Na semana passada, os serviços de cardiologia de quatro hospitais do Norte - Santo António, Vila Real, Penafiel e Matosinhos - escreveram à ministra da Saúde, Ana Paula Martins, a alertar para as listas de espera de cardiologia na área cirúrgica e na implantação de válvulas da aórtica, dizendo que “há doentes em risco”, “com mais complicações” e até com “consequências fatais” nos últimos anos, por falta de capacidade de resposta dos centros de referência que funcionam nos hospitais de Vila Nova de Gaia e São João, que se “encontram sobrecarregados”, dizem.Em setembro, o serviço de Cardiologia do Hospital de Santo António pediu ao Ministério da Saúde, através dos gabinetes dos secretários de Estado, e à Direção-Geral da Saúde (DGS) um parecer sobre a criação de uma unidade cirúrgica e de implantação da aórtica nas suas instalações, dado ser um hospital central e universitário e ter “infraestruturas e competências técnicas” para realizar tais procedimentos. Na altura, e como o DN já noticiou, os gabinetes dos secretários de Estado, Rocha Gonçalves e Ana Povo, pediram informação à DGS, que ouviu a coordenação do Programa Nacional das Doenças Cérebro Vasculares, e acabou por emitir a sua posição, dizendo nada ter a opor do ponto de vista técnico, já que o parecer da DGS reconhecia que “o atual modelo organizativo apresenta limitações significativas” e que seria fundamental a criação de uma unidade deste tipo que funcionasse em pareceria com os dois centros de referência existentes na região, nos hospitais de Vila Nova de Gaia e São João. Só que a unidade não avançou. O Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde Santo António (ULSSA), liderada por Paulo Barbosa, não explica porquê e a Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde (DE-SNS) mantém o silêncio sobre o tema.Mas, nesta segunda-feira, dia 23, a DGS, em resposta ao DN, assume que quer reavaliar o modelo de centros de referência de Cardiologia e de outras áreas complexas, dizendo: “Sendo a cirurgia cardíaca uma área de elevada diferenciação, a DGS considera necessário reavaliar o modelo de centros de referência, nesta e noutras áreas de elevada complexidade, de forma a garantir que os doentes beneficiem do melhor tratamento possível”. Uma posição que vem no sentido do parecer emitido em setembro quando foi abordada pela equipa do Santo António sobre a possibilidade da criação de uma unidade cirúrgica e de implantação de válvulas, devido às listas de espera que estavam a aumentar - segundo o diretor do serviço de cardiologia de Santo António só no ano passado foram drenados para o centro de Gaia 250 doentes. Modelo organizativo atual tem "limitações relevantes" A DGS explica ainda ao DN, tal como referia no parecer assinado pela diretora-geral, Rita Sá Machado, que “o modelo organizativo atualmente em vigor apresenta limitações relevantes” e que a “sua superação exige uma articulação institucional estreita e uma solução consensual e sustentável, que tenha em conta a escassez de recursos humanos altamente diferenciados - nomeadamente cirurgiões cardíacos - e a pressão assistencial existente nas unidades que já prestam este tipo de cuidados”. E foi neste sentido que propôs à tutela, à DE-SNS e à ULSSA “a possibilidade de implementação de um modelo organizacional em rede. Este modelo assentaria num centro de referência que cumpra integralmente os requisitos normativos e num centro afiliado (ULSSA), permitindo o intercâmbio de profissionais e a realização articulada da atividade assistencial. Tal solução assegura uma resposta clínica atempada e segura, evitando a necessidade imediata de criar uma nova estrutura autónoma”. .Hospitais do Norte alertam ministra para listas de espera em cirurgia cardíaca: “Há doentes em risco”. Aliás, de acordo com a DGS, "modelo deste tipo até possibilitaria uma resposta assistencial atempada e segura aos doentes, evitando-se a necessidade de abertura de uma nova estrutura autónoma” - ou seja, de um novo centro de referência já que, neste momento, o Norte tem três (Gaia, São João e Braga, que arrancou em janeiro), embora haja profissionais que defendam que há espaço para mais um, pelo menos, já que as normas internacionais indicam um centro de referência por milhão de habitantes. No entanto, é precisamente a ideia de que se pode criar um novo centro de referência que tem estado a gerar polémica. A Ordem dos Médicos discorda. Isto mesmo foi