Campus da Nova SBE, em Carcavelos, custou 54 milhões de euros e foi todo financiado por meios privados, em parte graças ao grande dinamismo de Pedro Santa Clara.
Campus da Nova SBE, em Carcavelos, custou 54 milhões de euros e foi todo financiado por meios privados, em parte graças ao grande dinamismo de Pedro Santa Clara.Arquivo Global Imagens

"Divórcio" da Nova SBE? Pedro Santa Clara propõe independência total após "ato hostil" da Reitoria

A imposição do nome em português gera uma crise sem precedentes na Universidade Nova. Pedro Santa Clara, que liderou o projeto do Campus da Nova SBE, classifica a decisão do reitor como "caso de inveja" e defende divórcio imediato da faculdade.
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Pedro Santa Clara defende que a Nova SBE deve "envidar todos os esforços para sair da Universidade Nova de Lisboa e transformar-se num Instituto Universitário Independente", diz ao DN. Reagindo ao despacho do reitor Paulo Pereira — que classifica como um "ato gratuito, hostil e que causa um profundo dano à escola e à sua marca" — o professor catedrático sustenta que a separação é a única via para proteger o investimento de 54 milhões de euros feito no campus de Carcavelos.

Em causa está o decreto do novo reitor Paulo Pereira, que determina a obrigatoriedade de as faculdades e institutos que integram a Universidade Nova de Lisboa utilizarem prioritariamente as suas denominações em língua portuguesa em todas as comunicações oficiais e internas. Segundo o despacho, o uso exclusivo de nomes em inglês — como é o caso da Nova School of Business and Economics (SBE) — fica agora restringido a contextos estritamente internacionais, uma decisão que visa, segundo a Reitoria, a valorização da língua nacional no Ensino Superior público, mas que para os críticos representa um retrocesso de décadas na estratégia de internacionalização das unidades orgânicas.

Para Santa Clara, esta imposição é a prova de que a Nova SBE deve seguir o seu próprio caminho, alegando que a faculdade possui "escala, meios financeiros e uma marca internacional fortíssima" que a tornam independente de uma estrutura que, na sua visão, "tem uma qualidade mais fraca" e "menos projeção". Na sua perspetiva, a atual ligação à universidade "não acrescenta, reduz, subtrai", o que transforma a saída num "divórcio que deixa ambas as partes melhores", permitindo que a escola se liberte do que considera ser um entrave que "puxa a escola para baixo".

A sombra da política e da "inveja"

Para o mentor do campus de Carcavelos, a decisão de impor o uso do nome em português não é uma questão meramente administrativa, mas sim ideológica. Santa Clara aponta que "temos um reitor que foi eleito por um conselho geral da universidade e está controlado por alguns setores da extrema-esquerda, da Faculdade de Ciências Sociais Humanas e outras da universidade".

Na sua leitura, o atual cenário resulta de uma convergência de interesses contra o sucesso da escola. "Quer por razões políticas, quer por razões de inveja, querem resumir a Nova SBE", afirma o professor, classificando a medida como um "capricho" de um reitor que procura uma "manifestação de força" sem qualquer razão estratégica subjacente.

O professor sublinha que o êxito da faculdade de economia — que este ano recebeu 1600 alunos internacionais e mantém dois mestrados no topo do Financial Times — é visto com incómodo nos corredores da reitoria. "Isso obviamente é uma pedra no sapato para alguns dos professores da universidade. E que, agora tendo tomado o controlo da reitoria, acham que podem prejudicar a Nova SBE de uma forma escusada, de uma forma absurda", argumenta.

Santa Clara reforça ainda o abismo que separa a escola de Carcavelos das restantes unidades orgânicas da instituição. "A Nova SBE é um caso único em Portugal. Não há nenhuma outra faculdade com a projeção internacional que esta tem. Certamente não há nenhuma outra faculdade dentro da Universidade Nova de Lisboa que seja minimamente semelhante", conclui.

O valor do branding e o mercado global

A defesa do nome Nova School of Business and Economics assenta numa estratégia consolidada há duas décadas. "Esta denominação passou a usar-se há 20 anos. Isto não é um tema de agora", recorda Santa Clara, sublinhando que se fez "um investimento muito grande numa marca, num campus e em toda uma estratégia internacional". Para o professor, "Portugal não era minimamente um destino evidente para um estrangeiro vir estudar" e uma escola com nome português "a priori, não é convidativa".

O catedrático contesta as comparações com instituições como a Sorbonne ou o ETH de Zurique, argumentando que a marca alemã é conhecida pela sigla porque o seu nome "é impronunciável para qualquer pessoa que não saiba falar alemão". Defendendo o caminho percorrido, Santa Clara é taxativo: "A pergunta que se põe agora é: deve-se reverter? Isso é que tem um custo absurdo. Não pode vir alguém de fora, e só porque sim, dizer que vamos estragar todo o caminho que foi feito".

Um compromisso de 54 milhões de euros

Um dos pontos de maior tensão é o financiamento do Campus de Carcavelos, que custou 54 milhões de euros suportados por empresas, fundações e doadores privados. Santa Clara enfatiza que o despacho do reitor representa "quebrar um compromisso com alunos, antigos alunos e as pessoas que financiaram" o projeto, lembrando que "o Estado não fez esse investimento".

Para o mentor do campus, a decisão ignora a realidade prática do marketing institucional em favor de opiniões subjetivas. "Haver mil e uma pessoas que tenham opiniões sobre nomes é uma coisa vulgar no marketing. Toda a gente tem uma opinião sobre tudo", afirma, reforçando que a estratégia da escola não deve ser determinada por "capricho de um reitor que acabou de tomar posse".

Uma pedra no sapato da Reitoria

A conclusão de Santa Clara é que a convivência se tornou insustentável. "A SBE deveria ser consequente e sair da Universidade Nova de Lisboa. Acho que ficamos ambos melhores. É um divórcio que deixa ambas as partes melhores", defende. Na sua ótica, a faculdade tem hoje "escala, meios financeiros, relações com empresas e uma marca internacional fortíssima", tendo todas as condições para se tornar um Instituto Universitário Independente.

O professor não esconde o desalento por ver este conflito surgir na instituição a que dedicou grande parte da carreira: "Sou uma pessoa que esteve muito envolvida com a escola durante muitos anos, sou antigo aluno, gosto muito da escola e gosto muito pouco de assistir a que uma coisa destas aconteça à minha frente." Para Santa Clara, a separação é o passo lógico perante uma reitoria que "não acrescenta, reduz, subtrai" ao valor da Nova SBE.

O DN já contactou a reitoria da Universidade Nova de Lisboa para obter uma reação, e aguarda uma resposta do reitor Paulo Pereira.

PERFIL: QUEM É PEDRO SANTA CLARA

Pedro Santa Clara é professor catedrático na Universidade Nova de Lisboa e uma das figuras mais influentes no percurso recente da Nova School of Business and Economics. Antigo aluno da instituição, desempenhou um papel determinante na expansão e internacionalização da escola, tendo sido o mentor e principal impulsionador do novo campus de Carcavelos, financiado integralmente por fundos privados. Atualmente, o docente foca a sua atividade nos projetos educativos Escola 42 e Tumo em Portugal, mantendo-se na academia sem o exercício de cargos executivos ou diretivos na estrutura da universidade.

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