Dependência de álcool quase quadruplicou em Portugal mas só 20% estão em tratamento

Dependência de álcool quase quadruplicou em Portugal mas só 20% estão em tratamento

Falta implementar medidas que permitam "controlar a prevalência de consumos" e, por outro lado, "tratar os doentes", alerta a presidente do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências.
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A dependência de álcool quase quadruplicou em Portugal na última década, mas apenas 20% dos doentes estão em tratamento, alertou este domingo, 4 de outubro, o instituto para as dependências, reconhecendo que o país não tem conseguido travar o problema.

Em entrevista à agência Lusa, a presidente do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD), Joana Teixeira, defendeu a necessidade de reforçar a prevenção, a deteção precoce e o acesso ao tratamento.

Joana Teixeira salientou que Portugal é dos países com maior prevalência de consumo de bebidas alcoólicas e tem uma taxa de dependência de álcool muito elevada, defendendo que os serviços de alcoologia têm de ser capazes de dar resposta a estas situações.

“Aquilo que me parece, nos últimos anos, é que não temos conseguido implementar as medidas necessárias para controlar a prevalência de consumos, por um lado, e por outro lado para tratar os doentes, porque quadruplicou a taxa de prevalência de dependência de álcool nos últimos 10 anos. Isso é grave. É muito grave”, frisou.

Para Joana Teixeira, uma das principais preocupações prende-se com o facto de existir uma diferença significativa entre o número de pessoas com problemas relacionados com o álcool e aquelas que chegam aos serviços de tratamento.

Em média, só 20% dos doentes estão nas unidades de tratamento, elucidou a presidente do ICAD, que assumiu funções dia 1 de janeiro de 2026, substituindo no cargo o médico João Goulão.

Perante o aumento da problemática de consumos de álcool e da procura dos serviços para tratamento das perturbações do uso do álcool comparativamente às outras substâncias, a primeira prioridade do ICAD foi reforçar a capacidade de resposta das unidades de alcoologia.

O ICAD prevê também aumentar a deteção precoce dos casos e o encaminhamento das pessoas identificadas para estruturas de tratamento, quer do ICAD, quer de outras instituições.

O objetivo é garantir que as pessoas que necessitam de intervenção tenham acesso ao acompanhamento adequado, uma vez que muitos dos casos identificados continuam sem tratamento, explicou.

Para isso, as unidades de alcoologia estão a ser reestruturadas, com novos programas de intervenção terapêutica, alguns mais flexíveis e outros mais estruturados, numa tentativa de adaptar o tratamento às necessidades de cada doente.

“Em vez de ser um tratamento padrão igual para todos, a nossa prioridade foi realmente ter um programa de tratamento eficaz, com eficácia clínica comprovada e suficientemente flexível e adaptável às necessidades de cada doente”, disse Joana Teixeira, explicando que esta medida “melhora muito a qualidade de intervenção das unidades de alcoologia”.

A presidente do ICAD defendeu também uma maior integração dos cuidados e articulação com outras instituições, nomeadamente com as Unidades Locais de Saúde (ULS).

Notou, por outro lado, que continua a existir falta de consciencialização de que a dependência do álcool é uma doença que, depois de detetada e diagnosticada, necessita de tratamento adequado.

Entre os jovens, uma das preocupações do ICAD é o consumo episódico excessivo de álcool, conhecido como ‘binge drinking’, que está muitas vezes associado a mal-estar psicológico e emocional.

Os dados mais recentes mostram uma diminuição de vários indicadores de consumo de álcool entre os jovens, embora persistam sinais de preocupação relacionados com episódios de embriaguez e problemas associados ao consumo.

Joana Teixeira defendeu que quanto mais tarde se iniciar o consumo de álcool, melhor, devido aos efeitos do álcool no desenvolvimento cerebral.

“O álcool, como é neurotóxico, vai acabar por influenciar a capacidade de maturação neuronal e cognitiva”, afirmou, acrescentando que, enquanto o cérebro não estiver completamente formado, “qualquer ingestão de álcool é particularmente grave no desenvolvimento do cérebro”.

O ICAD mantém programas de prevenção para jovens e pretende envolver também escolas, famílias e outras entidades na promoção da saúde, considerando que a resposta aos problemas relacionados com o álcool e com outras dependências não pode ficar limitada aos serviços de saúde.

O instituto está também a apostar na literacia sobre comportamentos aditivos, incluindo junto dos profissionais de saúde, para aumentar a capacidade de deteção precoce.

Joana Teixeira considera que ainda existe pouca consciência de que os comportamentos aditivos abrangem não apenas as substâncias ilícitas, mas também o álcool, o jogo, os videojogos e a utilização problemática da internet.

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