Cristina Soeiro considera que a violência continua a ser um fenómeno estrutural, em especial a violência doméstica. Sublinha o número crescente de vítimas a recorrer a serviços de apoio, dados que refletem duas realidades: mais criminalidade e menos medo de quebrar o silêncio. A psicóloga forense com larga experiência na Polícia Judiciária sublinha que ser vítima vai muito além do momento do crime, deixando um medo persistente, consequências na saúde mental, impacto nos filhos e lembra que o percurso judicial é frequentemente longo, num sistema que ainda falha na resposta célere, na articulação entre entidades e na proteção efetiva. Sobre o Dia Europeu da Vítima de Crime, que se comemora este domingo (22 de fevereiro), diz que é um “barómetro do nosso grau de civilização”. E que, por isso, continua a fazer todo o sentido.Quando olha para as estatísticas agora divulgadas pela APAV, qual é a ideia mais importante que o público deve reter?A mensagem mais importante é dupla: a violência continua estrutural e, ao mesmo tempo, cada vez mais vítimas estão a chegar aos serviços. Isto é um sinal de alarme, mas também de confiança crescente na rede de apoio.É um retrato de mais vitimação ou de mais procura de apoio, ou ambas?As duas coisas. Há um volume real muito elevado de crime, sobretudo violência doméstica, e há mais pessoas a romper o silêncio e a pedir ajuda.Em 2026, o que significa, na prática, “ser vítima de crime” para além do momento do crime?Ser vítima de crime hoje não é só o momento do delito. É lidar com medo prolongado, impacto na saúde mental, nos filhos, no trabalho e num percurso judicial muitas vezes longo e exigente.O aumento de vítimas apoiadas verificado este ano: o que é que isto nos diz sobre Portugal enquanto sociedade?O aumento de vítimas apoiadas mostra que a violência é um problema estrutural, mas também que Portugal é uma sociedade onde as pessoas começam a acreditar que vale a pena pedir ajuda. Isso é positivo, mas obriga a respostas mais fortes do Estado.Que fatores pesam mais: denúncia, confiança nos serviços, campanhas, ou agravamento real?Há vários fatores em jogo: mais denúncia, maior confiança nos serviços e campanhas eficazes, mas também sinais de agravamento real em certos contextos, como a violência no lar e os crimes em relações de proximidade.Quem é que está a chegar mais ao apoio: há mudanças por idade, género, região ou contexto social?Continuamos a apoiar sobretudo mulheres em idade ativa, mas vemos mais idosos, mais homens e mais jovens a chegar. Ainda assim, migrantes, pessoas em contextos rurais, pessoas com deficiência e quem depende totalmente do agressor continuam muito fora do radar.O que é que lhe parece mais preocupante na evolução: frequência, gravidade, repetição, ou escalada?O que mais preocupa é a repetição e a escalada. Muitas vítimas vivem anos em violência, com episódios cada vez mais graves, antes de chegarem a um serviço como a APAV.Há sinais de que as pessoas procuram ajuda mais cedo do que antes?Temos alguns sinais de pedidos de ajuda um pouco mais precoces, mas ainda demasiado tardios. Muitas pessoas só procuram apoio quando já têm medo sério pela própria vida ou pelos filhos.Se tivesse de explicar a diferença entre “casos” e “pessoas”, que leitura errada é mais comum quando se olham estes dados?Uma confusão comum é pensar que ‘casos’ são o mesmo que ‘pessoas’. Uma vítima pode ter vários crimes associados ao longo do tempo; se não fazemos essa distinção, subestimamos o caráter crónico da vitimação.Porque é que a violência doméstica continua a ser o crime mais prevalente?A violência doméstica é o crime mais prevalente porque acontece em relações de confiança, é muitas vezes invisível ao exterior e ainda é, em parte, socialmente tolerada. É um problema de direitos humanos, não um conflito privado..Migrantes, pessoas em contextos rurais, pessoas com deficiência e quem depende totalmente do agressor continuam muito fora do radar.". O que falha mais: prevenção, proteção, justiça, ou rede social?Falhamos em vários níveis: na prevenção, porque não mudamos suficientemente crenças de desigualdade; na proteção, porque nem sempre reagimos com a rapidez necessária; na justiça, porque muitos processos são lentos; e na rede social, porque ainda se banaliza demasiado a violência.A violência em contexto de proximidade: porque é que é tão difícil reconhecer e sair?É difícil reconhecer e sair de uma relação violenta porque o abuso começa devagar, alterna com momentos de afeto e corrói a autoestima. A vítima passa a duvidar de si e a acreditar que o problema é dela.Quais são os mecanismos mais comuns de controlo?Os mecanismos de controlo mais comuns são económicos, emocionais, sociais e digitais: controlar o dinheiro, humilhar, isolar de amigos e família, vigiar telemóveis, redes sociais e localização.Onde é que começa a normalização do abuso e como se desmonta?A normalização começa quando confundimos ciúme com amor e insultos com ‘discussões normais’. Desmonta-se com educação, com exemplos claros de comportamentos inaceitáveis e com a mensagem firme de que não é preciso haver agressão física para ser violência.Quais são os principais sinais de risco de escalada que amigos/família/serviços deviam levar muito a sério?Frases como ‘é um assunto do casal’, ‘vai passar’ ou ‘ele vai mudar’ são mitos perigosos. Quanto mais tempo se espera, maior é o risco para a vítima e para os filhos. Devem ser levados muito a sério sinais como ameaças de morte, estrangulamento, perseguição, acesso a armas, violência perante crianças e isolamento total da vítima.Há momentos particularmente perigosos?Momentos