Consumo de canábis: "É bué fixe mas não é assim tão fixe"

Miúdos de 18, adultos de 60. Estudantes, artistas, bancários, empresários. Em comum, a canábis. No momento em que o BE prepara propostas de legalização de uso recreativo e terapêutico, dizem porque consomem e como se dão com isso

"A grande maioria dos meus colegas fuma. São pessoas que para entrarem no curso tiveram médias altas, são bons alunos. Toda a gente com quem me dou fuma regularmente, e isso não afeta em nada o desempenho. Não são nenhuns carochos." Sara Anselmo, 19 anos, aluna do 1.º ano de Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade Nova de Lisboa, ri-se. Fuma também, mas "no máximo duas vezes por mês; às vezes não chega a tanto". E nunca comprou: "É sempre oferecido, e geralmente é erva [marijuana, a flor da planta]."

Sara, que entrou no curso com 16,8, começou a fumar no último ano antes da faculdade, aos 18. E não escondeu da mãe, com quem vive: "Ela agradeceu-me ser sincera e alertou-me para os excessos. Acho que há um grande estigma à volta de todo este assunto, as pessoas tendem a pensar que uma ganza faz logo de uma pessoa uma drogada. Mas é como com o álcool, não temos todos de beber em excesso. Também sei de pessoas que estão constantemente a fumar e ficam um pouco alheadas. E isso sou contra. Uma coisa é de vez em quando, outra é viveres para aquilo."

E fuma porquê? "O álcool puxa-nos mais para a parvoíce, a erva dá para sermos introspetivos, para termos conversas mais sérias. Mas já tive experiências de não gostar da moca - lá está, nunca sabemos o que estamos a fumar, por ser ilegal." Sara é uma das dezenas de pessoas que responderam ao pedido, feito no Twitter, de testemunhos de utilizadores de canábis. Houve quem aventasse que se podia tratar de um truque da PJ, mas muita gente quis falar.

Caso do também universitário Gonçalo Ferreira, que começou a fumar exatamente na festa dos seus 18 anos, há quatro meses. Consome esporadicamente, como Sara - duas a três vezes por mês, quando sai com os amigos -, e também ele informou os pais. "Não é coisa que apoiem, mas sabem. Fumaram tabaco durante 40 anos e aceitaram porque sabem que é de vez em quando. E em tempo de exames e de muitos trabalhos não fumo." Quanto à "normalidade", faz coro com Sara: "Hoje em dia na faculdade qualquer um fuma ou já experimentou. É como fumar um cigarro." Desportista desde criança (joga basquete), Gonçalo esteve com os pais a pesquisar na net as consequências do consumo. "Pode trazer perdas de memória, cancro do pulmão... Mas o tabaco, que é legal, tem seis mil e tal substâncias que fazem mal." Entre as pesquisas feitas, porém, falhou uma informação importante: confundia legalização com descriminalização do consumo, a qual, em vigor desde 2001, significa não ser delito penal consumir embora continue a ser proibido (se apanhado, o prevaricador é presente a uma Comissão de Dissuasão de Consumo e pode ser multado; em 2015, houve 8608 processos de contraordenação relativos a posse/consumo de canábis, 85% do total das contraordenações relativas a consumo de substâncias ilícitas). Uma confusão provavelmente muito comum entre os mais jovens. "Achei que era permitido, e que vivíamos um paradoxo, com consumo legal e venda ilegal. Mas acho que não faz sentido nenhum ser proibido. Para já trazia lucro ao Estado, por causa dos impostos, e seria bom para a saúde porque saberíamos o que estamos a comprar, haveria controlo de qualidade. E fazer mal não é motivo para proibir - o tabaco e o álcool fazem e são legais - nem alterar o estado de consciência, porque beber também altera. As pessoas devem estar informadas dos benefícios e malefícios e decidir por elas. Cabe a cada um decidir o que quer fazer com a sua vida."

