Um inverno anunciado, uma carrada de lenha e uma descoberta musical. Eis a trilogia simples que mudou a pacata vida de um inglês que escolheu viver a reforma em Portugal e, ao mesmo tempo, a história da Sociedade Filarmónica Penelense. Em suma, tudo mudou na vida de um concelho com pouco mais de cinco mil habitantes, em que meio milhar são estrangeiros..A história do músico Stephen Rockey e da mulher, Donna, poderia ter sido igual à dos milhares de britânicos, holandeses, belgas ou israelitas que nos últimos anos (re)povoam o interior português, normalmente fechados sobre si (ou, na melhor das hipóteses, da sua comunidade). Mas a vida tinha outros planos para este casal de Bristol que em 2021 escolheu a aldeia de Serrada da Freixiosa para viver. Stephen é desde o início deste ano o novo maestro da banda filarmónica de Penela, depois de ter conquistado o lugar num concurso bastante participado. Foi nessa altura que a direção da coletividade soube quem era, afinal, o inglês que tinha à frente: o arranjador da banda da Força Aérea Real Britânica, compositor conceituado, autor de várias peças para a Rádio e Televisão BBC, bem como para vários dos principais grupos musicais da Grã-Bretanha. Desde o barroco ao contemporâneo, estava à vontade em todos os estilos. Além disso, era professor de Música (desde o nível de iniciação ao mais avançado, tendo lecionado cursos de graduação e pós-graduação na Universidade de Bristol em Composição, Orquestração e Informática para Músicos). Perante o currículo, a direção não teve dúvidas: estava encontrado o novo maestro, a melhor entre as 30 candidaturas, primeiro, e depois entre as quatro finalistas..Nessa altura, antes do Natal, já ele e a mulher tocavam na banda. A descoberta acontecera um ano antes, por obra do acaso: no outono de 2021, poucos meses depois de se mudar para Portugal e para Penela, o casal encomendou uma carga de lenha a um dos vários negociantes da região..Quando Luís Loulé entrou na moradia do casal, em Serradas da Freixiosa, para depositar a lenha, deparou-se-lhe uma divisão cheia de instrumentos: seis trombones, uma tuba, um piano elétrico, uma suzafoner, um bombazino e um teclado. Faltavam ainda as quatro trompas de Donna. E o rapaz, também ele tocador de tuba e membro da direção da Sociedade Filarmónica Penelense, encontrou de imediato ali música para os ouvidos da banda. E desafiou-os a integrarem o grupo. "Logo na sexta-feira seguinte foram ao ensaio", recorda Bernardo Vieira, o jovem estudante de Literatura Francesa que também integra a banda (e os corpos sociais da Sociedade Filarmónica Penelense) e que muitas vezes serve de intérprete. Primeiro foi a surpresa geral -- uns ingleses... -- e depois a descoberta do currículo de Stephen, que acabaria por se tornar maestro..A primeira experiência aconteceu no Natal, quando a banda ficou sem o antigo maestro. Era preciso alguém que assegurasse os concertos de então, e nesse hiato foi o inglês que acedeu ao pedido da direção. A Sociedade Filarmónica Penelense é uma estrutura com vários ramos. Além da banda filarmónica, com 43 elementos (dos 12 aos 65 anos), a coletividade fundada em 1858 divide-se entre o Coral Polifónico, uma orquestra ligeira, um grupo de cante alentejano e, mais recentemente, o ensemble, de que Stephen e Donna também fazem parte. Ensaiam todos no edifício-sede, no centro da vila de Penela, onde o casario arrumado dá sempre ares de presépio o ano inteiro. É uma casa cedida pela autarquia, que respira a história destes 165 anos. Lá dentro não há apenas salas de aula e de ensaios, mas também um salão polivalente para festas e um bar para convívio dos executantes e sócios. Stephen e Donna sentem-se ali em casa, como, aliás, se sentem em Penela -- e em Portugal..Até junho de 2021 o casal britânico, na casa dos 60, morava em Oman, no Médio Oriente, onde ele era professor de Música ao serviço da guarda real e da respetiva orquestra sinfónica. Já ela, funcionária pública, começava a pesquisar no horizonte um lugar para se mudarem. "Por causa da covid-19, aquele foi um tempo complicado. Os professores estavam a ser dispensados. Eu tinha um contrato, mas decidi que aquilo já não era o que eu queria fazer", conta Stephen ao DN, debaixo de uma figueira no pátio dos atores André Louro e Catarina Santana, da Companhia de Teatro da Chanca, com quem a Sociedade Filarmónica Penelense vai trabalhar pela primeira vez este ano, no projeto Dentro da Casa - à Beira da Aldeia, que arranca este domingo em Viavai, freguesia de Espinhal. Explica então a razão que o fez deixar o Reino Unido e que o faz não querer voltar: o Brexit. Mas de política prefere não falar.."Então vendemos a nossa casa no Reino Unido e, para ser sincero, vimos vários sítios: Alemanha, Normandia, Espanha, França, Chipre (norte e sul). Na zona norte de Chipre nós tínhamos condições financeiras para viver, mas por causa da fronteira decidimos não o fazer. Na Alemanha não conseguíamos pagar uma casa. Em França eu conseguia pagar a casa mas não a vida. porque os custos da saúde iam ser muito caros e o meu francês não é bom... Em Espanha não tínhamos condições financeiras