"A fome é sempre uma das primeiras consequências das crises” e é à mesa onde as famílias começam por cortar. O prato de comida é o principal sacrificado quando a pressão das contas sobre o orçamento familiar se adensa. O retrato é traçado por Isabel Jonet, presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome, que explica ao DN que, nos últimos dois meses, o número de pedidos de ajuda alimentar aumentou. A fatura com a habitação, a escalada dos custos com a energia e a subida do preço do cabaz alimentar são a tríade que tem levado cada vez mais pessoas e instituições a procurar auxílio.Só no primeiro trimestre do ano, a rede dos 21 bancos prestaram apoio a 370 mil famílias e a 2400 instituições, num total de 6,4 toneladas de alimentos distribuídos. O cenário agravou-se entre abril e maio. “Os dados que temos compilados até março estão em linha com o período homólogo, o que é bastante preocupante porque revelam que os pedidos não diminuíram de um ano para o outro. Nos últimos dois meses tem havido ainda um acréscimo de pedidos, não só das famílias, mas também por parte das instituições de solidariedade que tiveram de absorver o aumento do custo dos combustíveis e dos produtos alimentares. Estão a enfrentar mais desafios e a pedir-nos mais produtos”, detalha a responsável em entrevista ao DN.O acréscimo nas solicitações por parte das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) é uma das principais diferenças emergentes este ano e um “sinal de alerta”. “São os parceiros no terreno para apoiar as famílias mais vulneráveis e que ajudam através das creches, dos lares ou dos jardins infantis e são uma almofada de segurança. Esta rede precisa de ser protegida porque, por exemplo, há mais idosos com várias doenças que são ajudados por estes lares e há cada vez menos capacidade das famílias para poderem tê-los em casa. Há que poupar esta rede e ajudá-la para que não fique frágil por não estar a conseguir responder aos aumentos dos custos”, aponta. Do lado dos requerentes individuais, os reformados representam a franja mais fragilizada com pensões insuficientes para responder ao aumento do custo de vida. “É importante recordar que em Portugal quase dois milhões de pessoas vivem com menos de 520 euros por mês, de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). Ainda temos um valor muito elevado de idosos com pensões de reforma muito, muito baixas. Há muitas mulheres que não tiveram carreira contributiva e, portanto, recebem pensões de viuvez de 200 euros”, exemplifica.Já o número de famílias empregadas e com filhos a pedir ajuda para comer também tem sido crescente. São os chamados ‘trabalhadores pobres’, que auferem maioritariamente o salário mínimo e para quem os custos com a habitação representam 70% do orçamento familiar, impossibilitando o cumprimento das restantes obrigações financeiras. “O dinheiro que sobra para comer, para a luz, água, internet ou medicamentos faz com que, por exemplo, os filhos destas famílias não possam ir a atividades letivas. Não podem sequer ter qualquer tipo de pretensão de ir comer fora ou ao cinema, isso não existe. São famílias que vivem todos os meses com os tostões contados e que, se não fosse o apoio que recebem do cabaz de alimentos que vão buscar a uma instituição perto de si, não tinham comida na mesa”, garante Isabel Jonet.A presidente do Banco Alimentar Contra a Fome elucida que estes agregados já viviam com orçamentos “muito muito esticados”, sobretudo devido aos encargos com a casa, cenário que tem se tem configurado mais crítico com a atual conjuntura. “Qualquer pequena oscilação ou aumento de preço nas outras rubricas causa uma pressão muito grande nas famílias. O tema da habitação é muito preocupante. A juntar a isto, o aumento dos preços da energia e do cabaz alimentar estão a impactar bastante”, afiança. Por isso mesmo, a ajuda alimentar é decisiva para evitar o incumprimento nos créditos à habitação e ao consumo. “É uma forma de levar esperança e ajuda a estes agregados para que possam manter, de alguma forma, uma vida digna”, assegura.Numa leitura ao mapa nacional, é em Setúbal, Lisboa, Porto, Madeira e Algarve que se registam mais pedidos de apoio alimentar. Nestas regiões, justifica a responsável, “não existe outro tipo de solidariedade nem de respostas locais” e os bancos alimentares afirmam-se como recurso principal de socorro..Idosos são os que têm mais vergonha em pedir ajuda.Aos 66 anos de idade, Isabel Jonet soma metade da vida ligada ao Banco Alimentar Contra a Fome, onde iniciou o seu percurso no voluntariado em 1993. A experiência de três décadas não lhe deixa dúvidas para afirmar que as crises e a fome andam constantemente de mãos dadas. “As carências alimentares saltam logo à vista e quando há instabilidade, o número de pedidos aumenta logo, mesmo em antecipação”, elucida. Embora já tenha “assistido a muitas coisas”, o pior período, recorda, foram os dias da pandemia da covid-19. Atualmente, pesa a ansiedade que está a deixar os consumidores num limbo de incerteza e insegurança devido à guerra no Médio Oriente, cuja evolução e o desfecho imprevisíveis deixam as famílias mais carenciadas num elevado estado de preocupação.Dar o passo de bater à porta de um banco alimentar ou instituição quando o aperto financeiro se manifesta e o frigorífico fica despido é ainda um movimento de vergonha para muitos, principalmente para os mais idosos.