O caso do médico dermatologista do Hospital Santa Maria, em Lisboa, que recebeu mais de 700 mil euros em três anos com atividade adicional, deixou a sociedade de olhos postos nesta especialidade e a questionar-se porque será precisa tanta produção adicional e como, afinal, até se pode ganhar muito no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Mas a verdade é que as listas de espera agravam para consulta e cirurgia e as queixas até já chegaram ao setor privado e aos seguros. A questão é se tudo isto se deve à falta de médicos nesta especialidade. Há quem diga que sim, mas também quem responsabilize o SNS por não conseguir reter e fixar os médicos. A verdade é que esta é das especialidades que todos os anos está no topo da tabela das preferências dos jovens médicos. Basta referir que as 14 vagas para o internato em dermatologia, que começou em janeiro de 2026 nas unidades do SNS, foram preenchidas logo nos primeiros dias de inscrição pelos candidatos que ficaram entre os 25 melhores na prova de acesso. No entanto, há alguns senãos, como: dos 489 dermatologistas inscritos na Ordem até março de 2026 (embora alguns já não exerçam, mas esse número não foi possível de obter) só 153 é que trabalham no SNS, número menor do que há cinco anos, segundo revelam os dados disponibilizados ao DN pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS). Os mesmos revelam que, em 2025, havia 159 dermatologistas no SNS, em 2024, 161, em 2023, 160, em 2022, 157, em 2021, 154. Para quem está no terreno, tais números não são novidade. Isto porque, e como sustenta o bastonário dos médicos, Carlos Cortes, “há demasiados anos que o SNS não consegue reter dermatologistas, bem como médicos de outras especialidades. O problema é que as suas necessidades nesta área na prestação de cuidados também são cada vez maiores”.A situação está a engrossar as listas de espera com cada vez mais doentes e a aumentar os tempos de espera, havendo regiões, onde “doentes prioritários têm tempos de espera para consulta e cirurgia que ultrapassam os limites do aceitável”. Ao DN, o presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH), Xavier Barreto, afirma mesmo que “a lista de espera é grande e, em alguns locais, absolutamente grave”.De acordo com os dados disponíveis no portal dos tempos de espera do SNS, a região mais afetada com a falta de dermatologistas é a do Alentejo, onde um utente prioritário pode aguardar 1353 dias por uma consulta (mais de quatro anos). A região não tem sequer capacidade para responder a doentes muito prioritários nem aos que têm patologia normal (sem urgência). Mas o tempo de espera para estes últimos doentes também aumentado também no Norte e em Lisboa Vale do Tejo (LVT), já que a espera para uma consulta é de 160 e 157 dias, respetivamente. O Centro regista também 154 dias de espera e o Algarve 59 dias de espera. Quanto aos doentes muito prioritários, LVT é a região com o maior tempo de espera, 63 dias, o Norte com 39, o Centro com 37 e o Algarve com 32 (ver tabela). .Na área da cirurgia, em que os doentes estão divididos em cinco grupos, o Alentejo não tem capacidade para dar resposta aos doentes prioritários sem doença oncológica e aos doentes com patologia normal e sem doença oncológica. O Algarve destaca-se pela espera nos grupos prioritários com ou sem doença oncológica, quase com 100 dias de espera, mas a espera para os muito prioritários é apenas de 26 dias, menos do que em outras regiões. Na cirurgia, destaca-se ainda a região Norte, com espera de 153 dias para uma cirurgia a um doente com patologia normal e sem doença oncológica (ver tabela)..Direção Executiva diz que mais procura de cuidados agravou acesso O DN questionou a Direção Executiva sobre estes prazos e a resposta que chegou justifica a situação no Alentejo como “isolada e excecional, não refletindo a realidade global dos tempos de resposta na região. Trata-se de um único caso, que não é representativo do funcionamento geral do SNS.”Por outro lado, explica que “os constrangimentos no acesso” também têm a ver com “a procura por cuidados de saúde”, que “tem aumentado a um ritmo superior, pelo envelhecimento da população e pelo aumento das necessidades em saúde”. Na resposta ao DN, o organismo que gere os cuidados do SNS destaca que “desde 2024 tem vindo a ser desenvolvido um reforço da resposta assistencial e de redução dos tempos de espera. Contudo, o crescimento expressivo da procura tem tornado mais exigente a capacidade de recuperação e resposta do SNS.” Mas, para o presidente da APAH, algo tem de mudar, defendendo mesmo que os próprios hospitais têm de arranjar soluções para atenuar o impacto da falta de médicos, e dá como exemplo o hospital em que trabalha, no norte. “Quando um médico de família pede uma consulta para um doente em dermatologia envia uma fotografia com a situação que o preocupa para haver de imediato uma triagem e saber-se se é um doente com patologia muito prioritária, prioritária ou normal, havendo uma consulta de telemedicina”.O bastonário dos médicos reconhece que a falta de clínicos de dermatologia não é de agora e defende ser preciso "criarem-se condições de trabalho para reter os médicos. “A Ordem tem perfeita noção da falta de médicos que existe no SNS, nesta e noutras especialidades. Mas, internamente, a questão de dermatologia tem sido refletida e já expressámos várias vezes à tutela a nossa preocupação”, afirma ao