"Aos 63 anos arrisco ir de cana"

Sara e Gonçalo integram-se nos 5% de jovens adultos (15/34 anos) que assumiram, no último estudo publicado sobre consumo - o "III Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População", efetuado em 2012 -, ter fumado canábis no último ano. Essa faixa etária corresponde a mais de metade dos cerca de 200 mil portugueses entre 15 e 64 anos que consumiram nos últimos 365 dias. Muitos mais - 700 mil - são os que, no mesmo intervalo de idades, asseveram ter consumido a substância alguma vez ao longo da vida.

Alberto Lopes está no extremo superior do intervalo. Aos 63 anos, conta mais de metade da vida a fumar regularmente canábis. "Comecei nos anos 1970. Lembro-me bem da primeira vez, foi uma pedra fenomenal. De repente foi como se os meus ouvidos se abrissem. Achei um fenómeno muito curioso, essa alteração da perceção. Agora já conto com isso." A experiência ocorreu aos 17, durante um ensaio da banda em que tocava, antes do 25 de Abril. "Quando andava no liceu houve um grupo de malucos que fez uma plantação no jardim da Praça de Londres. Ainda esteve lá uns anos até a polícia descobrir e haver uma grande bronca nos jornais. Aí percebemos que estávamos no capítulo "drogados"." Ri-se. "A maneira como isto é tratado pela sociedade é completamente idiota e inexplicável. Não há qualquer fundamento científico para proibir ou para tratar isto como comportamento desviante. Há um fundo de fé, ou moralista." Definindo-se como artista - faz teatro, música e vídeo - só houve uma altura da vida de adulto em que não consumiu canábis, a que correspondeu à infância dos filhos, nos anos oitenta. "Consumir diariamente ou não depende do ciclo em que estou. Neste momento estou a escrever, não consumo. Mas quando estou a ensaiar estou sempre a fumar. É uma forma de estar concentrado." Irrita-o "andar a brincar aos cowboys com a polícia aos 63 anos e arriscar ir de cana". É ridículo, comenta: "Não devíamos ser forçados a lidar com pintas para comprar."

Jorge, 53 anos, agente imobiliário, não podia concordar mais. Fumando "praticamente todos os dias" desde os 17/18, conta 35 ou 36 anos de consumo consistente. Efeitos? "Li tudo o que pude sobre a substância para ver o que podia ser problema, e não reconheço nenhum efeito em mim que não possa ser atribuído a outra coisa. Tenho falhas de memória, mas acho normal nesta idade. E imponho-me fases de abstinência regularmente. Fico duas ou três semanas sem fumar." E sente falta? "Claro que sinto. E como agora não estou numa fase muito boa profissionalmente ainda sinto mais, porque quando fumo sinto menos as agressões."

Um dos efeitos adversos mais comummente apontados em quem consome canábis com muita frequência é o síndroma amotivacional, uma indolência desinteressada, "mole", falta de iniciativa, dificuldade de concentração, problemas com as obrigações normais da existência, alheamento social. Jorge está atento: "Faço um esforço enorme de lucidez e no contacto com os outros para perceber se há alguma coisa diferente em mim. Mas já vi amigos terem um comportamento antissocial por causa disto. Tiveram de largar." Há porém um efeito indesmentível do fumar quotidiano: no bolso. São cerca de 150 euros por mês, mais coisa menos coisa. Compra como? "Eles vendem placas de 200 e compro meia. Tento arranjar alguém de confiança. Agora costumo comprar a um tipo que está desempregado e faz isto para ter com que pagar a renda. Confesso que me custa alimentar a economia paralela, acho esta situação uma estupidez, para mais com esta idade. Não posso sequer ter umas plantas no terraço, porque tenho um polícia no prédio, senão tinha."

