Entrar num hospital, responder a algumas perguntas, medir os sinais vitais e, poucos segundos depois, ser encaminhado para a especialidade adequada com o apoio de inteligência artificial. Receber um exame imagiológico e ter, quase de imediato, uma proposta de relatório pronta a ser validada pelo radiologista. Acompanhar toda a atividade do hospital, desde as consultas às cirurgias, a partir de um centro de comando que monitoriza, em tempo real, o funcionamento de diferentes unidades de saúde.Esta não é uma visão futurista nem um projeto experimental. É uma realidade que já está a ser implementada em vários hospitais chineses e que surpreendeu os cirurgiões oncológicos portugueses Paulo Simões e Pedro Gouveia, durante uma visita técnica a algumas das unidades de saúde mais avançadas de Guangzhou e Xangai, cidades que estão entre as principais referências da estratégia chinesa para a inteligência artificial aplicada à medicina.A deslocação teve um objetivo muito concreto: perceber como a tecnologia está a transformar o funcionamento diário dos hospitais e de que forma pode ajudar a responder à crescente pressão sobre os sistemas de saúde. "O nosso objetivo foi visitar hospitais que estão a desenvolver aquilo a que chamam Smart and Digital Hospitals, para perceber como utilizam estas tecnologias na triagem, nos exames complementares de diagnóstico, na imagiologia e no apoio clínico. Tivemos oportunidade de ver tudo isso no terreno", explica Paulo Simões. A primeira impressão foi a escala. "Estamos a falar de hospitais com cerca de 1200 camas que tratam aproximadamente um milhão de doentes por ano. É uma dimensão completamente diferente da nossa, mas existe uma enorme preocupação em conseguir responder rapidamente às necessidades dos doentes", afirma..Apesar de partilharem a mesma estratégia nacional, os dois médicos encontraram diferentes níveis de maturidade tecnológica entre hospitais. "Percebemos que mesmo na China estas tecnologias estão em fases diferentes de desenvolvimento. Uns hospitais estão mais avançados do que outros, mas todos caminham na mesma direção."Essa direção acompanha a estratégia definida pelas autoridades chinesas, que identificaram a inteligência artificial como um dos pilares do desenvolvimento do país e colocaram a saúde entre os setores prioritários. Xangai, por exemplo, aprovou recentemente um plano para acelerar a criação de hospitais inteligentes, reforçando a utilização da inteligência artificial na decisão clínica, na gestão hospitalar, na imagiologia e na investigação biomédica.Mas aquilo que mais impressionou Paulo Simões não foram os computadores nem os algoritmos. Foi a forma como toda a organização hospitalar foi redesenhada para ganhar tempo.A inteligência artificial começa a trabalhar quando o doente entraAo contrário do que acontece em muitos países ocidentais, uma parte significativa dos hospitais visitados não funciona com consultas previamente marcadas. Quando um cidadão precisa de cuidados, dirige-se ao hospital, onde o primeiro desafio passa por encaminhar rapidamente milhares de pessoas para a especialidade correta.É precisamente aí que a inteligência artificial entra em ação. "O doente chega ao hospital, responde a algumas perguntas feitas pelo enfermeiro, são avaliados alguns sinais vitais e, com base nessa informação, o sistema calcula quais são as hipóteses de diagnóstico e sugere imediatamente para que área deve ser encaminhado", explica Paulo Simões.O objetivo é reduzir tempos de espera e evitar que o doente percorra sucessivos serviços até encontrar o local adequado. Mas o cirurgião faz questão de esclarecer um ponto. "Em nenhum dos sistemas que vimos existe inteligência artificial a funcionar sozinha. Há sempre validação por parte de um profissional de saúde ou de um médico relativamente àquilo que o sistema propõe." Ou seja, a tecnologia não substitui a decisão clínica. Funciona como uma ferramenta de apoio.Pedro Gouveia encontrou exatamente a mesma realidade. "O doente chinês, quando está doente, vai ao hospital. Não precisa de fazer uma marcação. Existem sistemas automáticos de triagem com inteligência artificial que ajudam a encaminhar rapidamente os doentes para o serviço ou para a consulta da especialidade respetiva", explica. A aceitação por parte da população parece estar completamente normalizada. "Eles aceitam isso perfeitamente. Funciona assim de forma absolutamente natural.".Radiologia em segundosSe a rapidez da triagem impressionou os dois médicos portugueses, a velocidade com que os exames imagiológicos são processados foi ainda mais marcante.Nos serviços de radiologia que visitaram, a inteligência artificial analisa automaticamente as imagens logo após a sua realização. Identifica