DN. Carlos Cortes diz mesmo: “Da nossa parte tem havido um esforço grande para aumentar a formação. Nos últimos anos, temos vindo a pedir um número superior de vagas em relação ao número que o ministério acaba depois por lançar, mas isto acaba por ser um ciclo vicioso, porque quantos mais médicos saem do SNS menos formação é possível assegurar. E se a tutela e o SNS querem mais médicos têm de criar as condições de trabalho adequadas, nomeadamente para exercer a atividade, para formação e investigação”. O que se passa, salvaguarda ainda, é que “o SNS criou há demasiado tempo um fosso nesta especialidade ao não conseguir reter em número suficiente recém-especialistas e especialistas”.Para a presidente do Colégio de Dermatologia da Ordem dos Médicos, Joana Cabete, “o número de vagas que têm sido lançadas para formação na especialidade (entre 13 e 15, nos últimos anos), são as adequadas, de acordo com as nossas previsões, para cobrir as necessidades do país”, disse ao DN recentemente, atribuindo a causa da carência de médicos também às condições de funcionamento do SNS. “A taxa de retenção não tem sido a ideal e a nível nacional há grandes assimetrias. O colégio sabe que os dermatologistas se encontram fixados sobretudo na orla costeira e nos grandes centros, havendo grande carência no interior e no sul do país. Se o SNS conseguisse reter os dermatologistas que se formam todos os anos muito provavelmente estes seriam suficientes para suprir as necessidades nacionais”, justifica Joana Cabete.Na resposta ao DN, a ACSS destaca que “a taxa de retenção de médicos recém-especialistas em dermatologia (agora dermatovenearologia) no SNS registada em março de 2026, para os médicos que terminaram a sua formação de internato médico em 2025, foi de 85%”, não revelando a taxa de retenção de anos anteriores. Por outro lado, destaca que a média de idades destes médicos, nos últimos anos, é de 48,5 anos.Problema não é só a falta de médicos, mas as horas que trabalham no SNSO representante dos administradores, Xavier Barreto, assume : “É claro que há falta de dermatologistas no SNS, senão houvesse não precisávamos de fazer produção adicional em consulta e cirurgia fora de horas, com todas as consequências que daqui decorrem em termos de qualidade e de custos. Portanto, os médicos que temos são absolutamente insuficientes”. Mas, para Xavier Barreto, além deste problema há um outro: “O número de horas que cada um tem contratualizado com o SNS, porque há cada vez menos dermatologistas com horários de 40 ou de 35 horas semanais nos hospitais do SNS. A maior parte, tem contratos de dez, 20 ou 28 horas. Não há uma regra”. Ou seja, “têm contratos de tempo parcial. Por isso, não basta contar cabeças, é preciso olhar paras as horas que fazem, sendo que hoje a dermatologia, tal como outras especialidades, está cada vez mais diferenciada em áreas”.A presidente do colégio, Joana Cabete, reconhece que “os médicos dermatologista dividem-se cada vez mais entre o serviço público e os setores privado e social”, mas também porque, clarifica, “houve uma mudança grande na sociedade desde a pandemia. A população está mais informada e procura cada vez mais cuidados em dermatologia. Por outro lado, a especialidade atingiu grande diferenciação nos últimos anos. E os dermatologistas também não são diferentes dos médicos de outras especialidades e querem cada vez mais conciliar a vida profissional com a pessoal”. No entender da médica, qualquer solução para atenuar os tempos de espera dos utentes tem de ter em conta “as condições existentes no SNS para conseguir reter médicos”.Xavier Barreto reforça que há muito que a APAH tem vindo a alertar para a necessidade da criação de condições por parte do SNS para reter e fixar mais médicos, como diz, “na dermatologia e noutras especialidades”, mas também reforça que “as unidades têm de tentar criar condições que permitam priorizar os doentes”. Esta semana foi publicado em Diário da República o Despacho nº. 5965/2026, de 11 maio, que define o número de vagas para recém-especialistas em todas as áreas. Para Dermatologia, foram lançadas 35 em 23 Unidades Locais de Saúde (ULS) de norte a sul do país. A ULS do Alentejo Central, região mais afetada pela falta de dermatologistas, tem duas vagas por ocupar, a do Algarve, também muito deficitária, igualmente. O mesmo número foi lançado para as ULS de Almada-Seixal, Lezíria, São José, Trás-os-Monte, Braga e Viseu-Dão e Lafões. As restantes ficaram só com uma vaga, a saber: IPO de Lisboa, Arrábida (Setúbal), Cova da Beira, Aveiro, Leiria, Castelo Branco, Coimbra, Gaia-Espinho, Lisboa Ocidental, Loures-Odivelas, Santo António, São João, Alto Ave, Alto Minho, Estuário do Tejo e Nordeste. E só a ULS de Santa Maria, em Lisboa, conseguiu lançar três vagas. Mas, como referem ao DN, “no fim do dia é preciso que todas estas vagas sejam preenchidas”.Recorde-se que a falta de médicos dermatologistas não está a afetar só o serviço público, mas também o setor privado, sobretudo os que trabalham com seguros, como o DN também noticiou esta semana. Precisamente, porque há cada mais médicos a recusar trabalhar com este sistema. Neste caso, parece que o que está mesmo em causa é o preço que as seguradoras estão a pagar aos médicos, que não estão a ter em conta “ a diferenciação dos cuidados”..Há cada vez menos dermatologistas a trabalhar com seguros. Esperas por consulta podem chegar aos oito meses