Em casa, a filha, de 17, sabe desde os 11 que aqueles cigarros que o pai enrola não são só tabaco. Mas o convívio não parece tê-la contaminado: "Ela não fuma sequer tabaco. Ajudei-a a fazer as escolhas dela. Disse-lhe que ter fumado o primeiro cigarro foi a maior estupidez da minha vida. E comecei a afastar-me quando fumo."

Isabel, 52 anos, tem uma história similar. O facto de ser empresária impede-a de "dar a cara", mas voluntaria-se, por e-mail, para entrevista presencial: "Tenho uma porta aberta ao público e não posso ser identificada - é uma questão de prudência, não de cobardia, na minha vida pessoal não escondo -, mas falo porque me irrita profundamente que se meta a canábis no mesmo saco das drogas duras, deixando convenientemente de lado o álcool, quanto a mim bem mais nefasto. Posso passar o ano inteiro sem beber uma gota de álcool e sempre disse aos meus filhos que prefiro vê-los fumar um charro do que beber um whisky ou um shot! Infelizmente conheço de perto tanto o alcoolismo como a toxicodependência e creio que teremos todos a ganhar com a desmistificação da canábis. Àqueles que defendem que leva ao consumo de outras substâncias respondo que pelo contrário, se os miúdos não tivessem de ir comprar a vendedores sem escrúpulos, que aproveitam para lhes impingir outras coisas, essas sim perigosíssimas, talvez as coisas corressem melhor."

"Já levei ganza para a TV"

Mora a cem quilómetros de Lisboa, com o marido e dois filhos, de 22 e 15 anos, e tanto ela como o marido fumam diariamente, exceto quando viajam ("Não dá para passar fronteiras com substâncias ilícitas na bagagem", comenta com uma gargalhada). Costumam consumir à noite e "às vezes ou muito frequentemente depois do almoço". E porquê? Isabel reflete. "Acho que passa muito pelo ritual de enrolar a ganzinha. E claro que há um efeito relaxante. Mas não estamos a falar de consumos idiotas, uma pessoa não anda a fumar ganzas o dia inteiro. É um vício, sim, mas está ao nível do café ou do tabaco." Sequelas, sente? "Muitas vezes penso que a minha falta de memória pode vir daí. Mas tenho imensas amigas que não fumam e têm as mesmas brancas. Sem qualquer arrogância, tenho esta idade, dois filhos, e uma empresa que funciona há 20 anos; acho que não me prejudicou." E como é com os filhos? "Sempre nos viram fumar. Um dia, devia ter uns 12, o mais novo apareceu com um pacotinho de erva a perguntar o que era. Explicámos, dissemos que era ilegal e reagiram com muita naturalidade, nunca mais perguntaram nada. Mas nunca lhes disse: "Vamos lá fumar ganzas que é muito bom para a saúde." Acho que o mais velho experimentou mas não se interessa por isso, é supersaudável, não fuma, não bebe..." Aliás, prossegue Isabel, "o combate ao álcool devia ser muito mais importante, aceita-se que um miúdo de 14 anos apanhe uma bebedeira de caixão à cova".

O humorista João Quadros, um ano mais velho do que Isabel, concorda: "Acho que dificilmente daqui a uns anos os meus filhos vão perceber que uma pessoa pudesse apanhar uma bezana com shots e ficar estendida no chão e não pudesse fumar uma ganza." Como Isabel, João tem dois filhos, de 10 e 12, uma rapariga e um rapaz. Ainda não teve uma conversa com eles sobre o assunto e nunca fuma quando estão presentes. "Evito estar ganzado quando estou com eles. Se quero que os meus filhos fumem? Não me importo, mas espero que saibam fazê-lo. E não serei daqueles pais que dizem "embora aí fumar uma ganza"." Afirmando "detestar vícios e dependências", só consome "drogas leves": "Metade da minha geração morreu por causa das drogas. Haxe é aquela coisa a meio. Não gosto de coisas em que deixe de me controlar. Comecei a consumir aos 18 e nessa altura havia haxixe a sério. Desde há uns 20 anos deixou de haver, só há bolota e pólen. A bolota é muito forte e muito cara. Geralmente fumo pólen. E a erva que há é skank [marijuana modificada em laboratório para ser mais potente]. Fuma--se e fica-se a olhar para a parede." Coisa que não convém a quem fuma para trabalhar: "Não tem a ver com ideias novas. Tens mais paciência para estar dentro do texto e ficas mais obsessivamente dentro do texto. Fumo várias vezes por dia. Como há pessoas que bebem uns copos, eu gosto de fumar enquanto trabalho."

