo que Joana, ouve a conversa, mas nunca vem à sala. "Percebi que deviam estar chateados, mas era comum chatearem-se e reconciliarem-se, não me quis meter." Às vezes Paula metia-se - como quando, no Verão, David tinha combinado as primeiras férias a sós com Joana, na Figueira da Foz, e gastou o dinheiro que tinha para pagar o quarto, 600 euros, num iphone comprado a pronto num impulso de menino mimado. "Chegou a altura de irem de férias e ele nunca mais falou com ela. A minha filha andava numa infelicidade tal que me revoltei e liguei-lhe. Ele foi dizer aos pais que eu lhe pedira dinheiro. A mãe dele ligou à minha filha aos gritos." A seguir a essa cena, Paula proibiu a filha de namorar com David. Mas não durou muito. Não conseguia impedi-la de o ver e achou que não devia. Mas Paula não foi a única a meter-se entre Joana e David: também os pais dele resolveram, a dada altura, cortar o namoro (os motivos prender-se-ião com a morte violenta do padrasto de Joana, muito falada em Viseu e nunca esclarecida). Os diários de Joana dão disso conta - e da animosidade que sentia pelos pais do namorado, que os invocaria para justificar quebras na relação, e até relações com outras pessoas. Um clima de manipulação e jogo que Paula, sentada na cama da filha de negro dos pés ao cabelo, resume no seu ritmo sincopado: "Ele aproveitava-se do amor da minha filha, não é? Cansou-se mas aproveitava-se dela. A essa conclusão já cheguei.""Fui eu que os apresentei. Se eu soubesse"Naquela sexta-feira 13, então, Joana terá discutido com David. Tão violentamente que se chegou a comentar que os vizinhos do prédio de dois andares numa zona da periferia de Mangualde terão chamado a polícia. No prédio ninguém se acusa, à excepção de uma moradora que recusa falar a jornalistas: "O que tenho a dizer direi à GNR se vier cá falar comigo." Mas por pior que tenha sido a discussão na terça 17 Joana encontrou-se com ele. A mãe não sabe se se viram antes: no domingo a filha passou o dia em casa. Mas pode tê-lo visto na segunda. Ou até na terça à hora do almoço, quando Francisca Paiva, 20 anos, uma amiga comum que apresentou David a Joana e que está no mesmo curso que ele (mas no 2º ano), o encontrou a cinco minutos da casa da Joana, por volta da uma da tarde. "Disse-lhe para dar um beijo meu à Joana, porque pensei que ia ter com ela. Quando o vi à tarde numa aula que tínhamos em comum, ele disse-me que já lhe tinha dado o meu beijo. Ele estava bem na aula, ou fingia estar bem. Como se não tivesse problema nenhum, como se não fosse fazer nada." Francisca cerra as pálpebras lentamente: "E fui eu que os apresentei. Se eu soubesse."Se ela soubesse. Mas alguém sabe? "Quando encontraram o corpo e me disseram que tinha sido ele, eu estava sempre a defendê-lo, não podia crer". O namorado de Francisca, Sebastião Branquinho, dá-lhe a mão. "Um indivíduo que parecia tão certo e era um monstro. Todos temos uma sombra adormecida, mas a dele, quando acordou... Já me passou pela cabeça ir lá perguntar: 'O que é que te passou pela cabeça para matares a rapariga?'" Sebastião levanta a franja espessa. "Depois de saber disto não dormi nada. Tenho 19 anos e a minha mãe tem 55 e pedi-lhe para dormir com ela. Já viu?" ."Uma pessoa anda com outra anos, faz amor com ela e depois põe-lhe um saco na cabeça. Que amor é este? E como é possível tê-lo visto nesse dia e ele ter feito isto?". Às 19H18 de terça, Paula recebeu um sms do número da filha a dizer que não ia jantar a casa. A linguagem era formal, nada parecida com a de Joana. "Mas estava a fazer o jantar e não sei porquê aquilo passou. Só liguei para ela às 9 e tal. Aí o telefone estava desligado. Comecei a tentar falar com ele e também não dava. Às três da manhã, em desespero, já tinha tentado todos os números que tinha de amigas da filha e ligou para casa dos pais de David. Eles não sabiam nada, mas pouco depois ligaram-lhe do Centro de Saúde, onde David tinha dado entrada, alegando ter sido sequestrado e drogado e gritando por Joana, que teria sido levada. Paula foi lá e a seguir começou às voltas de carro à procura da filha. Já era de manhã quando passou junto à barragem de Fagilde, perto do local onde o corpo do padrasto de Joana foi encontrado. Passou por um jeep da GNR e perguntou: "Estão à procura da minha filha?". A cara do homem deu-lhe a resposta. Precipitou-se para a barragem, onde havia já uma ambulância e carros da polícia. Não a deixaram chegar ao local on de o Peugeot 306 dos pais de David revelara ao cair o corpo da filha, guardado no porta-bagagens com um saco de plástico na cabeça, o crânio esmagado por vários golpes.David terá dito que se descontrolou perante a reacção possessiva de Joana à existência de "outro relacionamento". Mas há muito por explicar e tudo por saber - tudo o que é impossível perceber. Na mesa do Fórum, onde supostamente Joana e David estiveram naquela terça depois de ela sair da frequência de inglês às 18.30, Francisca respira fundo. "Uma pessoa anda com outra anos, faz amor com ela e depois põe-lhe um saco na cabeça. Que amor é este? E como é possível tê-lo visto nesse dia e ele ter feito isto?"