potenciais lesões. Assinala zonas suspeitas. Propõe um relatório preliminar. E só depois entra o radiologista. "O sistema faz a análise das imagens, identifica lesões e produz imediatamente um primeiro relatório. Depois a radiologista valida, altera se necessário, e o relatório fica concluído", descreve Paulo Simões. O processo demora apenas alguns segundos. "Estamos a falar de uma realidade em que temos as imagens praticamente de imediato, poucos segundos depois existe uma proposta de relatório e, logo a seguir, o médico faz a validação."Pedro Gouveia recorda outro exemplo observado em Xangai. "Mesmo que um exame esteja a ser realizado para estudar uma determinada doença, se o sistema identificar outra alteração importante, como uma fratura ou uma lesão pulmonar, emite automaticamente um alerta para o radiologista." A inteligência artificial funciona, assim, como um segundo olhar permanente sobre cada exame. Sem substituir o especialista.A literatura científica tem vindo a confirmar este potencial. Diversos estudos internacionais demonstram que sistemas de inteligência artificial conseguem identificar alterações em exames de imagem com elevada sensibilidade, funcionando sobretudo como ferramentas de apoio ao radiologista, reduzindo o risco de omissões e acelerando a resposta clínica. Também a Organização Mundial da Saúde reconhece o potencial destas tecnologias para reforçar os cuidados de saúde, desde que exista supervisão humana, transparência e mecanismos de segurança adequados.É precisamente essa supervisão que Pedro Gouveia considera essencial. "A decisão continua sempre nas mãos do médico."Um centro de comando que acompanha tudo o que acontece no hospitalA inteligência artificial não termina o seu trabalho depois do diagnóstico. Nos hospitais visitados pelos dois cirurgiões portugueses, a tecnologia prolonga-se por praticamente todo o percurso do doente e chega mesmo à gestão diária das unidades de saúde.Uma das visitas levou-os a um centro de comando onde era possível acompanhar, em tempo real, a atividade de vários hospitais pertencentes à mesma rede. Num enorme painel digital, médicos e gestores observavam o número de consultas em curso, as cirurgias a decorrer, os tempos de espera e os indicadores de funcionamento de cada unidade. "Aquilo que vimos foi um verdadeiro centro de comando. Conseguem analisar o funcionamento de todos os hospitais da rede, perceber o que está a acontecer em cada um deles, acompanhar consultas e cirurgias e, depois, descer ao detalhe de um único hospital, de um único serviço ou até de um bloco operatório", descreve Paulo Simões. Essa monitorização permanente permite identificar rapidamente atrasos ou estrangulamentos. "Isto possibilita perceber onde existem bloqueios e onde é possível melhorar a resposta. O foco deles é eliminar tempo que não acrescenta valor ao doente."Para um cirurgião habituado à realidade hospitalar europeia, foi precisamente essa obsessão pela eficiência que mais sobressaiu. "A preocupação deles é responder melhor porque conseguem fazer mais diagnósticos e mais relatórios em menos tempo."Essa filosofia estende-se igualmente ao próprio percurso administrativo do doente. Enquanto muitos hospitais continuam a exigir vários passos antes da primeira observação clínica, nas unidades visitadas o processo foi simplificado ao máximo. "Estão muito habituados a utilizar o telemóvel para tudo. O doente faz praticamente o registo à chegada através do telefone. Em poucos segundos está identificado e imediatamente encaminhado para a triagem", explica Paulo Simões.O primeiro contacto é feito diretamente com um enfermeiro, que recolhe os sinais vitais e introduz a informação clínica necessária para que o sistema proponha o encaminhamento mais adequado. "Eliminaram vários passos administrativos. O objetivo é que o doente seja observado o mais rapidamente possível.".A inteligência artificial acompanha o tratamentoSe a tecnologia já participa na triagem e no diagnóstico, também acompanha a fase seguinte. Embora não tenham seguido o percurso completo de um doente, os dois médicos perceberam que os sistemas de inteligência artificial continuam ativos durante o tratamento. "A perceção que tivemos é que a própria orientação terapêutica pode ser proposta pelo sistema, naturalmente com apoio e confirmação do médico", explica Paulo Simões.A monitorização prolonga-se igualmente depois da alta: "os sistemas que estão a desenvolver permitem fazer acompanhamento remoto e controlar a evolução dos doentes." Pedro Gouveia encontrou outro aspeto que considera diferenciador.Em vários hospitais, o processo clínico eletrónico apresenta toda a chamada "jornada do doente". "No processo clínico existe uma sequência