Defensor da legalização, o humorista até já levou a substância para um programa de TV. "Foi na SIC Radical, quando a GNR andou a revistar as camionetas dos putos que iam de viagem de finalistas à procura de droga. Apanharam garrafas e garrafas de álcool e só quatro gramas de canábis, de modo que levei uma pedra de quatro gramas para mostrar, em pleno programa. O Pedro Boucherie [diretor do canal] dizia que não era verdadeira, e eu: "É, é ganza."" Ri-se. "É ridículo ser proibido. Já passei pelas piores coisas para comprar, inclusive ser roubado. Isto enquanto temos uma cultura de beber em todas as circunstâncias, incluindo no horário de trabalho." Ainda assim, não nega riscos. "Pode dar alguma dependência. Como tantas outras coisas. Se paro de fumar, e de vez em quando faço isso durante uns 15 dias, fico um bocado ansioso. E já houve alturas em que tive mesmo de parar. Sou meio bipolar e sei que por vezes o fumar me conduz a processos obsessivos. O meu psiquiatra diz que não é muito bom fumar quando estou nesses estados."

"Não é bom estar sempre mocado"

Fazer pausas no consumo para aferir da capacidade de controlo parece ser uma constante em quem fuma diariamente ou com muita frequência. Assim é também com Gustavo Godinho, 36 anos: "Há dias em que fumo duas vezes por dia, outros cinco, e semanas em que faço uma pausazinha para o corpo descansar." Tem uma empresa turística em Lisboa e, ao contrário de Quadros, quando está a trabalhar não fuma: "Ganzas a trabalhar não funciona. Claro que se pode acordar e fumar duas ganzas e querer fazer coisas produtivas, mas não dá. Já me aconteceu e não é bom." Depende, decerto, do que se faz na vida. Bernardo Fachada, conhecido como B Fachada, músico, 32 anos, também fuma todos os dias e reconhece na erva um potencial criativo. Mas nem sempre. "Nem toda a erva é criativa. A componente criativa é muito recente, tem que ver com o facto de a erva ter ficado muito mais forte [devido às modificações laboratoriais citadas]." De todos os entrevistados, é o único que vaporiza em vez de fumar. "A minha relação com a erva mudou muito desde que comecei a vaporizar. O ato de fumar é muito mais pesado, deixa muito mais problemas no corpo." Mostra o vaporizador, que comprou pela net: um tubo de metal prateado, com uma extremidade que se desenrosca e onde se coloca a erva. "É muito mais difícil ter consciência da própria tolerância quando se fuma. Com o vaporizador já não uso quantidades relevantes nem preciso de paragens longas. E gasto muito menos, uns 30 euros por mês." Uma das razões pelas quais as pessoas param, explica, para além da aferição da dependência - "que é psicológica, daí a importância de se saber que se mantém o controlo" -, é para voltarem a sentir com intensidade. "Porque acontece a tolerância à substância disparar para níveis em que já não se sente nada."