para viver ou pagar casa. Em Portugal conseguíamos pagar o estilo de vida e a casa, tínhamos amigos que já cá tinham trabalhado e parecia haver música em todo o lado. E isso, para nós, era muito importante também", explica Donna. Primeiro veio ela, depois de encontrar a casa em Serradas da Freixiosa. À medida que o tempo passava, ia-se encantando com a beleza de Portugal. Veio o verão e pôde ver as bandas (filarmónicas) na rua, nas festas de aldeia, e o acolhimento de que foi alvo. "Aqui percebemos que íamos poder explorar melhor a nossa personalidade em termos musicais, muito melhor do que em Oman", acrescenta ele. Além disso, Penela parecia casar tudo aquilo que há muito procuravam: um estilo de vida calmo, que financeiramente lhes era favorável, e estavam no centro do país. Por isso a adaptação foi muito fácil para ambos. E nem a língua se lhes afigurou como qualquer barreira, uma vez que - à conta de muitos estrangeiros na região - frequentaram aulas de português em Espinhal, de iniciativa privada, como abundam por lá. "Já morámos em vários países e parecia que estávamos sempre no país dos outros e não no nosso. Mas aqui em Portugal parece algo nosso também", explica Donna, fã incondicional da cozinha tradicional portuguesa, rendida à proximidade das aldeias, à entreajuda. "Quando as senhoras estavam a cozinhar e me tentavam explicar o que estavam a fazer mas não sabiam a palavra em inglês, eu dizia para me dizerem em português e assim fui aprendendo...".Depois veio finalmente a música, que para eles é uma língua universal..A experiência na batuta da filarmónica de Penela tem corrido de feição. Em tempo de festas populares e arraiais, todos os fins de semana são de saídas para a banda. Stephen recorda os 37ºC do último fim de semana, numa dessas festas, um dia "normal" no interior do país. Já se habituou às arruadas, ao acompanhamento na missa, aos concertos debaixo de um sol abrasador. De vez em quando alguém percebe que o maestro é inglês e a curiosidade faz espoletar a história contada vezes sem fim..Ao contrário de Donna (que já consegue desenrascar-se em português), Stephen não fala ainda o idioma e nem a maioria dos executantes da banda fala inglês. "Eu percebo o que dizem, mas a falar não sou tão bom. Mas eles ajudam-me imenso. O que posso dizer é que a minha pronúncia portuguesa não melhorou grande coisa, mas a da banda, no que toca ao inglês, está sempre a evoluir". Bernardo confirma. Toca (trompa) desde os oito anos, cresceu na Sociedade Filarmónica Penelense e está encantado com esta nova fase..O presidente da Câmara de Penela vê no exemplo de Stephen uma esperança renovada num concelho que há anos vem perdendo população. A pensar nessa comunidade que cresce a olhos vistos, a autarquia está a preparar um programa de português para estrangeiros. Porém, reconhece que o faz "com alguma cautela, porque o município também não quer ser concorrência às iniciativas privadas que já existem". Eduardo Santos, 45 anos, tantos quantos durou a hegemonia do PSD em Penela, conseguiu nas últimas autárquicas virar o jogo a favor do PS. Diz-se apostado em proporcionar aos 5400 habitantes do concelho "cultura de proximidade", num território de 132 km, muito disperso. "Temos perdido mais gente do que seria normal e expectável, até por causa de um grande problema que temos aqui, que é a falta de habitação. Para maiores de 40 anos é fácil encontrar soluções de alojamento, mas os mais jovens querem casas prontas. Não querem passar por um processo de licenciamento ou de construção." Já os estrangeiros que vão chegando fazem-no de ânimo leve. Como o casal britânico..O autarca fala com orgulho dos vários talentos que já passaram pelas filarmónicas do concelho (Penela e Espinhal), sabendo que "é natural que Penela seja pequena demais para eles". De uma penada contam-se um trombonista na Ópera de Berlim e um outro na Orquestra de Jazz, em Lisboa. Além disso, dali saiu também um solista para o Teatro de São Carlos..Catarina Santana e André Louro fizeram o caminho inverno. Da (sua) aldeia conseguem ver o mundo, e trazê-lo ali. É o que fazem com a Companhia da Chanca, nomeadamente através do programa Dentro de Casa - à Beira da Aldeia, que começa este domingo e se prolonga até setembro, com o apoio da DGArtes. Este é o terceiro ano que levam às aldeias teatro, cinema, música e novo circo. Vão começar pela de Viavai, na freguesia de Espinhal, com o N-Semble da Sociedade Filarmónica Penelense, que os fez conhecer Stephen. Começaram (apenas) com uma parceria com a Casa de Beneficência Conselheiro Oliveira Guimarães e têm vindo a somar muitas outras. "Desde o início que eu queria muito trabalhar com a filarmónica. Finalmente aconteceu", conta ao DN André Louro. A Companhia da Chanca levará também espetáculos às localidades de Viavai, Podentes e Cumeeira, esta última terra natal de António Arnault, fundador do SNS. Os espetáculos acontecem às sextas, às 21h30, aos sábados e domingos, às 18h00. Sobrepõem-se, por momentos, ao canto das cigarras e dos grilos que inundam os campos. Tudo música, dirão os ingleses rendidos a Penela..paula.sofia.luz@ext.dn.pt