assumido ao DN pelo presidente do Colégio da Especialidade de Cirurgia Cardio-Torácica, José Neves, que defende que a Rede de Referênciação deve ser cumprida. O bastonário também já se manifestou contra a criação de mais centros de referência que possam não ter os requisitos exigidos pelas normas internacionais. Mas o diretor de Cardiologia do Santo António explicou anteriormente ao DN que o que estava em causa não era a criação de um centro de referência, mas sim de “uma unidade de cirurgia com implantação de válvulas da aórtica, que permitisse tratar os nossos doentes e outros, comecemos por aqui para reduzirmos as listas de espera, depois logo se discute se integramos ou não a rede de referenciação”. Recorde-se, e como o DN já o referiu, a criação de uma unidade de cirurgia cardíaca no Santo António foi aprovada pela primeira vez pelo ministro Paulo Macedo, no governo de Passos Coelho, mas esta decisão foi revogada logo a seguir pelo governo de António Costa. “E desde essa altura que é o deserto, nada avança”, afirmou também o diretor de cardiologia do Santo António. Na semana passada, o gabinete de Ana Paula Martins assumiu ao DN que “o despacho realizado (pelos secretários de Estado) manifesta a não oposição à criação da referida unidade, caso essa unidade viesse a acontecer mediante deliberação do Conselho de Administração”, dizendo que a criação desta é da “competência do Conselho de Administração das ULS e IPO”. No entanto, a ULSSA não explica o porquê de a unidade não avançar, dizendo apenas ao DN que “subscreve a posição dos seus médicos”. .Ministério quer “soluções urgentes” para resolver listas de espera na cardiologia do norte. Na resposta, o MS assumia ainda que “havendo listas de espera acima do TMRG, é fundamental que os órgãos competentes, avaliem todas as soluções desde que, naturalmente sustentadas pelas melhores práticas clínicas e suportadas pelos peritos. Tais soluções envolvem sempre a DGS, a DE-SNS e o Ministério da Saúde”. E que iria solicitar “aos órgãos já referidos para que se apresentassem soluções urgentes para estes doentes”, mas doentes do norte aguardam respostas. Intervenções em cardiologia podem "aumentar significativamente"No seu parecer, a DGS fundamentava também a sua decisão por ser expectável que as intervenções na área cardiológica “aumentem de forma significativa nos próximos anos”, devido à evolução demográfica no país. Por isso mesmo, e como referiu ao DN, “é relevante e fundamental que seja criada uma rede metropolitana de cirurgia cardíaca, capaz de assegurar integração funcional entre unidades, otimização de recursos humanos e técnicos, redução da sobrecarga dos centros centrais e maior previsibilidade na resposta assistencial”. Fonte da ULS de Gaia/Espinho, que pediu o anonimato, defendeu na semana passada ao DN que a haver investimentos da parte da tutela estes teriam de ser feitos nos centros de referência, justificando-se com o aumento da atividade. “O Centro de Referência de Cirurgia Cardio-Torácica realizou 1420 cirurgias cardíacas durante 2025, correspondendo a um dos maiores volumes de atividade a nível nacional”. Em relação à lista de espera, “há apenas até há data 171 doentes para cirurgia cardíaca eletiva”. A mesma fonte garantiu que “os doentes são inscritos em lista de espera de acordo com a prioridade clínica definida pelas normas nacionais e que tempo médio de espera atual é de 2,35 meses, com mediana de 2,3 meses, valores que se encontram dentro dos padrões assistenciais esperados para este tipo de atividade altamente diferenciada”. No entanto, esta informação foi contrariada por colegas d outros hospitais, embora a DGS e a DE-SNS ainda não tenham confirmado qual o número de doentes em lista de espera e o tempo. Para a fonte de Gaia, “os resultados clínicos obtidos pelo centro são excelentes” e refletem “a experiência acumulada das equipas e o elevado volume de atividade desenvolvido”. A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, vai estar nesta terça-feira em audição regimental na Comissão Parlamentar da Saúde, e este tema deve ser abordado, embora na agenda estejam apenas requerimentos do CH, sobre a produção adicional na ULS Santa Maria; do PS, sobre as vagas por preencher no internato médico; e um outro do PCP, sobre o sistema de emergência médica”..Ordem dos Médicos exige que Direção Executiva averigue mortes ocorridas em listas de espera de cardiologia no Norte