Também músico, dois anos mais novo, Pedro está precisamente num momento de paragem: não consome há duas semanas. "Adoro fumar erva. Recreativamente é altamente. Mas pode dar dependência. Se tiver, passo a vida a fumar. Portanto, a minha solução é não ter. Se alguém com quem estou tiver posso fumar, se ninguém tem nem penso nisso." Não quer identificar-se, explica, não porque esconda o facto de consumir, mas porque não quer fazer a apologia: "É bué fixe mas não é assim tão fixe. Fumar não é bom, não é saudável." Já lhe sucedeu, numa altura em que viveu fora do país, fumar sem parar. "Foi fixe, só que não é assim tão bom estares sempre mocado. Para certas funções criativas é ótimo, para fazer arranjos de canções, por exemplo, quando precisas de estar mesmo livre. Tira-te o filtro. E aguento sessões de estúdio mais longas. Mas também se corre o risco de estar tudo uma merda e achares que está ótimo." Alguma vez teve medo de estar a ficar dependente? "Não. Mas fiquei com medo de passar a achar que precisava de fumar para fazer música. E acho que é assim que se torna um vício. Sei que não preciso, mas a questão é que te põe num sítio diferente, num mundo à parte, um mundo especial. É como o álcool, mas numa versão mais funcional." Começou a beber e a fumar relativamente tarde - "Na minha escola toda a gente fumava aos 16. Só comecei a beber aos 18, e só fumei o primeiro cigarro por essa altura. Sempre tive um bocado de aversão à ideia de ter de fumar e beber para me integrar"- e nunca experimentou outras substâncias, além do álcool: "Não sinto falta e se gostasse acho que correria um sério risco de me passar para o outro lado. Ninguém lixa a vida toda por causa de ganzas."

Há quem conteste isso. Caso de Ricardo, 40 anos, emigrado nos EUA. Começou a fumar diariamente a partir dos 21, quando foi para a faculdade, longe da terra natal. E foi aí, diz, que as coisas se complicaram. "Sempre gostei do efeito da erva, a maneira como expande o cérebro. Na altura andava a reler Eça e, lembro-me, apontava nas margens os paralelismos com a sociedade e os tempos que corriam. (A Relíquia com moca da erva é um fartote de rir.) Mas rapidamente tudo deixou de ter graça. Como vim a descobrir anos mais tarde, a entrada na universidade, a distância para com o núcleo familiar e amigos de sempre, desencadeou uma depressão que continuou a agravar-se enquanto se agravava o consumo de álcool e haxixe. No segundo ano da universidade já ia para as aulas sob o efeito da droga. A droga aliada à depressão isolou-me." Casou-se e desistiu da universidade. Com a mulher, fumavam "duas ou três ganzas por noite, depois do trabalho"

Gastavam cerca de 20 euros por dia (600 por mês) e, acumulando dívidas, Ricardo começou a desfalcar a empresa em que trabalhava. "Nessa altura já só fumava para me alienar. Em 2009, dei o berro. Começaram os ataques de pânico, os vómitos constantes, o deixar de comer e o perder peso. O casamento, que há muito não andava bem, acabou." Confessou-se ao patrão e foi despedido. Pesava 43 quilos quando finalmente, após uma cirurgia no hospital, lhe marcaram uma consulta de psiquiatria. "A psiquiatra disse-me que nunca ia curar a depressão enquanto continuasse a fumar, porque o THC [o princípio ativo da canábis] acaba por ter um efeito depressivo e, além disso, enquanto fumasse era impossível organizar a minha vida, fator indispensável para a cura da depressão." Parou de fumar quando emigrou, em 2012. "Nos primeiros dois anos não toquei em nada. Mas tenho a depressão controlada e a anorexia curada e voltei a fumar há dois anos. Agora fumo pelo prazer da moca, limito-me a dar três bafos no cachimbo uma vez por semana. Ver a Fox News com a moca dá-me quase tanto gosto como ler A Relíquia." Conclui: "A erva tem os seus encantos, no entanto não deixo de sorrir quando leio ou ouço alguém dizer que não tem nem traz coisas más."

