Doenças cardíacas e a covid-19. O vírus pode afetar o coração?

Estudos recentes indicam uma possível relação entre a covid-19 e o aumento do risco cardiovascular. O médico Rui Baptista explica as possíveis razões e coloca dúvidas sobre os resultados.

"Temos uma população que na sua maior parte foi exposta a um vírus, então é expectável que o número de doentes com problemas cardiovasculares possa vir a aumentar", este é o comentário que o médico cardiovascular Rui Baptista faz aos mais recentes estudos observacionais que associam a covid-19 ao agravamento de doenças cardiovasculares.
Depois de mais de dois anos de pandemia e milhões de casos em todo o mundo, é comum questionar: "Mas, afinal, como é que coronavírus no pode afetar o sistema cardiovascular?"

A verdade é que a resposta é mais complicada do que parece. Contudo, um recente artigo da revista científica Nature, publicado esta terça-feira, sugere que as pessoas que contraíram covid-19 podem enfrentar um risco maior de sofrer problemas cardiovasculares durante vários meses após o período de infeção.

Perante estes resultados, o DN questionou um médico cardiologista sobre se esta situação clínica também já foi detetada em Portugal. Rui Baptista, professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e diretor do Serviço de Cardiologia do Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga, explica que "a covid-19 foi uma sindemia, isto é, fez com que muitos doentes que em condições normais teriam a sua vigilância cardiovascular estabelecida e teriam sido tratados durante todo o período da pandemia, não identificassem alguns problemas". Assim sendo, "é natural que muito do que não foi feito anteriormente agora se revele com a apresentação de patologias clinicamente exuberantes".

Porém, ainda que a falta de diagnósticos durante a pandemia tenha piorado a situação, Rui Baptista sublinha que "temos de ter sempre em consideração que possivelmente as pessoas que tiveram formas mais graves de covid-19 também seriam à partida aquelas que, não tendo a doença, poderiam vir a desenvolver problemas cardiovasculares mais frequentemente no futuro - quer por serem mais idosas ou por terem um sistema imunitário com características particulares".

Segundo a análise da revista Nature, "quem contraiu covid-19 tem um risco maior de sofrer de 20 condições cardiovasculares - incluindo problemas cardíacos e AVC - até um ano após a infeção com o coronavírus". Os investigadores, citados pela revista, consideram que "estas complicações podem acontecer mesmo em pessoas que parecem ter recuperado completamente de uma infeção leve".

Tendo em conta estudos de caso realizados pelo Departamento de Assuntos de Veteranos dos Estados Unidos, "para algumas condições, tais como inchaço do coração e coágulos nos pulmões, o risco aumentou pelo menos 20 vezes em comparação com o das pessoas não infetadas. Até mesmo as pessoas que não foram hospitalizadas aumentaram o risco de contrair muitas doenças, variando entre um aumento de 8% na taxa de ataques cardíacos e um aumento de 247% na taxa de inflamação cardíaca".

Também de acordo com dados do Serviço Nacional de Saúde de Inglaterra (NHS), as pessoas que foram hospitalizadas com covid-19 tinham cerca de três vezes mais probabilidades (em relação a quem nunca contraiu o coronavírus) "de enfrentar grandes problemas cardiovasculares dentro de oito meses após a sua hospitalização". Conforme este estudo, "os indivíduos com alta hospitalar após a covid-19 aumentaram as taxas de disfunção múltipla de órgãos em comparação com o risco esperado na população em geral".

Para Rui Baptista, a associação entre a covid-19 e os problemas cardiovasculares é incerta. "Ainda não se sabe ao certo o porquê desta associação. Sabemos que o coronavírus pode afetar o coração de forma inflamatória - daí as miocardites que acontecem bastante durante a pandemia. Pode haver uma ligação fisiopatológica entre uma coisa e outra, mas não há nada certo ainda. Uma infeção covid prévia pode realmente ser um fator de risco para desenvolver doença cardiovascular. No entanto, esta é uma associação que nós não temos nexo de causalidade, ou seja, observamos em estudos mas não temos a certeza absoluta que uma coisa cause a outra", esclarece.

"Preocupa-me os doentes que ficaram para trás durante a pandemia e cujos problemas não foram identificados e tratados. A incapacidade de tratar os doentes a tempo faz com que provavelmente tenhamos um grupo de pessoas que apresentem no futuro um aumento da incidência cardiovascular", acrescenta.

Face aos sintomas prolongados pós-covid, o médico recomenda que "quando as pessoas notam que depois de uma infeção têm sintomas que não seriam expectáveis como dor no peito, falta de ar ou desmaios, devem consultar o seu médico".

Ainda assim, por entre as incertezas deste vírus, uma coisa é garantida: "As vacinas reduzem a probabilidade de desenvolver sintomas graves". Logo, "as pessoas vacinadas poderão ter menos incidência e complicações a longo prazo".

ines.dias@dn.pt

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