muito clara dos vários passos do tratamento. O médico consegue ver aquilo que já foi realizado, aquilo que está a acontecer e o que ainda falta fazer."A inteligência artificial não se limita a organizar essa informação. Também avalia a qualidade dos próprios registos clínicos. "Se entender que determinada informação não ficou suficientemente completa, o sistema alerta o médico e sugere melhorias. Isto é importante porque sem bons dados não existe boa inteligência artificial", afirma Pedro Gouveia. Segundo o cirurgião, esta transformação aconteceu num período relativamente curto. "Há cerca de dez anos muitos destes hospitais ainda utilizavam processos clínicos em papel. Construíram praticamente toda a infraestrutura digital já a pensar na inteligência artificial e isso explica a rapidez da evolução."O gestor também recebe os alertasOutro dos aspetos que surpreendeu Pedro Gouveia foi a forma como a responsabilidade clínica é partilhada dentro da organização hospitalar. Sempre que um sistema identifica uma situação potencialmente relevante, o alerta não chega apenas ao médico responsável. "O médico recebe o aviso, mas o gestor do hospital também."Esse mecanismo pretende garantir que nenhuma situação importante fica por resolver. "No fundo existe um sistema de responsabilização. O gestor confirma que o médico recebeu aquele alerta e que o processo continua a ser acompanhado."Mais do que controlar procedimentos isolados, o objetivo passa por acompanhar o resultado obtido pelo doente. "Percebe-se que existe uma enorme preocupação com o resultado e não apenas com cada etapa do processo. Essa visão pareceu-me particularmente inovadora."Levar o hospital até onde o hospital não existeA dimensão do território chinês continua, porém, a colocar enormes desafios.Fora das grandes cidades, muitas regiões permanecem distantes dos principais centros hospitalares. Foi precisamente para responder a esse problema que Pedro Gouveia e Paulo Simões conheceram algumas das soluções mais invulgares da viagem.Num dos maiores centros oftalmológicos de Guangzhou, responsável, segundo os próprios responsáveis, por cerca de 1,6 milhões de atendimentos anuais, existem unidades móveis capazes de rastrear autonomamente várias doenças dos olhos. "São unidades que conseguem identificar diferentes patologias oftalmológicas sem necessidade de um oftalmologista estar presente no local", conta Pedro Gouveia.Quando é necessária cirurgia, entra em ação outro recurso que surpreendeu a comitiva portuguesa. "Foi-nos apresentado um avião equipado com dois blocos operatórios que se desloca até regiões remotas. Os doentes entram, são operados e regressam a casa."Esta descrição corresponde ao que foi apresentado aos médicos durante a visita e ilustra a preocupação em encontrar soluções adaptadas à enorme dimensão geográfica do país. Independentemente do modelo utilizado em cada região, a estratégia chinesa aposta cada vez mais na utilização de plataformas digitais, inteligência artificial e unidades móveis para aproximar cuidados de saúde especializados das populações mais afastadas."Há um novo protagonista na inovação"Depois de vários dias a visitar hospitais, Pedro Gouveia regressou com uma convicção. A China deixou de ser apenas um país que acompanha a inovação desenvolvida por outros. Passou a querer liderá-la. "Durante muitos anos olhámos para os Estados Unidos como o grande centro mundial da inovação. Hoje existe um novo protagonista." E identifica-o sem hesitações. "Esse protagonista é a China.".Na saúde, considera, o objetivo é claro. "O primeiro objetivo é cuidar melhor das populações. O segundo é liderar na saúde e na tecnologia."Paulo Simões resume a experiência de forma igualmente direta. "A inteligência artificial está completamente integrada na prática clínica. Não é encarada como uma ameaça nem como um concorrente. É simplesmente mais uma ferramenta ao serviço dos profissionais."É precisamente essa ideia que ambos fazem questão de sublinhar no final da visita.Apesar da rapidez com que a inteligência artificial está a transformar os hospitais chineses, a decisão continua sempre a ser humana. "Em todos os sistemas que observámos, havia sempre validação por parte de um médico ou de outro profissional de saúde", recorda Paulo Simões.Essa foi, talvez, a principal conclusão da viagem: a tecnologia pode acelerar processos, reduzir tempos de espera, apoiar diagnósticos e melhorar a gestão hospitalar, mas continua a ser vista como um instrumento para reforçar o trabalho clínico e não para substituir quem, em última análise, assume a responsabilidade pelo tratamento de cada doente.."A inteligência artificial na medicina não é em 2050. É este ano", defende médico Pedro Gouveia (com vídeo)