"Faz sorrir às portas da morte"

É inevitável concluir que tudo depende das pessoas. Há quem toda a vida beba álcool e nunca fique alcoólico ou sequer se embebede; há quem morra de cirrose. De acordo com o estudo citado, foram 2,8% as pessoas que, tendo consumido canábis ao longo da vida, sentiram necessidade de recorrer a ajuda. Não chegaram a 1% (0,8) aquelas que associaram o consumo a não realização de atividades importantes e menos ainda (0,7) a problemas de saúde. É quase inexistente o número dos que reconhecem mau rendimento escolar ou profissional (0,1%). O forte desejo pela substância e não resistência (2,9%) e o seu menor efeito (2,4%) são as alíneas com mais queixas. E há 10% dos consumidores que não conseguem imaginar a sua vida sem a canábis. O estudo conclui que 0,7% da população residente em Portugal, ou seja, 70 mil pessoas, "apresenta sintomas de dependência do consumo de canábis". Trata-se de um décimo dos que assumiram ter consumido ao longo da vida e de um terço dos que consumiram no último ano. E se o número dos que pedem ajuda por causa da dependência de canábis está a aumentar, mantém-se muito baixo: em 2015 foram contabilizadas 2637 pessoas em tratamento por consumo desta substância; em 2014 tinham sido 2315 e em 2013 foram 2045.

Justificarão estes números a proibição por motivos de saúde? Para Manuel, 39 anos, residente em Vila Real e estudante de Enfermagem, nem pensar: "É estúpido." Defende aliás que a substância deve ser legalizada precisamente por motivos de saúde. "Tive um grande amigo que estava com cancro no fígado e fumava. Via nos olhos dele o antes e o depois. Imagine que está às portas da morte e há algo que a põe bem-disposta, a faz sorrir e ser capaz de estar com os seus filhos, mesmo sabendo que vai morrer. Não há medicação química que dê esse efeito. É daqueles assuntos que nem têm discussão." Daí que Manuel, que fuma de vez em quando com a mulher, também enfermeira, e os amigos ("A última vez que fumei foi no concerto dos Waterboys, com a minha mulher e um grupo de amigos que incluía professores universitários e outra gente de bem"), e é apologista da legalização, preconize que se comece pela legalização por razões médicas.

O consumo de canábis por motivos médicos, legalizado em 29 estados americanos, é, de acordo com os resultados de uma revisão recente de milhares de estudos, eficaz no alívio das náuseas relacionadas com a quimioterapia, na redução dos espasmos da esclerose múltipla e no alívio da dor crónica. Mas os consumidores garantem outras benesses. B Fachada, que conhece quem, estando a fazer quimioterapia, se tenha inscrito num "clube de canábis" catalão para ter acesso à substância de forma segura, crê que fumar "ajuda a lidar com a ansiedade, o stress, as "dores de músico", tendinites, toda a parte de desgaste físico da profissão". Ana, 52 anos, funcionária da banca privada, recomeçou a consumir, depois de muitos anos sem tocar em canábis, para aliviar sintomas de "uma pré-menopausa horrível": "Tinha problemas para dormir, passei por períodos de quase anorexia, e aquilo regularizou-me o sono. Também me ajuda com as dores nas costas, cheguei a estar quase entrevada."

Tinha experimentado aos 17, numa altura em que, admite, provou "praticamente todas as drogas". Depois, ter sido mãe muito cedo (aos 19) e tido de ser autossuficiente levou-a a abandonar consumos. "Só voltei a consumir quando as minhas filhas estavam na faculdade." Fuma habitualmente ao chegar a casa do trabalho, ou antes de dormir. Como Manuel, acha que se deve começar pela legalização do uso terapêutico. Admitindo, porém, que o consumo possa de algum modo prejudicar-lhe aspetos da saúde enquanto melhora outros, questiona: "Com quem é que falo sobre isso? A que médico? Como sei que está informado e que o meu diagnóstico de outras coisas não poderá ser afetado, por causa dos preconceitos e da falta de informação?"

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