“Os mais velhos foram criados e educados de uma forma diferente, sob a premissa de que não se pedia ajuda e muito menos ajuda para comer. Quando uma família pede ajuda para comer é quando já esgotou todas as portas a que podia bater. Quando se pede ajuda para comer é até, no fundo, ficar condicionado a uma realidade que é muito dura”, refere. Do lado oposto, para a geração mais nova é mais fácil reclamar assistência que é, muitas vezes, atribuída por via das instituições de solidariedade social que apoiam os filhos que frequentam as creches..São preciso medidas de combate à pobreza e políticas públicas "têm de se ajustar à realidade".São vários os fatores de tensão que ameaçam sobrecarregar ainda mais a economia nos próximos meses e, consequentemente, a carteira dos portugueses. Isabel Jonet defende ser urgente que se adotem medidas para melhorar as condições das famílias de forma a que os números dos pedidos de apoio com a alimentação não disparem na segunda metade de 2026. “No passado já tivemos apoios públicos, por exemplo, às pessoas mais velhas ou até para pagar os medicamentos, bem como aumentos dos abonos de família. Há um conjunto de apoios sociais que podem ajudar a criar alguma folga”, sugere.É fulcral, alerta, que exista uma consciência pública de que a taxa de pobreza em Portugal é “demasiado elevada” e, por isso mesmo, “as políticas públicas têm que se ajustar à realidade”. “Há um trabalho a fazer ao nível da habitação a preços mais acessíveis, mas também um conjunto de medidas que podem ser adotadas em relação ao apoio à pobreza infantil, no que respeita ao alargamento do acesso às creches gratuitas bem como outro tipo de prestações sociais que podem ser aprovadas”, propõe. “Sou economista e, para mim, a única forma de lutar contra a pobreza é gerando riqueza e a melhor riqueza que se pode gerar é o emprego mais bem pago. Temos de pôr a máquina da economia a funcionar para que não tenhamos que depender de apoios públicos”, acrescenta.Ainda assim, Isabel Jonet refreia as expectativas sobre aquela que poderá vir a ser a resposta do Governo. “Não perspetivo que nos próximos meses isso [a adoção de medidas] possa ser automático e, portanto, temos de estar conscientes de que só a solidariedade poderá ajudar estas famílias que estão com mais dificuldades”, infere. Para Isabel Jonet, as crianças que estão inseridas em agregados familiares com carências representam a maior preocupação. “Acabam por ser privadas de um futuro que poderia ser mais auspicioso e mais alegre. Em Portugal, temos uma transmissão intergeracional de pobreza que não há forma de se quebrar. Vejo as estatísticas do abandono escolar e fico muito preocupada “, considera..Campanha de recolha de alimentos decorre este fim de semana.Entre amanhã e domingo irá decorrer a primeira campanha do ano de recolha de alimentos promovida pelo Banco Alimentar Contra a Fome. A ação, que se realiza a cada seis meses, irá decorrer em 21 pontos do país e o apelo ao voluntariado ganha uma relevância acrescida na atual conjuntura. “A causa é levar alimentos a quem precisa. Se não tivermos voluntários nas lojas, não nos é possível cumprir este desígnio. A praia é o nosso maior concorrente nesta altura e, por isso, é imperativo apelar à solidariedade de todos. São os voluntários, que muitas vezes estão 10 horas em pé a instar à boa vontade de quem passa, que permitem que as campanhas sejam possíveis”, destaca Isabel Jonet.Apesar das condicionantes económicas, a presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome está confiante no altruísmo dos portugueses. "As campanhas são sempre o melhor que é possível, face à conjuntura em que se realizam. Na campanha de maio do ano passado foram recolhidas 410 toneladas de alimento, e presumo que nesta teremos uma quantidade sensivelmente igual. É sempre menor face a dezembro, devido aos subsídios de Natal, mas tenho a certeza de que será uma campanha muito bem sucedida e de que vamos, uma vez mais, ter uma expressão grande da solidariedade dos portugueses”, conclui..Famílias cortam à mesa para enfrentar aumentos. “Preços estão pela hora da morte, já não dá para comer um bife e meio”