como a separação, uma nova relação da vítima ou a apresentação de queixa são especialmente perigosos. São fases em que o agressor sente perda de controlo e o risco pode aumentar.O que é que fica sistematicamente fora dos números quando falamos de vitimação?Os números não mostram o medo diário, as noites sem dormir, a vergonha, a culpa, o impacto nos filhos, a perda de trabalho e o isolamento que muitas vítimas vivem..Muitas pessoas só procuram apoio quando já têm medo sério pela própria vida ou pelos filhos.". Trauma, impacto nos filhos, saúde mental, perda de trabalho, isolamento - o que pesa mais? A longo prazo é o impacto na saúde mental e nas crianças. Muitas levam consigo ansiedade, depressão, sintomas traumáticos e dificuldades de confiança, mesmo depois de o crime ter terminado.Que formas de violência tendem a ser mais invisíveis ou subnotificadas hoje?Stalking, violência sexual dentro da relação, crimes online, abuso de pessoas idosas ou com deficiência continuam muito subnotificados. São realidades em crescimento que ainda não vemos bem nos números. Qual dessas está a crescer? Vemos em particular um aumento de perseguição facilitada pelos meios digitais e de violência contra pessoas mais velhas, muitas vezes dependentes de quem agride.Se pudesse acrescentar um indicador às estatísticas para captar melhor a realidade qual seria? Um indicador fundamental seria o tempo entre o início do abuso e o primeiro pedido de ajuda. Mostraria quantos anos de vida em violência não aparecem em lado nenhum.Entre fevereiro e março, decorre em Portugal o primeiro inquérito nacional de vitimização, uma iniciativa da APAV. Em que medida nos vai ajudar?Essa é uma iniciativa que garante rigor, anonimato e confidencialidade, muito importante porque vai ajudar-nos a compreender melhor as experiências de vitimização, incluindo crimes que muitas vezes não são denunciados e o impacto da criminalidade na vida da pessoas e a relação com o sistema de justiça e as instituições de apoio às vitimas. O que acontece no “primeiro contacto” com a APAV?No primeiro contacto com a APAV, o mais urgente é escutar sem julgar, avaliar risco e construir um plano de segurança. Nas primeiras 72 horas, muitas decisões podem ser decisivas para a proteção da vítima e dos filhos. De salientar que a APAV apoia várias formas de vitimação, existindo uma forte incidência da violência doméstica na nossa esfera de intervenção.Plano de segurança, risco, apoio psicológico, jurídico, habitação - o que falha mais no país?No país, falha muitas vezes a articulação entre proteção, habitação, justiça e saúde. Um plano de segurança não chega se a pessoa não tiver onde ficar, nem uma medida legal basta se não for fiscalizada..Stalking, violência sexual dentro da relação, crimes online, abuso de pessoas idosas ou com deficiência continuam muito subnotificados.". Do apoio imediato à recuperação: como se mede “recuperação” e que percurso é mais comum?Medimos recuperação quando a pessoa volta a sentir segurança, ganha margem de decisão sobre a própria vida e consegue retomar projetos: trabalho, estudos, relações sem estar centrada no medo.Que obstáculos prolongam o sofrimento (processos, falta de respostas, revitimização)?O sofrimento prolonga-se com processos judiciais demorados, contactos obrigatórios com o agressor, falta de respostas em saúde mental e habitação e experiências de revitimização ao longo do percurso.Onde é que a vítima mais se perde no sistema: polícia, saúde, tribunais, proteção social?A vítima perde-se sobretudo nas passagens entre sistemas: da polícia para os tribunais, dos tribunais para a proteção social, da saúde para a rede especializada. Quando ninguém assume a coordenação do caso, a pessoa desiste.Um exemplo de boa articulação e um exemplo do que ainda corre mal...Temos bons exemplos quando polícia, justiça e apoio especializado comunicam rapidamente e tomam decisões coerentes. E ainda temos casos em que a vítima conta a mesma história várias vezes, sem que isso se traduza numa resposta integrada.Porque é que o Dia Europeu da Vítima de Crime, que se comemora neste domingo (22), continua a ser necessário e o que ele mede como “barómetro social”?O Dia Europeu da Vítima de Crime continua a ser necessário porque é um barómetro do nosso grau de civilização. Mede até que ponto somos, ou não, capazes de proteger quem foi mais vulnerabilizado pelo crime.O que mudou na proteção das vítimas e o que permanece inalterado?Mudámos muito em leis e em existência de serviços, mas pouco na rapidez e previsibilidade das respostas e na eliminação do estigma. Ainda é demasiado difícil pedir ajuda e ser bem acolhido à primeira.Se pudesse deixar três compromissos concretos para o próximo ano (instituições/sociedade), quais seriam?Encurtar o tempo entre a denúncia e as medidas de proteção, garantir apoio psicológico especializado para todas as vítimas de crimes violentos e reforçar a articulação entre justiça, saúde e setor social com metas avaliáveis.O que diria a alguém que está a viver abuso e ainda não pediu ajuda?Digo: não é exagero, não é culpa sua e não tem de aguentar sozinho. Falar com alguém é o primeiro passo para sair dessa situação.Que sinal lhe dá esperança — e qual é a sua maior preocupação para 2026?”Dá-me esperança ver mais pessoas a quebrar o silêncio e a exigir direitos. A maior preocupação é que o sistema não cresça à mesma velocidade dessa coragem, é aí que não podemos falhar enquanto país. O combate à violência precisa de todos nós, de forma articulada e consistente..APAV. Pedidos de apoio devido a crimes e outras formas de violência crescem 13,1% em relação a 2024