Desigualdade salarial “não é tema feminista, mas de racionalidade económica”, diz economista do Banco Mundial

Em entrevista ao DN, Joana Silva, professora da Universidade Católica, analisa a diferença salarial entre homens e mulheres em Portugal, que ronda os 15% e pode chegar aos 30% em cargos de gestão.

Sempre atual, o tema da desigualdade no mercado de trabalho volta ao centro do debate com ainda mais força quando se assinala o Dia Internacional da Mulher, celebrado este domingo, 8 de março - uma data que, antes de ser comemorativa, está historicamente ligada à reivindicação de direitos e à igualdade de género.

Em Portugal, diga-se, a diferença salarial entre homens e mulheres continua a ser significativa, rondando os 15% e podendo aproximar-se dos 30% quando se analisam cargos de gestão e funções de topo. Os dados foram destacados por Joana Silva, professora da Universidade Católica e deputy chief economist do Banco Mundial, em entrevista ao DN.

"Muitas vezes este gender gap é calculado já controlando para as diferenças entre o tipo de ocupações que as pessoas têm. A pessoas com a mesma ocupação, trabalhando no mesmo setor de atividade, qual é a diferença de pagamento que tem”, afirma. Segundo a economista, trata-se de uma diferença relevante mesmo quando se comparam trabalhadores em funções semelhantes.

Uma das dinâmicas mais evidentes na evolução das carreiras está associada ao nascimento do primeiro filho. De acordo com Joana Silva, os salários de homens e mulheres tendem a evoluir de forma semelhante no início da vida profissional, mas esse padrão altera-se nesse momento.

É o que se chama child penalty”, explica. “A partir daí, os [salários] dos homens continuam na mesma trajetória, mas os das mulheres ficam numa trajetória pior”. A diferença salarial tende então a aumentar, acompanhada também por mudanças na participação das mulheres no mercado de trabalho.

A economista aponta ainda vários fatores para este fenómeno, desde normas sociais a forma como o trabalho doméstico é distribuído, passando pelas condições institucionais e até pela disponibilidade de apoio à parentalidade.

Aspectos como as normas sociais, a cultura e também aspectos como o apoio que as mulheres podem ter para participar no mercado de trabalho e o preço desse apoio, por exemplo, dessas creches de qualidade, jogam um papel muito importante".

Últimos anos apresentam melhora no país

No contexto europeu, Portugal não apresenta a maior desigualdade salarial, mas continua acima de níveis considerados desejáveis. “15% quer dizer que, em cada ano, é como se as mulheres, em 1,5 meses, trabalhassem sem receber”, explica Joana Silva, sublinhando que a diferença se torna mais visível nas posições de maior responsabilidade. “O facto de nos níveis mais altos de qualificação para profissões parecidas de gestão, de topo, haver essa ainda maior diferença deve-nos fazer refletir".

Nos últimos anos, porém, registou-se alguma evolução positiva. Portugal apresenta uma elevada participação feminina no mercado de trabalho, algo que a economista associa, em parte, ao nível de qualificação das mulheres portuguesas. “As mulheres portuguesas são muito educadas, são muito capazes e são muito independentes, digamos, é um país moderno".

Para Joana Silva, a discussão não deve ser vista apenas como uma questão social, mas também económica. “Se não tivermos a aproveitar o potencial deste capital humano das mulheres, estamos a deitar, é como se deitássemos ao mar, em cada ano, uma larga percentagem do nosso produto interno bruto”, afirma.

“Isto não é um tema feminista, é um tema de racionalidade económica e de altíssima importância para a produtividade do país", conclui.

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